O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante anúncio da medida provisória da terceira edição do Brasil Soberano (Ricardo Stuckert)
Repórter especial em Brasília
Publicado em 22 de julho de 2026 às 16h00.
Última atualização em 22 de julho de 2026 às 19h37.
O governo Lula anunciou, nesta quarta-feira, 22, uma nova edição do Programa Brasil Soberano, com orçamento de R$ 18,5 bilhões, destinado a mitigar os efeitos negativos do tarifaço de 25% imposto pelo governo dos Estados Unidos a exportações brasileiras. O pacote, que será formalizado em uma medida provisória (MP) a ser enviada ao Congresso, oferecerá linhas de crédito com taxas de juro subsidiada, de 3% a 9,8% ao ano.
Desse montante, R$ 13,5 bilhões serão recursos do Tesouro e R$ 5 bilhões virão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), segundo o Ministério do Planejamento.
O tarifaço de 25% começou a ser aplicado nesta quarta-feira e, pelas estimativas do governo, deve afetar negativamente 18% das exportações do Brasil, o equivalente a US$ 7,4 bilhões, tendo como base o registrado em 2024, ano anterior ao primeiro tarifaço de Trump contra o país.
As taxas de juros do novo programa são menores do que as praticadas na primeira versão do Brasil Soberano, que variavam de 15% a 17% ao ano. A redução das taxas era um dos pedidos feitos por empresários e entidades setoriais ao governo federal nos últimos dias. Outras demandas dos setores, no entanto, como o diferimento de tributos federais e uma nova versão do Reintegra, regime tributário que permite a devolução de parte dos impostos pagos na cadeia produtiva na exportação, não serão incluídos na MP.
Os recursos serão destinados aos setores afetados negativamente pelo tarifaço, mas também a empresas que exportavam para o Golfo Pérsico e que tiveram receita reduzida em razão da guerra naquela região.
Um terceiro grupo de segmentos, considerado estratégico pelo governo, também será beneficiado pelo programa. Fazem parte dele setores como o de fertilizantes, minerais críticos e terras raras, além dos segmentos automotivo, têxtil e farmacêutico.
As taxas de juros do novo Brasil Soberano voltadas a empresas afetadas pelo tarifaço vão variar de 6,5% ao ano na linha de crédito de apoio a investimentos, a 9,8% ao ano para a linha de capital de giro voltada a grandes empresas. Haverá uma modalidade de crédito voltada a capital de giro para micro e pequenas empresas e outra voltada a financiar a exportação, ambas com juros de 8,3% ao ano.
Uma linha voltada a mineradoras que tenham projetos de transformação de minerais críticos terá a menor taxa de juros do programa, de 3% ao ano.
"Temos na base exportadora, 2.400 empresas que exportam para os Estados Unidos e um número aproximado de 1.000 empresas são capazes de se sujeitar (aderir ao novo Brasil Soberano). Mas nem todas as empresas que estão sujeitas à Seção 301 vão solicitar (o benefício)", afirmou o ministro Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
As contrapartidas a serem exigidas pelas empresas, os critérios de admissibilidade e a distribuição dos recursos do programa nas distintas linhas de crédito ainda serão estipulados por um comitê cuja criação será prevista na MP, afirmou o ministro do Planejamento, Bruno Moretti.
O programa não prevê, segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, o diferimento de impostos nem benefícios fiscais.
Durante o anúncio do programa, Durigan afirmou que os recursos mobilizados pelo Tesouro agora são montantes já previstos na primeira edição do Brasil Soberano e na repactuação das dívidas do agronegócio, mas que não foram utilizados ainda. Por isso, não haveria impacto fiscal adicional com o programa.
No evento, realizado no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a dizer que o tarifaço não tem razão e está baseado em mentiras, mas reafirmou que o Brasil continuará em negociações com os americanos.
"Estamos na mesa de negociação, mandamos vários documentos e propostas. (...) E a gente nunca encontrou reciprocidade na conversa. Isso vai aumentar o nosso antagonismo aos Estados Unidos? Não, porque a gente não vai sair da mesa de negociação", afirmou Lula.
O presidente também ressaltou que o Brasil tem buscado novos mercados a produtos brasileiros.
"Estamos discutindo com vários países para que a gente epossa suprir ou até ganhar mais do que estava ganhando (com as exportações aos EUA). O Brasil tem credibilidade conquistada no mercado internacional", disse o presidente.
O ministro Márcio Elias Rosa também afirmou que o governo espera para esta sexta-feira, 23, o anúncio de uma tarifa adicional, de 12,5% para o caso do Brasil, também no âmbito da Seção 301, mas em outra investigação que afeta um grupo de 60 economias (incluindo a União Europeia).
O ministro afirmou que espera retomar as conversas com o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer após a provável aplicação da nova tarifa e depois do dia 29 de julho, quando termina o prazo dado aos EUA para isenção de tarifas para bens que estavam em trânsito quando do anúncio do tarifaço.