Revista Exame

Do zero ao bilhão: as empresas que cresceram para valer em cinco edições do NEEX

Com um recorde de 491 empresas, o prêmio EXAME Negócios em Expansão 2026 é um retrato de um Brasil que sonha grande e aproveita as oportunidades (e carências) do país para crescer rapidamente

 (Arte/Exame)

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Leo Branco
Leo Branco

Editor de Negócios e Carreira

Publicado em 26 de agosto de 2026 às 21h00.

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Num intervalo de cinco anos, a empreendedora Alinie Mendes conseguiu um feito restrito à elite da elite dos empreendedores brasileiros. Nesse período, ela alavancou um negócio praticamente do zero para o bilhão. Em 2021, Mendes abriu a Modular, uma fábrica de data centers para quem não tem tempo para erguer uma estrutura desse tipo do jeito tradicional, uma obra cujo licenciamento ambiental pode levar anos por causa do consumo massivo de energia e de água para resfriamento dos servidores. O negócio da Modular é fabricar unidades compactas, com uma cara de contêiner, e feitas para funcionar de maneira isolada, ao lado de um cliente, por exemplo, ou como um módulo em data centers convencionais.

Tudo começou quando Mendes trocou uma carreira bem-sucedida como executiva do Grupo UOL (onde fazia a gestão da infraestrutura e de processos críticos para o grupo) para empreender com o marido, Marcos Peigo. Ele é um dos pioneiros na gestão de dados no Brasil e fundador da Scala, provedora de tecnologia responsável por colocar para rodar alguns dos maiores data centers em operação no Brasil. O primeiro passo foi a compra da Gemelo, negócio com tecnologia similar à da Modular e dono de uma fábrica de 2.300 metros quadrados em Mococa, no interior paulista. O plano inicial de Mendes era apoiar operadoras de telecomunicações para dar conta da expansão do sinal de 5G pelo Brasil.

De lá para cá, a IA saiu de uma promessa para ocupar posição de destaque em várias esferas. O uso de dados explodiu e a demanda pela tecnologia da Modular também, inclusive entre grandes provedores de computação na nuvem, como a própria Scala e seus clientes finais. Não à toa, a Scala foi o primeiro comprador da Modular. Hoje, além do Brasil, a Modular opera no Chile, na Colômbia e na Guatemala. Os módulos saem de uma fábrica em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo, 17 vezes maior que a primeira estrutura, em Mococa.

Com clientes batendo à porta, a receita líquida chegou a 300 milhões de reais já no terceiro ano de vida. Em 2025, a empresa cresceu 60% e viu a receita chegar a 579 milhões de reais. Neste ano, a projeção é chegar a 1 bilhão de reais em vendas com um projeto em fase final de negociações comerciais para uma estrutura modular com capacidade computacional de 100 megawatts, em linha com a dos maiores data centers do Brasil. “Esse projeto vai garantir um salto para a companhia”, diz Mendes.

Alinie Mendes, da Data Modular: primeiro bilhão no quinto ano de empresa (Leandro Fonseca/Exame)

A trajetória da Modular é, talvez, o melhor exemplo de um capitalismo imune aos solavancos típicos da economia brasileira. Em meio aos juros a dois dígitos, ao cipoal tributário e a outros tantos percalços do ambiente de negócios do país, há quem aposte numa boa oportunidade e faça dela um ideia de milhões — ou até bilhões — de reais. Mapear esse grupo seleto do empreendedorismo brasileiro é o objetivo do Ranking EXAME Negócios em Expansão, o NEEX, o maior prêmio para empreendedores do Brasil.

Criado em 2022, numa parceria da EXAME com o BTG Pactual Empresas, e com suporte técnico da PwC Brasil, o prêmio elenca as empresas de pequeno e médio porte que mais crescem no país com base em um único indicador: a expansão da receita operacional líquida ao longo do ano anterior. Quem cresceu mais fica mais bem colocado no ranking dividido em categorias de negócios com portes e estágio de maturidade comparáveis.

Em 2026, na quinta edição, 838 empresas enviaram balanços financeiros para a PwC Brasil. É 15% a mais que em 2025 e um recorde para o prêmio, cuja inscrição é gratuita e voluntária. Desse total, 491 cumpriram os critérios técnicos do ranking, como ter uma demonstração contábil crível e assinada por um profissional de contabilidade, e ter uma receita líquida acima de 2 milhões de reais em 2025. São 21 a mais que no ano passado.

Com mais inscrições, o NEEX 2026 ganhou uma categoria: o anuário analisou empresas com patamar entre 600 milhões e 1 bilhão de reais, numa tentativa de manter no radar empreendedores com trajetórias de crescimento exponencial. No total, as selecionadas para o NEEX 2026 tiveram receita líquida de 42 bilhões de reais em 2025. É uma alta de 32% em relação à edição passada e quatro vezes a soma das receitas anuais das 205 empresas selecionadas na estreia do ranking, em 2022.

