Tecnologia

De Carajás para o mundo: a plataforma de IA da Nokia que funciona mesmo sem internet

Lelio Di Martino, diretor de produto e redes IP da Nokia, detalha com exclusividade à EXAME como o Cognitive Operations mantém inteligência artificial funcionando mesmo quando toda a conectividade externa é bloqueada

Nokia: empresa criou plataforma para IA funcionar sem internet (Imagem gerada por IA/Exame)

Nokia: empresa criou plataforma para IA funcionar sem internet (Imagem gerada por IA/Exame)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 17 de setembro de 2026 às 10h47.

Última atualização em 18 de setembro de 2026 às 11h41.

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A Nokia lançou globalmente o Cognitive Operations, plataforma de IA criada no Brasil para manter operações críticas ativas mesmo com conectividade degradada ou interrompida. A tecnologia transforma veículos em nós autônomos capazes de alternar redes, formar conexões mesh e processar dados localmente. Mineração, segurança pública e defesa estão entre os setores atendidos.


Na Vale, em Carajás, a Nokia já testa como cruzar dados de equipamentos autônomos com indicadores de conectividade. É o maior exemplo de implantação real de uma plataforma que a empresa acaba de lançar globalmente: o Cognitive Operations (CO), voltado a operações críticas em setores como mineração, segurança pública e defesa.

É exatamente esse cruzamento entre operação em mina e comportamento de rede que sustenta a principal promessa do produto, de manter a inteligência artificial (IA) funcionando mesmo quando a conectividade falha.

"Perder a conexão não significa, necessariamente, perder em conectividade; e perder por completo a conectividade passa, agora, a não significar perder a inteligência local", afirma Lelio Di Martino, ex-pesquisador dos Nokia Bell Labs radicado no Brasil, hoje diretor de produto e redes IP da Nokia, em entrevista exclusiva à EXAME.

Os três níveis da plataforma

A plataforma foi criada a partir do trabalho dele durante sua passagem pelo Nokia Bell Labs e é fruto de tecnologias, pesquisas e validações operacionais que vêm sendo construídas e testadas há anos, segundo o executivo, e tem como conceito central o "Vehicle-as-a-Node" (VaaN), que transforma cada veículo de emergência em um nó autônomo de inteligência, operando em três níveis.

No primeiro, o VaaN utiliza nossa tecnologia de agregação e orquestração de múltiplas tecnologias de acesso, tais como a rede celular pública, o private wireless, o Wi-Fi, os satélites. Se um acesso deixar de estar disponível, outros caminhos podem ser utilizados.

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Já no segundo nível, os veículos formam uma rede mesh, permitindo que um que tenha perdido acesso direto à infraestrutura continue se comunicando por meio de outros ainda conectados.

No terceiro — se realmente não existir nenhum caminho externo —, a capacidade computacional permanece no próprio veículo. Segundo Di Martino, o Cognitive Edge Node (CEN) pode continuar executando IA em nível local, fazendo análise de vídeo, processando informação de sensores e de regras operacionais e armazenando dados para posterior sincronização.

Mina de minério de ferro da Vale em Carajás

Mina de minério de ferro da Vale em Carajás (Vale/Washington Alves/Divulgação)

O que fica no dispositivo, o que sobe para a nuvem

Di Martino afirma que a arquitetura foi desenhada para "levar inteligência ao ponto de consequência" — onde o dado é gerado e uma decisão precisa ser tomada.

Processamentos sensíveis à latência, como análise de vídeo e detecção de anomalias, ficam no Cognitive Edge Node. "Não faz sentido enviar cada stream de vídeo ou sensor para uma cloud, tendo de esperar a análise e recebendo a decisão de volta quando, na verdade, a decisão precisa acontecer em tempo real", diz.

Já o Nokia Cognitive Operations Central consolida a visão da operação, e o cliente decide onde essa camada roda — inclusive em ambientes isolados, sem qualquer nuvem pública. "A nuvem é uma opção de implementação e escala, e não uma dependência da inteligência operacional no campo", afirma.

Essa divisão entre o que fica local e o que sobe à nuvem também é o que sustenta a resposta de Di Martino sobre um dos pontos mais delicados da tecnologia: de quem é a culpa quando essa IA erra em uma emergência.

Para ele, o problema é mais de governança do que de tecnologia em si. Di Martino afirma que "a plataforma pode disponibilizar um alerta, uma classificação ou uma recomendação", mas o uso desse resultado depende "da legislação aplicável, dos padrões de segurança de cada setor [...] e das práticas operacionais estabelecidas para aquele ambiente".

"A tecnologia fornece a capacidade de executar a inteligência onde ela é necessária; a governança é definida pelo contexto em que a aplicação é utilizada", diz.

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É por essa mesma razão que Di Martino também não enxerga a entrada mais forte da Nokia em IA operacional como uma diversificação de receita, mas como extensão natural do próprio negócio de redes.

"Eu não vejo isso como uma saída das redes: longe disso. As redes são o fundamento de toda a atividade industrial contemporânea", diz. "Durante décadas, o desafio foi conectar pessoas; em seguida, máquinas [...] e, agora, estamos conectando inteligências."


Perguntas frequentes

O que é o Nokia Cognitive Operations? +

O Cognitive Operations é uma plataforma de inteligência artificial para operações críticas em setores como mineração, segurança pública e defesa. A tecnologia nasceu no Brasil a partir do trabalho de Lelio Di Martino, ex-pesquisador dos Nokia Bell Labs e atual diretor de produto e redes IP da Nokia.

Como a IA da Nokia funciona quando não há conexão? +

A plataforma alterna entre rede celular pública, private wireless, Wi-Fi e satélite e, se necessário, conecta veículos por uma rede mesh. Segundo Lelio Di Martino, quando nenhum acesso externo está disponível, o Cognitive Edge Node continua processando vídeos, sensores e regras operacionais localmente.

O que significa transformar um veículo em um nó de inteligência? +

O conceito Vehicle-as-a-Node transforma cada veículo de emergência em uma unidade autônoma de comunicação e processamento. O veículo pode usar diferentes redes, retransmitir dados por outros veículos e executar IA localmente sem depender da nuvem.

O que acontece se todas as formas de comunicação forem bloqueadas? +

Nenhuma tecnologia consegue transmitir informações quando todos os meios físicos estão bloqueados, reconhece Lelio Di Martino. Nesse cenário, o sistema mantém a IA e o processamento de sensores no veículo, armazena os dados e os sincroniza quando alguma conexão é restabelecida.

Quem é responsável quando a IA da Nokia comete um erro? +

A responsabilidade depende da governança definida para cada aplicação, afirma Lelio Di Martino. Segundo o executivo, alertas e recomendações da IA devem ser incorporados às decisões conforme a legislação, os padrões de segurança e os processos operacionais de cada organização.

Quais setores devem adotar primeiro o Cognitive Operations? +

A mineração deve liderar o crescimento nos próximos dois ou três anos, seguida por construção e maquinário pesado, segundo Lelio Di Martino. A Nokia já desenvolveu um projeto com a Vale em Carajás e também prevê avanço em defesa, segurança pública, energia e logística.

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