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QI Tech abre escritório em Xangai e quer levar tecnologia brasileira para a China

Empresa de infraestrutura financeira já atende grupos chineses no Brasil e agora mira serviços de antifraude e crédito no mercado local

Pedro Mac Dowell, da QI Tech: “A abertura do novo escritório marca o início de um capítulo para a QI Tech na construção de uma presença global.” (Leandro Fonseca/Exame)

Pedro Mac Dowell, da QI Tech: “A abertura do novo escritório marca o início de um capítulo para a QI Tech na construção de uma presença global.” (Leandro Fonseca/Exame)

Leo Branco
Leo Branco

Editor de Negócios e Carreira

Publicado em 21 de agosto de 2026 às 10h25.

Última atualização em 21 de agosto de 2026 às 11h05.

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A QI Tech, empresa de infraestrutura para serviços financeiros, abriu um escritório em Xangai, na China. A ideia é ficar mais perto dos clientes chineses que já usam a tecnologia da empresa no Brasil e, depois, começar a vender parte desses serviços também no mercado chinês.

A empresa já atende grupos asiáticos com operação no Brasil. Até agora, esse trabalho era feito por equipes baseadas no Brasil, com viagens frequentes para a China. O novo escritório muda essa rotina.

“Quando é 9 da manhã aqui, é 9 da noite lá. Para prestar o serviço para os clientes asiáticos, a gente entendeu que precisava estar lá”, diz Pedro Mac Dowell, fundador e CEO da QI Tech.
Segundo ele, as últimas integrações com quatro clientes chineses foram feitas com equipes da QI Tech na China.

Parte desse trabalho ocorreu fora dos grandes centros do país. A empresa decidiu, então, manter uma base fixa em Xangai.

A operação chinesa começou há poucas semanas. A empresa também criou um rodízio para mandar equipes brasileiras ao país por períodos de seis meses.

“Estando lá, fica mais fácil atender as demandas e acompanhar a criação de novos produtos”, diz Mac Dowell.

O passo seguinte é tentar vender na própria China alguns serviços que esses clientes já contratam no Brasil. A primeira aposta deve ser a tecnologia de prevenção a fraudes.

“Eu acho que o serviço mais fácil para iniciar é o antifraude”, diz Mac Dowell. “Fraude é um problema global. Aqui no Brasil, a gente vê vários tipos e acabou desenvolvendo um produto para lidar com isso.”

A área reúne ferramentas de cadastro, reconhecimento facial, checagem de identidade, prevenção a fraudes e análise de crédito. Segundo o executivo, essa divisão está cerca de 20% acima do orçamento previsto pela empresa neste ano.

A QI Tech diz que alguns clientes chineses que usam essas ferramentas no Brasil já perguntaram se poderiam contratar os mesmos serviços na China.

Para o executivo, a experiência desenvolvida pela empresa no mercado brasileiro — marcado por um sistema financeiro altamente digitalizado e por desafios sofisticados de prevenção a fraudes — permitiu a criação de tecnologias com potencial de aplicação também em outros mercados.

“O Brasil nos obrigou a desenvolver soluções muito robustas para problemas complexos. Hoje, clientes asiáticos já utilizam parte dessa tecnologia em suas operações no Brasil, e a presença local abre uma nova oportunidade para levar esse conhecimento a outros mercados”, diz Mac Dowell.

O que faz a QI Tech

Fundada em 2018, em São Paulo, por Pedro Mac Dowell, Emílio Moreira e Marcelo Buosi, executivos oriundos do mercado financeiro, a QI Tech trabalha nos bastidores de bancos, fintechs e empresas de outros setores que querem oferecer contas, cartões, crédito ou pagamentos aos próprios clientes.

Na prática, ela fornece a tecnologia e parte da estrutura regulatória para que essas empresas coloquem produtos financeiros de pé sem precisar construir tudo do zero.

É o caso, por exemplo, de uma empresa de varejo que quer oferecer crédito no próprio aplicativo ou de uma plataforma que queira abrir contas digitais para vendedores. A QI Tech entra com sistemas para cadastro, análise de risco, pagamentos, crédito e outras etapas da operação.

Hoje, a companhia atua em quatro frentes. Uma delas cuida de identificação e prevenção a fraudes. Outra fornece a estrutura para contas digitais, cartões e pagamentos. Há ainda uma área voltada para operações de crédito e outra para administração e custódia de fundos.