Pedro Mac Dowell, da QI Tech: projeção de 1,7 bilhão de reais em receitas neste ano (Leandro Fonseca/Exame)

Além de jogar luz sobre as histórias de lideranças empreendedoras de alto impacto, como Alinie Mendes, o Negócios em Expansão serviu de termômetro para as regiões mais dinâmicas do país. Em cinco edições, o prêmio selecionou 1.872 empresas, 67% do total de inscrições analisadas pela PwC Brasil. Esse grupo seleto veio de 26 unidades da federação. Apenas o Acre continua sem emplacar representantes no NEEX. O estado de São Paulo teve 836 negócios selecionados (44,7% do total), proporção superior à da economia paulista para o PIB brasileiro (31%).

É uma situação parecida à de Santa Catarina, segunda unidade da federação com mais representantes. Em cinco edições, 206 negócios catarinenses chegaram ao ranking, o equivalente a 11% do total. É mais que o dobro da contribuição do estado para a riqueza nacional, de 5%. Minas Gerais (188 empresas), Paraná (144) e Rio de Janeiro (112) completam o top 5 dos estados com maior participação no NEEX. Eixos econômicos emergentes têm tido uma importância crescente no ranking. Vide o exemplo de Goiás, um dos berços do agronegócio brasileiro. Em 2022, apenas quatro empreendedores goianos entraram no ranking. Neste ano, foram 11. Ou, então, do Ceará, motor industrial do Nordeste cuja participação saltou de apenas uma empresa há quatro anos para 16 agora.

Em cinco edições, os modelos de negócios em destaque no NEEX revelaram muito sobre os setores mais pujantes da economia brasileira. Pelo regulamento, cada empresa deve escolher o segmento de atuação mais alinhado com a sua atividade-fim numa lista de 22 eixos econômicos inspirada no Melhores e Maiores, anuário da EXAME focado nos grandes grupos econômicos do Brasil. O recordista foi o de Tecnologia, com 466 inscrições, quase 25% do total. Completam o topo Serviços (348), Educação e Saúde (158), Atacado e Varejo (117), Alimentos e Bebidas (95), Capital Humano (80) e Serviços Financeiros (78).

Na intersecção entre tecnologia e serviços financeiros está a paulistana QI Tech, maior empresa selecionada para o NEEX 2026, com receita líquida de 1 bilhão de reais em 2025, uma alta de 170% em 12 meses. O desempenho conferiu à QI Tech o primeiro lugar na categoria de negócios entre 600 milhões e 1 bilhão de reais. Fundada em 2018 por Pedro Mac Dowell, Emílio Moreira e Marcelo Buosi, executivos oriundos do mercado financeiro, a QI Tech fornece a estrutura para que outras empresas ofereçam contas, Pix, crédito e outros serviços financeiros dentro de seus próprios aplicativos, sem precisar montar um banco do zero.

A QI Tech foi a primeira Sociedade de Crédito Direto, ou SCD, uma licença criada pelo Banco Central no ano de fundação da QI Tech para facilitar a abertura de fintechs no Brasil. Depois, teve autorização para ser uma Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, uma espécie de corretora de valores “light”. Com essas autorizações, passou a atender desde operações de Pix e crédito consignado até fundos mais estruturados.

Fernando Scheffer, da Espaço Smart: as vendas devem dobrar em 2026 (Leandro Fonseca/Exame)

Parte do crescimento veio de marketplaces e aplicativos que chegaram ao Brasil e contrataram a QI Tech para colocar crédito e cadastro de clientes nessas plataformas. Como recebe pelas operações processadas em sua infraestrutura, o aumento do volume desses clientes também eleva a receita da QI Tech. Em 2026, a projeção conservadora é chegar a uma receita líquida de 1,7 bilhão de reais.

Em boa medida, as condições particulares do mercado financeiro brasileiro ajudaram na expansão acelerada. De um lado, juros altos, fraudes e regras que mudam com frequência aumentam o custo e a dificuldade de operar. De outro, iniciativas como o Pix, o Open Finance, o crédito consignado pela carteira de trabalho digital e as novas licenças concedidas pelo Banco Central transformaram o Brasil num laboratório de produtos financeiros. “A nossa capacidade de conseguir levantar um dinheiro num país que é caro como o Brasil nos coloca numa posição mais eficiente em outros lugares”, diz Mac Dowell.

Em outubro, ele embarca para a China para visitar um escritório da QI Tech recém-aberto em Xangai para atender clientes asiáticos e vender seu sistema antifraude no mercado local. No Uruguai, já mantém uma equipe de 20 pessoas para servir de base a clientes da América Latina, com foco em crédito parcelado.

