Chocolate: diferença entre amargo e ao leite está na composição (gustavomellossa/iStock /Getty Images)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 12 de abril de 2026 às 08h00.
Os preços do chocolate não devem cair tão cedo mesmo com a previsão de um superávit na produção de cacau na safra 2025/26. Segundo analistas ouvidos pela EXAME, váriaveis como clima e preços de outras commodities também influenciam a cotação do produto.
“O mercado de cacau é uma commodity altamente volátil. Um ano e meio após as máximas históricas, vimos os preços voltarem aos patamares das últimas décadas. Essa volatilidade gera apreensão em toda a cadeia", diz Anna Paula Losi, presidente-executiva da Associação das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC).
Até fevereiro, os preços do chocolate acumulavam alta de 26%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Após atingirem níveis recordes, os preços do cacau passaram por forte correção ao longo de 2025 e 2026. Em fevereiro, os contratos chegaram a ser negociados abaixo de US$ 3 mil por tonelada, patamar próximo ao período pré-crise. Mas isso, entretanto, não se foi sentido nas gondolas dos supermercados.
“Há um descompasso entre o preço atual do cacau e o preço do produto final. Embora o preço da commodity tenha caído recentemente, o cacau utilizado na produção recente foi comprado durante o período de alta", diz Losi.
Além disso, o preço final não depende apenas da commodity. Custos de produção, mão de obra e outros ingredientes também influenciam.
Nos últimos anos, a indústria buscou otimizar processos para reduzir o impacto no consumidor. Mesmo com aumentos de 300% a 400% no preço do cacau, isso não foi totalmente repassado ao chocolate. "Se fosse, o produto deixaria de ser consumido. Ainda assim, parte desse custo chegou ao consumidor final", afirma a presidente.
Para 2026, a previsão do mercado é de que a produção global de cacau deve registrar superávit de 287 mil toneladas e alcançar 5 milhões de toneladas, avalia o Itaú BBA, utilizando dados da Organização Internacional do Cacau (IOC).
A produção global reagiu em 2024/25, com alta de 11%, impulsionada por condições climáticas mais favoráveis na África e na América do Sul.
Segundo o banco, a produção mundial alcançou cerca de 4,7 milhões de toneladas, superando a moagem estimada em 4,6 milhões de toneladas — movimento que levou o mercado de volta ao superávit após anos consecutivos de déficit.
A mudança ocorre após o choque observado entre 2024 e 2025, quando as cotações ultrapassaram US$ 10 mil por tonelada e pressionaram os preços do chocolate ao redor do mundo.
“O mercado global de cacau entrou em 2026 em transição para um novo ciclo, com retorno ao superávit”, afirma o Itaú BBA. “Mas o ajuste ocorreu principalmente via retração da demanda.”
Na prática, o consumo foi impactado pelos preços elevados, levando à queda da moagem — principal indicador da demanda industrial. Na Europa, por exemplo, a moagem recuou 5,9% em 2025, atingindo o menor nível em uma década.
“O movimento se inverteu com melhora relativa da oferta, aumento dos estoques e ajuste da demanda industrial”, afirma o banco.
A crise no mercado de cacau não é recente. Desde 2023, uma combinação de eventos climáticos e doenças afetou a produção global, especialmente em Gana e Costa do Marfim — países que, juntos, respondem por cerca de 70% da oferta mundial, com produção de aproximadamente 2,2 milhões e 680 mil toneladas, respectivamente.
Mesmo com a previsão de superávit em 2026, os preços do cacau seguem voláteis e sensíveis a fatores climáticos, diante da previsão do fenômeno El Niño para o segundo semestre.
Em 2024, o Niño elevou as temperaturas e provocou estresse hídrico nas lavouras. Ao mesmo tempo, chuvas intensas favoreceram a disseminação da “podridão parda”, doença fúngica que reduz a produtividade dos cacaueiros.