Nvidia: empresa afirma que irá continuar investimentos no setor (Wikimedia Commons)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 28 de agosto de 2026 às 14h36.
Última atualização em 28 de agosto de 2026 às 14h52.
A preocupação com investimentos circulares em inteligência artificial (IA) já rendeu à Nvidia pelo menos um recuo recente. A empresa negociava garantir financeiramente um projeto de data center orçado em mais de US$ 500 bilhões, em parceria com a OpenAI, quando a diretora financeira Colette Kress decidiu reduzir o tamanho do acordo — temendo a reação de investidores depois que a negociação vazou para a imprensa. No fim, a Nvidia bancou menos da metade do valor original discutido.
O ajuste pontual, apesar disso, não mudou a estratégia de fundo. Durante a divulgação de resultados do segundo trimestre fiscal, na quarta-feira, 26, a Nvidia — hoje a única empresa do mundo avaliada em US$ 5 trilhões, a mais valiosa do mundo, voltou a defender publicamente, sem meio-termo, o uso do próprio balanço para bancar a compra de chips por parte de seus clientes.
A companhia projetou crescimento de receita bem acima do que Wall Street esperava, e a ação disparou: só no pregão seguinte, a Nvidia somou US$ 442 bilhões em valor de mercado.
Foi nesse clima favorável que Kress detalhou, item por item, a rede de compromissos financeiros que a empresa vem construindo.
Entre eles, o já citado projeto em Ohio, uma parceria com seis gestoras de Wall Street para viabilizar US$ 500 bilhões em crédito para compra de chips, um contrato de reforço de crédito para um laboratório de IA não identificado adquirir 2 gigawatts (GW) de capacidade computacional, e acordos com provedoras de "neo-cloud" que topam repassar parte da receita à própria Nvidia — alguns deles, segundo o Wall Street Journal, já pausados. Kress também revelou que a empresa já aplicou cerca de US$ 50 bilhões diretamente em laboratórios de IA.
"Sabemos que alguns vão chamar isso de financiamento circular. Nós vemos de forma diferente", disse ela em teleconferência com analistas.
A lógica apresentada pela executiva é a de que laboratórios como OpenAI e Anthropic crescem receita num ritmo que nenhum balanço patrimonial tradicional sustentaria sozinho, e esse crescimento só continua se eles tiverem acesso a mais capacidade computacional — algo que ainda não conseguem financiar em condições competitivas por conta própria. Até que isso mude, segundo Kress, cabe à Nvidia bancar essa engrenagem.
O mercado comprou o discurso. A mesma notícia que, semanas antes, havia derrubado a ação em 5% quando veio à tona o acordo de Ohio, agora produziu o efeito oposto — alta de 8,7%, o segundo maior ganho de valor de mercado em um único pregão da história da bolsa americana.
Nem todo investidor está plenamente convencido. John Belton, gestor da Gabelli Funds, reconhece que esse tipo de financiamento ajuda a acelerar a construção de data centers e reduz o custo de crédito de operadoras menores de nuvem — mas admite que o tema segue "polarizador" para a ação, justamente pela desconfiança recorrente do mercado com esquemas de financiamento circular. Ainda assim, para ele, a aposta tende a se pagar nos próximos trimestres.
Se existe um projeto que resume essa estratégia, é o data center de Portsmouth, em Ohio, com 10 GW de capacidade planejada, a maior instalação do tipo já projetada no mundo.
A Nvidia aparece financiando quase todos os elos dessa cadeia, às vezes em mais de uma ponta ao mesmo tempo: garante até US$ 105 bilhões do valor da obra para ajudar a desenvolvedora SB Energy, braço do SoftBank, a levantar dívida, em troca de exclusividade no fornecimento de chips na primeira metade do projeto, deve financiar parte dos US$ 350 bilhões em chips que a OpenAI vai comprar para equipar o site, e ainda investiu diretamente US$ 1,5 bilhão na própria SB Energy e US$ 30 bilhões na OpenAI.
Jensen Huang, CEO da companhia, respondeu diretamente às críticas em seu perfil no X (antigo Twitter). Segundo ele, a prática segue a mesma lógica que a empresa já usa para garantir insumos em sua cadeia de suprimentos: assegurar capacidade quando existe visibilidade clara de demanda futura.
"Isso é financiamento circular? Não. A OpenAI pagará o aluguel", disse ele.
Parte da pressão para financiar clientes deve diminuir nos próximos meses: a Anthropic planeja abrir capital até outubro, e a OpenAI deve seguir o mesmo caminho em 2027, movimento que tende a dar a essas empresas acesso a crédito próprio, fora do guarda-chuva da Nvidia.
Mas um novo gargalo já ocupa o lugar do anterior: energia. A Nvidia vem repetindo, com fornecedores de eletricidade, o mesmo manual que aplicou a laboratórios de IA, investiu US$ 2 bilhões na desenvolvedora Lancium, com opção de ampliar a fatia, e colocou mais algumas centenas de milhões de dólares na concorrente Cloverleaf.
Bolha da IA? Entenda a rede de dívidas e investimentos que move as Big TechsA lógica também se repete. Quanto mais parceiras de energia a empresa tiver, mais data centers nascem já desenhados sob medida para os chips da Nvidia — não para os da concorrência.