(Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 22 de julho de 2026 às 16h05.
Fazer um Pix é algo bastante trivial para quem vive em uma capital, mas depende de uma condição que boa parte da Amazônia não tinha até pouco tempo atrás: uma conexão de internet estável e rápida.
Em comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas do Norte, foi a conexão via satélite que viabilizou serviços antes inacessíveis.
Para resolver esse e outros problemas de acessibilidade digital, a empresa americana Starlink, de Elon Musk, começou a operar na Amazônia Legal em setembro de 2022 e, ao final do primeiro semestre de 2023, já era o serviço de internet por satélite mais usado da região Norte, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
Não é que a Starlink tenha levado o Pix à floresta — o sistema é do Banco Central (BC) e funciona em todo o país. O que a internet via satélite fez foi entregar a conexão sem a qual o pagamento instantâneo simplesmente não roda.
A diferença técnica está na órbita.
Os satélites da Starlink operam em órbita baixa, a cerca de 550 quilômetros de altitude, contra os quase 36 mil quilômetros dos satélites geoestacionários tradicionais.
A proximidade reduz a latência — o tempo de resposta da conexão — para algo entre 20 e 40 milissegundos, o que permite serviços que antes travavam ou não funcionavam.
Como o sinal vem do céu, não depende de cabeamento, o obstáculo histórico numa região de floresta densa, rios e distâncias longas.
É essa estabilidade que o Pix e outras tecnologias exigem. O pagamento instantâneo, por exemplo, precisa de uma conexão que confirme a transação em tempo real; sem ela, não há transferência. O mesmo vale para telemedicina, aulas online e videochamadas.
Em 2016, cerca de uma em cada três pessoas das áreas rurais brasileiras usava internet. A partir de dados da PNAD Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o indicador de uso da rede na área rural avançou para mais de 80% da população acima de 10 anos, impulsionado pela expansão das redes e da banda larga via satélite.
O crescimento é atribuído à combinação de expansão das redes móveis, políticas públicas de conectividade e, de forma cada vez mais relevante, à internet banda larga via satélite onde a infraestrutura tradicional não chega.
A capilaridade é grande. A Starlink tem clientes em 697 dos 772 municípios da Amazônia Legal, o equivalente a 90% das cidades da região, segundo dados da Anatel.
Isso permitiu que escolas, postos de saúde, associações e pequenos negócios passassem a operar com conexão estável mesmo em áreas de difícil acesso.
No Quilombo do Abacatal, em Ananindeua, na região metropolitana de Belém, o sinal convencional sempre foi precário por causa da densa cobertura vegetal.
Após a chegada da Starlink por um projeto voltado a comunidades tradicionais, a internet passou a ser usada para pagamentos via Pix, ligações, videoaulas e reuniões, segundo relato da liderança comunitária Turi Omonibo à imprensa local.
O efeito ultrapassa a conveniência. A possibilidade de fazer transações digitais reduz barreiras logísticas e amplia a autonomia econômica de quem antes precisava se deslocar até a cidade — muitas vezes horas de barco — para operações bancárias simples.
A Starlink encerrou 2024 com cerca de 330 mil acessos ativos no Brasil, com forte presença na Região Norte.
Com ritmo acelerado de expansão, o país se consolidou como um dos maiores mercados mundiais da empresa em banda larga fixa via satélite.
A expansão tem aval regulatório. Em abril de 2025, a Anatel aprovou a ampliação da licença da empresa para operar 7,5 mil satélites adicionais sobre o território nacional, além dos cerca de 4,4 mil já autorizados.
A decisão, unânime no conselho, veio acompanhada de ressalvas da área técnica da agência sobre soberania digital, segurança de redes e concorrência.
É justamente a concentração que acende o alerta. Em vastas áreas do Norte, a Starlink é a principal — e por vezes única — via de conexão de qualidade, o que coloca uma infraestrutura considerada estratégica nas mãos de uma única empresa estrangeira, controlada por um dos homens mais ricos do mundo.
O risco deixou de ser teórico em 2024. Quando o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou o bloqueio de contas da Starlink no embate judicial com a rede social X, também de Musk, a própria Anatel admitiu que teria dificuldades técnicas para barrar a operação da empresa no país caso a Justiça decidisse pela suspensão: a ação dependeria de lacrar as 20 estações terrestres que conectam os satélites à rede, sem garantia de corte total do serviço.
O quase monopólio, porém, tem prazo de validade indefinido. A Amazon, de Jeff Bezos, lançou os primeiros satélites operacionais do Projeto Kuiper, sua constelação de órbita baixa, e já tem autorização da Anatel para operar no Brasil. A OneWeb também recebeu aval da agência.
O caminho do Pix até comunidades ribeirinhas da AmazôniaE a própria tecnologia muda de forma. A Anatel aprovou as condições regulatórias para o direct-to-device, a conexão de celulares diretamente aos satélites, sem antena intermediária — serviço que a Starlink já testa em outros países e que ainda não opera comercialmente no Brasil.