The Beatles: para Jobs, banda era sinônimo de um bom time no trabalho (Central Press/Hulton Archive/Getty Images)
Repórter
Publicado em 3 de abril de 2026 às 12h45.
"Meu modelo de negócios são os Beatles". A frase, dita por Steve Jobs em uma entrevista ao programa 60 Minutes em 2003, pode parecer inusitada, mas resume a filosofia que moldou duas das empresas mais inovadoras do mundo: a Apple e a Pixar. Para o gênio da tecnologia, o segredo do sucesso não estava no brilho individual, mas na sinergia de uma equipe coesa, onde os talentos se complementam e as fraquezas são controladas.
Jobs via no quarteto de Liverpool o exemplo máximo de colaboração. “Eles eram quatro caras muito talentosos que mantinham as tendências negativas uns dos outros sob controle. Eles se equilibravam, e o total era maior que a soma das partes”, disse ele, 23 anos atrás. Essa visão se tornou a pedra fundamental de sua gestão.
"É assim que eu vejo os negócios: grandes conquistas nos negócios nunca são feitas por uma só pessoa, mas sim por uma equipe", afirmou Jobs.
A admiração de Jobs pela dinâmica da banda era profunda. Para ele, juntos, John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr produziram um trabalho "brilhante e inovador". Após a separação, continuaram a criar obras de qualidade, mas, segundo Jobs, "nunca foi a mesma coisa".
Essa percepção foi diretamente aplicada na cultura da Apple.
A inovação disruptiva de produtos como o Macintosh, o iPod e o iPhone não nasceu da mente isolada de Jobs, mas da colaboração intensa entre equipes de engenheiros, designers e profissionais de marketing. Ele acreditava que, assim como os Beatles, um grupo de pessoas excepcionais, trabalhando em harmonia, poderia alcançar resultados extraordinários que seriam impossíveis individualmente.
A filosofia de Jobs não era apenas sobre trabalho em equipe, mas sobre montar a equipe certa.
Ele era obcecado por contratar apenas os melhores, os chamados "A-players". O motivo, para ele, era que pessoas talentosas se auto gerenciam e elevam o padrão de exigência do grupo.
A história dos próprios Beatles servia de exemplo. Antes de Ringo Starr, a banda tinha outro baterista, Pete Best. Na visão de muitos, Best era bom, mas Ringo era um "A-player". A troca foi decisiva para a química e o sucesso do grupo.
Essa mentalidade se traduzia em uma cultura de contribuição obrigatória. Jobs não contratava pessoas inteligentes para dizer a elas o que fazer, mas para que elas dissessem a ele o que fazer. Ele acreditava em um diálogo criativo, onde cada membro da equipe não apenas executa tarefas, mas molda ativamente a direção dos projetos.
Um dos paralelos mais diretos entre a gestão de Jobs e a dinâmica dos Beatles era a regra do consenso. Na Apple, decisões estratégicas importantes exigiam acordo unânime da equipe executiva. Se as pessoas mais inteligentes na sala não estivessem alinhadas, argumentava Jobs, a ideia não estava madura o suficiente.
Essa era exatamente como os Beatles operavam. Nenhuma decisão importante sobre turnês ou gravações era tomada a menos que os quatro membros concordassem. "Éramos quatro partes iguais. Se alguém não quisesse fazer algo, nós não fazíamos", disse Paul McCartney certa vez. Em ambos os casos, o consenso forçava um debate mais profundo e garantia o comprometimento de todos com o resultado final.
Além disso, tanto a Apple quanto os Beatles foram movidos por uma competição saudável. A rivalidade criativa entre Lennon e McCartney empurrou a banda a novos patamares, assim como a competição pública entre Steve Jobs e Bill Gates, da Microsoft, serviu de combustível para a Apple inovar e se diferenciar.
A relação entre as duas "Apples" — a de Jobs e a dos Beatles (Apple Corps) — foi, ironicamente, marcada por décadas de batalhas judiciais pelo uso do nome. As disputas, que começaram em 1978, só terminaram em 2007 com um acordo estimado em US$ 500 milhões, no qual a Apple Inc. adquiriu os direitos da marca.
Apesar dos conflitos, a admiração de Jobs nunca diminuiu. Em 16 de novembro de 2010, ele realizou um sonho pessoal ao finalmente disponibilizar o catálogo completo dos Beatles na iTunes Store. "Tem sido um caminho longo e tortuoso para chegar até aqui", declarou na época.
A lição deixada por Jobs, inspirada na maior banda de rock da história, permanece atual. O sucesso duradouro não é fruto de um gênio solitário, mas da capacidade de reunir talentos diversos e fazê-los tocar em perfeita harmonia.