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O pacto secreto da LVMH por trás da fortuna desaparecida na Hermès

Documentos obtidos pela Reuters revelam acordo de 2002 para adquirir a fatia de um herdeiro da grife francesa, hoje no centro de uma disputa bilionária sobre uma fortuna que teria sumido

Placa da grife Hermès em fachada de loja em Paris. A LVMH é acusada de ter negociado secretamente a compra de ações da empresa rival (Reprodução)

Placa da grife Hermès em fachada de loja em Paris. A LVMH é acusada de ter negociado secretamente a compra de ações da empresa rival (Reprodução)

Gustavo Frank
Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 18 de setembro de 2026 às 12h00.

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A disputa entre LVMH e Hermès pelo controle acionário da grife francesa vem de um quarto de século atrás, quando o grupo de Bernard Arnault começou a comprar ações da rival de forma discreta. Em outubro de 2010, Arnault surpreendeu o mercado ao revelar uma participação de 17% na Hermès, movimento que a família fundadora classificou como tentativa de aquisição hostil. A fatia da LVMH chegou a 23% antes de as duas empresas fecharem uma trégua em 2014, com o compromisso de liquidar a posição.

Documentos obtidos pela agência Reuters agora mostram que essa disputa teve um capítulo até então desconhecido. Em 2002, a LVMH assinou um acordo para comprar diretamente as ações de Nicolas Puech, um dos herdeiros da família fundadora da Hermès, negociado com o gestor de sua fortuna, Eric Freymond.

O episódio ganha relevância porque Puech move hoje uma ação bilionária contra a LVMH e Arnault, alegando que sua participação de 6% na Hermès desapareceu sem que ele soubesse. Puech cobra 14 bilhões de euros em indenização, o equivalente a cerca de R$ 83,3 bilhões. Pelo valor de mercado da Hermès hoje, essa fatia valeria aproximadamente US$ 10 bilhões, ou R$ 51,3 bilhões.

O processo corre em Paris e caminha em paralelo a uma investigação criminal sobre o paradeiro da fortuna do herdeiro, aberta depois que Freymond foi encontrado morto em julho de 2025, atropelado por um trem na Suíça. Autoridades suíças classificaram o caso como suicídio, e Freymond negava qualquer irregularidade antes de morrer.

Documento contradiz versão oficial da LVMH

Nicolas Puech

Nicolas Puech, herdeiro da família fundadora da Hermès, hoje processa a LVMH cobrando bilhões por ações que diz terem desaparecido (Reprodução/Instagram)

Em petição apresentada em junho, a LVMH negou de forma categórica ter tentado comprar as ações de Puech, alegando que o plano da época era o oposto: atrair o herdeiro para um bloco de acionistas capaz de pressionar a Hermès de dentro, algo que dependia justamente de ele manter sua participação. Os documentos revisados pela Reuters contradizem essa versão. Em novembro de 2002, o então principal assessor de Arnault, Pierre Godé, morto em 2018, assinou com Freymond um contrato para a compra de milhões de ações da Hermès pertencentes a Puech e a outros membros da família.

O advogado suíço Alexandre Montavon, que intermediou o contato entre Freymond e a LVMH em 2001 e hoje é investigado por suposta participação no desvio das ações de Puech, confirmou a existência do acordo em depoimento a promotores franceses. Segundo ele, a compra estava condicionada à saída do então CEO da Hermès, Jean Louis Dumas, que só se aposentou em 2006. Montavon também integrava o conselho da gestora de Freymond enquanto prestava consultoria à LVMH, e disse aos investigadores nunca ter questionado Puech diretamente sobre a venda, já que todos os poderes haviam sido delegados ao gestor.

A LVMH afirma, em processo movido na Justiça suíça em 2017, que o contrato de 2002 jamais chegou a ser executado e que a empresa não conseguiu confirmar se Freymond tinha autorização de Puech para vender as ações. O grupo também alega ter destruído o documento no fim de 2010, mesmo ano em que revelou publicamente sua fatia na Hermès.

Pagamentos milionários a um gestor com acesso à família

Uma disputa anterior entre Freymond e a LVMH, movida por ele na Suíça em 2016, revelou parte da relação financeira entre as duas partes. Freymond alegava não ter sido pago de forma justa pelo papel que desempenhou ajudando o grupo francês a acumular ações da Hermès, e o caso terminou em acordo em 2019, com a LVMH pagando a ele 10 milhões de euros, cerca de R$ 59,5 milhões.

Documentos daquele processo, agora reexaminados pela Reuters, mostram que a LVMH e a holding da família Arnault pagaram ao todo pelo menos US$ 20 milhões, o equivalente a R$ 102,6 milhões, à gestora de Freymond entre 2001 e 2009. Segundo a própria LVMH, os valores serviam para preservar o vínculo com o gestor e impedir que ele intermediasse a venda de ações da Hermès para outros concorrentes.

Freymond teria proposto usar a conta de Puech como intermediária para compras de ações pertencentes a outros herdeiros da Hermès, de forma a esconder que a LVMH era a compradora real, já que parte da família poderia recusar vender para uma rival direta.

Família dividida sobre o paradeiro das ações

Mais de cem herdeiros distribuídos em três ramos da família controlam participações na Hermès, fundada em 1837, muitos deles atuando na própria empresa. Puech figurava entre os que detinham as maiores fatias herdadas. O atual CEO da grife, Axel Dumas, também da família fundadora, declarou publicamente após a morte de Freymond estar convencido, há tempos, de que Puech não possui mais suas ações, embora não tenha detalhado os motivos dessa avaliação. Ele afirmou aguardar o desfecho da investigação criminal, mas disse não acreditar que os papéis possam ser recuperados.

Procurados, a LVMH não comentou o acordo de 2002 nem os pagamentos a Freymond. Puech recusou-se a falar, citando o processo criminal em andamento, e a Hermès também não se manifestou sobre o caso.

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