Expansão no canteiro

Passar do zero ao bilhão é ainda mais desafiador na construção civil. A baixa produtividade e a escassez de mão de obra não raro forçam atrasos em série nos canteiros de obras — e atrapalham o crescimento de muitas empresas. Resolver esse problema faz parte da Espaço Smart. Fundada em 2014 em Ponta Grossa, no Paraná, ela é hoje uma das maiores fornecedoras de light steel frame, sistema de construção a seco com perfis de aço galvanizados na estrutura de casas industrializadas. Assim, reduz o uso de tijolos, cimento e água no canteiro — as peças chegam à obra prontas para a montagem.

A origem da Espaço Smart passa pela própria história do administrador Fernando Scheffer. Ele cresceu numa família de empreendedores de uma indústria de estruturas metálicas. Durante as férias escolares, circulava pela fábrica e chegou a trabalhar com AutoCAD, software de gestão de projetos de arquitetura, bem como com vendas e com compras. O pai de Scheffer, que é engenheiro, conhecia os atrasos e o desperdício de materiais das obras de alvenaria. Ao mesmo tempo, décadas de trabalho com aço davam à família conhecimento sobre fornecedores e produção de estruturas metálicas.

O light steel frame apareceu como uma saída para juntar essas duas pontas. A ideia ganhou outro formato depois de uma viagem de Scheffer e Rubens Campos, hoje CEO da Espaço Smart, ao Japão. Lá, eles conheceram lojas onde o consumidor conseguia planejar e comprar casas industrializadas. A conclusão: produzir o aço seria apenas uma parte do negócio. Era preciso colocar os outros materiais da obra no mesmo lugar.

Há dez anos, a empresa passou a reunir tudo isso em suas lojas. Hoje, quem entra numa das 46 lojas próprias da Espaço Smart pode comprar o projeto da casa e os materiais necessários para levantar a construção, como a estrutura de aço, placas, isolamento, esquadrias e revestimentos. A Espaço Smart não executa a obra. A montagem fica a cargo de construtores e montadores independentes. Esse desenho permitiu aumentar as vendas sem transformar a companhia em uma construtora responsável por administrar milhares de trabalhadores espalhados por canteiros.

Além disso, Scheffer criou o Studio Smart, escritório de arquitetura e engenharia da companhia. A unidade oferece projetos de catálogo, com tíquete médio de 5.500 reais, além de plantas personalizadas. A lógica é simples: o projeto costuma ser a porta de entrada para a venda dos materiais. Segundo Scheffer, cada real faturado no Studio Smart gera cerca de 44 reais em vendas posteriores de produtos usados na obra.

Aposta pesada em IA

O modelo de negócios ganhou tração nos últimos cinco anos. Em 2021, as vendas giravam em torno de 100 milhões de reais por ano. No ano passado, a receita operacional líquida chegou a 560 milhões de reais, alta de 84% em 12 meses. A projeção é fechar o ano de 2026 com faturamento de 1,2 bilhão de reais. “O sistema light steel frame ainda representa menos de 1% da construção no Brasil e pode avançar sobre a alvenaria, em um momento de falta de trabalhadores nos canteiros”, diz Scheffer.

Para contornar a falta de mão de obra, a Espaço Smart investe pesado em inteligência artificial, assim como sete de cada dez lideranças empreendedoras selecionadas para o NEEX 2026, segundo uma pesquisa online feita com o grupo sobre estratégias para os negócios e bem-estar.

Para dar suporte às vendas em alta, a empresa levou a inteligência artificial para áreas como atendimento, recrutamento e marketing. Os agentes de IA já participam de cerca de 15.000 atendimentos online por mês. “A gente está usando IA para conseguir escalar tarefas que aumentariam muito a necessidade de pessoas conforme a empresa crescesse”, diz Scheffer.

Em maior ou menor grau, a adoção maciça de inteligência artificial também ajudou a expansão acelerada de Modular e QI Tech. Na Modular, a tecnologia acelerou etapas nos times de engenharia — e permitiu à empresa projetar estruturas equivalentes às de grandes data centers. Na QI Tech, entrou em tarefas como análise de fraude, crédito e desenvolvimento de softwares que ampliaram o portfólio — e o perfil dos clientes.

À sua maneira, Mendes, Mac Dowell e Scheffer aproveitaram o vento a favor das novas tecnologias, e das oportunidades que um país repleto de carências como o Brasil oferece, para crescer aceleradamente. Que as histórias deles, e de outros negócios em expansão, retratados nas páginas a seguir, sirvam de exemplo para mais empreendedores ambiciosos — e que estão em busca do primeiro bilhão.

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