Paulo Reis, presidente da Associação dos Negócios da Amazônia (ASSOBIO) (Paulo Reis/Arquivo Pessoal)
Repórter
Publicado em 25 de junho de 2026 às 06h00.
Última atualização em 25 de junho de 2026 às 11h34.
Um ano depois da realização da COP-30 em Belém (PA), paira a dúvida de empresários e entusiastas da bioeconomia se o setor veio para ficar. Em entrevista à EXAME, o presidente da Associação dos Negócios da Amazônia (ASSOBIO), Paulo Reis, explica por que o segmento segue ganhando escala e quais mercados devem crescer.
A bioeconomia ganhou ainda mais força na Amazônia depois da COP30?
A bioeconomia já vinha crescendo antes da COP. É uma agenda construída há décadas, com participação de governos, empresas, organizações multilaterais e instituições financeiras.
A COP trouxe mais visibilidade porque mostrou que a bioeconomia consegue unir clima, desenvolvimento econômico, inovação, empreendedorismo e negócios.
Ela traz uma agenda positiva para um debate que antes era mais restritivo, ligado à redução de emissões e impactos.
A bioeconomia mostra que essa mudança também abre novas oportunidades. Um exemplo é que o número de empreendimentos de bioeconomia na Amazônia cresceu dez vezes entre 2017 e 2025. A ASSOBIO, que nasceu em 2023 com 25 negócios, hoje reúne cerca de 180 empresas. A COP não foi um ponto final, mas um impulsionador de uma curva que já vinha crescendo.

O que mudou na prática para as empresas depois da COP?
A principal mudança foi tirar a bioeconomia de uma agenda ainda muito de nicho e colocá-la em uma escala mais global.
Outros países passaram a conectar suas próprias estratégias de biodiversidade com a agenda amazônica. Isso impacta empresas internacionais, que terão de observar critérios ligados à biodiversidade em suas compras.
Mercados grandes, como União Europeia e Japão, caminham para incorporar essas exigências. A bioeconomia está deixando de ser apenas uma discussão ambiental e entrando no centro das decisões de negócios.
Além de alimentos e cosméticos, quais setores podem crescer?
Alimentos e cosméticos são a primeira onda porque são produtos mais simples de desenvolver, mesmo em regiões com pouca infraestrutura.
Mas o futuro passa por áreas mais sofisticadas, como química fina, farmacologia e soluções baseadas na biodiversidade. Já existem medicamentos descobertos a partir de moléculas identificadas na Amazônia. Também veremos crescer mercados ligados a serviços ambientais, como créditos de biodiversidade e de carbono.
O Brasil pode se tornar um líder dessa agenda e oferecer soluções ambientais para o mundo.
Quais produtos amazônicos podem ganhar escala global?
A escala global deve vir de produtos com mais tecnologia e conhecimento agregado. A bioeconomia não busca transformar a floresta em uma commodity de baixo valor. Produtos como açaí, castanha e cacau são oportunidades importantes no curto prazo, mas o grande diferencial está na ciência, inovação e conhecimento tradicional aplicado à biodiversidade. A ideia é gerar escala sem ameaçar a preservação da floresta.