Entre os clientes citados pela empresa estão Vivo, QuintoAndar e 99Pay.

Por mês, a QI Tech processa mais de 20 milhões de operações de crédito, que somam entre R$ 7 bilhões e R$ 9 bilhões. Segundo Mac Dowell, cerca de 20% da população economicamente ativa do Brasil passa, de alguma forma, por sistemas da companhia.

De uma gestora para uma empresa de tecnologia financeira

Antes de criar a QI Tech, Mac Dowell trabalhou no mercado financeiro. Entre 2000 e 2004, passou pela S&P Global Ratings. Em 2008, fundou a Quatá Investimentos, onde ficou por 11 anos.

A QI Tech nasceu depois dessa experiência com crédito e produtos financeiros. A ideia era montar uma empresa que cuidasse da parte tecnológica e regulatória necessária para outras companhias oferecerem esses serviços.

“Havia uma lacuna no mercado. Empresas não financeiras não tinham um parceiro. O fluxo de crédito é delas, e nós operamos a análise”, afirmou Mac Dowell em entrevista anterior à EXAME.

Desde o início, a empresa construiu boa parte da própria tecnologia. Em vez de vender um único produto, passou a oferecer módulos que podem ser combinados de acordo com a necessidade de cada cliente.

A QI Tech também recebeu licenças que ampliaram o tipo de serviço que pode prestar. Foi a primeira Sociedade de Crédito Direto, ou SCD, homologada pelo Banco Central. Depois, passou a operar também com uma Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, a DTVM, autorizada pela CVM.

Nos últimos anos, a empresa também fez aquisições. Comprou, entre outras, a Zaig, ligada a antifraude e cadastro digital, a Builders Bank e a Singulare. Em junho deste ano, anunciou a compra da Autobanking, plataforma de financiamento de veículos.

Do aporte ao unicórnio

A QI Tech recebeu seu primeiro grande aporte em 2021, quando o fundo soberano de Singapura, GIC, investiu US$ 50 milhões na companhia.

Em 2023, uma rodada liderada pela General Atlantic levantou US$ 200 milhões e avaliou a empresa em cerca de US$ 1 bilhão. Em 2024, uma nova extensão da rodada elevou o valor de mercado da companhia para cerca de US$ 1,5 bilhão. Em 2025, a empresa captou outros US$ 63 milhões.

Ao todo, a QI Tech captou cerca de US$ 300 milhões ao longo da sua história.

A empresa projeta faturamento anual de R$ 2 bilhões e crescimento de cerca de 80% em 2026.

A expansão também passou por novas áreas. A compra da Autobanking marcou a entrada no financiamento de veículos, enquanto a empresa mantém negócios em crédito, pagamentos, antifraude e fundos de investimento.

A trajetória de crescimento também colocou a QI Tech em evidência no ranking EXAME Negócios em Expansão, o maior prêmio para empreendedores do Brasil. Na edição de 2024, a empresa ficou em primeiro lugar entre as empresas que mais expandiram receita líquida na categoria de negócios entre R$ 300 milhões e R$ 600 milhões.

O que a QI Tech quer fazer na China

No curto prazo, o escritório de Xangai terá duas funções: acompanhar os clientes chineses que já fazem negócios com a QI Tech no Brasil e estudar quais serviços podem ser vendidos dentro da própria China.

A área de antifraude deve ser o primeiro teste. A empresa também vê espaço para ferramentas de cadastro, reconhecimento facial e análise de crédito.

“Como os clientes chineses já consomem esse serviço aqui, alguns perguntaram se poderiam contratar lá também”, diz Mac Dowell.

A China também pode ajudar a QI Tech a atender empresas asiáticas que estão entrando no Brasil. Um dos focos está no setor automotivo, onde montadoras e outras empresas chinesas ampliaram a presença no país e passaram a demandar crédito, financiamento e outros serviços.

“Sabemos que a China é um dos mercados mais dinâmicos e competitivos do mundo, com desafios na mesma proporção”, diz Mac Dowell. “A abertura do novo escritório marca o início de um capítulo para a QI Tech na construção de uma presença global.”

Além da China, a QI Tech abriu há poucos meses um escritório no Uruguai. A base atende clientes na América Latina e hoje reúne cerca de 20 pessoas.

Mac Dowell deve visitar novamente o escritório de Xangai em outubro. Antes da abertura da base, executivos da QI Tech já viajavam ao país a cada três meses. Agora, a empresa quer manter equipes no local durante todo o ano.

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