Tecnologia

Oferta de US$ 53 bilhões pelo PayPal expõe pressão sobre pagamentos digitais

Stripe e Advent propõem US$ 60,50 por ação, enquanto carteiras de celular e sistemas instantâneos como o Pix reduzem o espaço ocupado por intermediários

André Lopes
André Lopes

Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 15 de julho de 2026 às 09h11.

Última atualização em 16 de julho de 2026 às 16h32.

A Stripe se uniu à Advent International, gestora de private equity, modalidade de investimento voltada à aquisição de empresas, para oferecer US$ 53 bilhões pelo PayPal, segundo a Reuters. A proposta de US$ 60,50 por ação representa um prêmio de 28% sobre o fechamento anterior dos papéis.

A possível operação importa não apenas pelo tamanho. Ela reúne uma empresa de infraestrutura financeira, um fundo especializado em reestruturações e uma das marcas mais conhecidas dos pagamentos digitais — justamente quando o modelo que sustentou o PayPal por mais de duas décadas enfrenta pressão crescente.

O PayPal surgiu em 1998, na Califórnia, com o nome Confinity. Fundada por Max Levchin, Peter Thiel e Luke Nosek, a empresa pretendia inicialmente desenvolver programas de segurança para dispositivos portáteis. Diante da baixa adesão, mudou de rumo e passou a oferecer transferências de dinheiro pela internet.

Peter Thiel foi sócio de Musk em tempos de PayPal

Em 2000, a Confinity se fundiu com a X.com, banco digital criado por Elon Musk. A companhia resultante adotou o nome PayPal e, dois anos depois, foi comprada pelo eBay por US$ 1,5 bilhão.

Peter Thiel foi sócio de Musk em tempos de PayPal

Parte relevante daquela equipe deixou o eBay e passou a criar ou financiar outras companhias de tecnologia. Musk fundou a SpaceX e tornou-se investidor inicial e presidente do conselho da Tesla, empresa que já existia. Thiel cofundou a Palantir e foi o primeiro investidor externo do Facebook. Reid Hoffman criou o LinkedIn, enquanto Levchin fundou a Affirm, fintech, empresa de tecnologia financeira voltada ao crédito.

Ex-funcionários do PayPal também participaram da criação do YouTube e do Yelp. O grupo recebeu da imprensa o apelido de “Máfia do PayPal” e foi retratado pela revista Fortune, em 2007, com roupas inspiradas em filmes de gângsteres. O episódio tornou-se símbolo da influência que a primeira geração da empresa exerceu sobre o Vale do Silício.

Por que o PayPal virou alvo

Enquanto seus antigos executivos construíam novos negócios, o PayPal perdeu espaço relativo no setor de pagamentos. A expansão do Apple Pay e do Google Pay colocou as carteiras digitais diretamente nos celulares, reduzindo uma vantagem que antes pertencia a serviços independentes.

Segundo os números apresentados, as ações do PayPal acumulavam queda superior a 40% desde o início do ano anterior, enquanto a empresa planejava eliminar cerca de 20% de sua força de trabalho ao longo de dois ou três anos. Os cortes fariam parte de uma reestruturação conduzida por Enrique Lores, citado no material como novo presidente-executivo da companhia.

Essa combinação ajuda a explicar o interesse da Advent: o PayPal mantém uma marca global e uma base ampla de usuários, mas enfrenta crescimento mais lento, pressão sobre as margens e desvalorização no mercado.

Para a Stripe, a aquisição ampliaria a presença no varejo e o relacionamento direto com consumidores. A empresa dos irmãos Patrick e John Collison foi avaliada em US$ 159 bilhões em uma recompra recente de ações de funcionários, ante US$ 106,7 bilhões no ano anterior, conforme os dados fornecidos.

A proposta prevê uma compra conjunta, sem o desmembramento imediato do PayPal. Stripe e Advent ficariam, cada uma, com metade do controle. O desenho indica que o principal objetivo seria ganhar escala e distribuição, e não apenas vender separadamente os ativos adquiridos.

O avanço dos pagamentos instantâneos

A disputa também reflete uma transformação mais ampla. O PayPal cresceu ocupando a posição de intermediário entre o cartão do consumidor e a conta do lojista. Esse espaço passou a ser disputado por big techs, grandes empresas de tecnologia, que oferecem carteiras integradas aos sistemas operacionais dos celulares.

Ao mesmo tempo, sistemas de pagamento instantâneo de conta para conta reduzem a necessidade de cartões, bandeiras e carteiras independentes em determinadas transações. Quando o dinheiro pode circular diretamente entre instituições financeiras, parte da remuneração cobrada pelos intermediários fica sob pressão.

É nesse cenário que o Pix se tornou relevante. Criado pelo Banco Central em 2020, o sistema transformou transferências instantâneas em um serviço disponível a qualquer hora, inclusive nos fins de semana e feriados.

Segundo os dados citados no texto-base, mais de 170 milhões de pessoas já haviam utilizado o Pix, e o sistema movimentou mais de R$ 3 trilhões apenas em outubro de 2025. O volume mostra a dimensão alcançada pelo meio de pagamento no mercado brasileiro.

O uso internacional ainda ocorre principalmente por iniciativas de instituições financeiras e empresas privadas, que permitem a brasileiros pagar com Pix em estabelecimentos de países como Argentina e Uruguai. Isso não equivale, necessariamente, à integração formal entre os sistemas dos bancos centrais.

O modelo brasileiro tornou-se um benchmark, referência de comparação, nas discussões internacionais sobre pagamentos instantâneos. Diversos países desenvolvem infraestruturas semelhantes, ainda que com regras, níveis de adoção e formas de governança diferentes.

O próprio PayPal tenta se adaptar a essa mudança. Conforme o relato apresentado, a empresa descreveu o Brasil como um “laboratório” e pretende avançar nos segmentos de adquirência, serviço que processa pagamentos para lojistas, e de integração com o Pix.

A contradição é que o PayPal busca participar do mesmo sistema que evidencia a perda de importância do intermediário tradicional sobre o qual construiu sua expansão. Uma eventual compra pela Stripe e pela Advent, portanto, não eliminaria esse desafio: apenas reuniria mais capital, tecnologia e distribuição para enfrentá-lo.

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