Samsung: empresa tem sido deixada de lado por fabricantes (sasirin pamai/Getty Images)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 18 de setembro de 2026 às 10h59.
A escassez global de chips de memória, provocada pela corrida por inteligência artificial (IA), abriu espaço para uma fabricante chinesa que a maioria dos compradores ocidentais ignorava há apenas dois anos.
A ChangXin Memory Technologies (CXMT), maior fabricante chinesa de chips de memória, já ganha espaço em smartphones premium do país, com alguns de seus chips de ponta entrando em aparelhos topo de linha à medida que marcas chinesas avançam no mercado premium.
O Nubia NaviX Ultra, marca apoiada pela ZTE, entrou à venda na quarta-feira, 16, usando chips de memória DRAM LPDDR5X da CXMT — parceria anunciada no início deste mês pelas duas empresas. O aparelho ficou apelidado de "Nubia Doubao phone", por integrar o assistente de inteligência artificial Doubao, da ByteDance, dona do TikTok.
Segundo a CXMT, a parceria com a Nubia marca o primeiro uso em grande escala, nesse nível de mercado, de chips LPDDR5X fabricados localmente na China, com velocidade de transferência de dados de até 10.667 megabits por segundo (Mbps).
O aparelho, vendido a partir de 5.999 yuans (cerca de US$ 885) segundo o site da ZTE, também seria o primeiro smartphone de massa equipado com um agente de IA, segundo a empresa — a versão para consumidor do assistente Doubao consegue responder a comandos de voz e executar tarefas em nome do usuário.
O avanço da CXMT reflete um gargalo que já afeta a indústria toda.
Segundo a consultoria Counterpoint Research, a fatia global da empresa no mercado de DRAM saltou de 4% para 10% em apenas um ano, mesmo com a participação da SK Hynix caindo com força no mesmo período. Hoje, a Samsung lidera com 38% do mercado, seguida por SK Hynix (25%) e Micron (24%).
A raiz do problema, segundo análise do site Tech Insider, é uma realocação em massa da capacidade de fabricação de chips: Samsung, SK Hynix e Micron — que juntas controlam mais de 95% da produção global de DRAM — desviaram parte relevante de sua capacidade para memória de alta largura de banda (HBM), usada em aceleradores de IA, deixando a memória convencional para PCs e smartphones em falta crítica.
O resultado é que preços à vista de DRAM já subiram quase 700% no último ano, segundo a Bloomberg.
O impacto já aparece em outros fabricantes de smartphones: Xiaomi, Oppo e Vivo cortaram suas metas de remessas para 2026 mais de uma vez, segundo o TechRadar.
Alguns fabricantes reduzem certos modelos para configurações de memória que gerações anteriores já ofereciam, enquanto outros aumentam preços para compensar o custo mais alto de componentes. Até fabricantes de placa-mãe já absorveram altas de cerca de 50% no custo de PCBs.
A pressão já ultrapassou o mercado chinês: HP, Asus e Acer já qualificaram e começaram a enviar chips DRAM da CXMT em pequenos volumes, em uma quantidade limitada de modelos de notebook vendidos fora dos Estados Unidos — nenhum desses modelos, porém, é vendido no mercado americano.
Segundo o TechRadar, essa cautela reflete menos uma restrição de política americana, e mais o receio das próprias fabricantes de dependerem demais de um fornecedor ainda pouco testado, com Samsung, SK Hynix e Micron ainda dominando mais de 90% do mercado.
A CXMT já tem munição financeira para crescer: sua oferta pública inicial em Xangai, realizada em julho, levantou cerca de US$ 8,6 bilhões, com as ações disparando 466% no primeiro dia de negociação.
Segundo a SemiAnalysis, a margem bruta da empresa já chegou a 37,8% no último ano fiscal — patamar próximo ao da Samsung (39,4%) e da Micron (39,8%), embora ainda distante dos 60,4% da SK Hynix, que se beneficia de uma fatia muito maior de memória HBM, de margem mais alta.