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Eu estive na adega de vinhos secreta de Stalin (ou não)

Numa caverna da Geórgia estão garrafas dos Châteaux Latour, Lafite Rothschild e d’Yquem que teriam sido confiscadas dos Romanovs após a revolução bolchevique

 (Catarina Bessell/Exame)

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Alexandra Forbes
Alexandra Forbes

Colunista de Vinhos

Publicado em 25 de junho de 2026 às 06h00.

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A cada mês surgem novos perfis nas redes sociais de supostos especialistas dedicados a capturar a atenção desses consumidores de nicho. Uns vendem expertise em vinho como investimento; outros, acesso às mais prestigiosas vinícolas das mecas do Velho (França e Itália) ou do Novo Mundo (Vale do Napa).

Há quem use o Instagram como ferramenta para vender degustações a milhares de Euros por pessoa, sob a promessa de servir safras raras de Bordeaux, Borgonha ou Champanhe de marcas míticas como Château Latour ou Lafitte Rothschild.

Nas últimas semanas, vi replicar-se em ritmo acelerado, nas redes sociais brasileiras, a revelação “inédita” de uma adega secreta em Tbilisi, capital da Geórgia, que teria supostamente pertencido a Joseph Stalin, contendo tesouros como garrafas dos Châteaux Latour, Lafite Rothschild e d’Yquem confiscadas dos Romanovs após a revolução bolchevique — ou seja, há mais de século.

Prato cheio para influencers nesta era em que reina o storytelling e em que trilha sonora heroica e títulos polêmicos valem mais do que a fidelidade aos fatos.

A verdade

Na verdade, a existência daquela adega deixou de ser segredo em 2000, ano em que o australiano John Baker publicou o livro Stalin’s Wine Cellar. Dizem que ele pretendia comprar o lote inteiro com milhares de garrafas por 1 milhão de dólares — até ser ameaçado de morte pelo então proprietário.

Lá ficaram os vinhos desde então, até que, no ano passado, aquele tesouro histórico passou para as mãos do governo. Foi aí que o ministro da Agricultura e o primeiro-ministro decidiram chamar a imprensa internacional e autoridades para divulgar a existência da adega ao público e à imprensa, parte do plano maior de promover a viticultura da Geórgia — país que é o berço do vinho.

Entrar naquela vasta caverna subterrânea foi emocionante. Pude caminhar entre as prateleiras enferrujadas, tocando e fotografando garrafas que atravessaram guerras e revoluções. Muitas das garrafas estavam meio esvaziadas, sem etiqueta.

O ar cheirava a história, as rolhas carcomidas pelos anos deixavam emanar aromas de tabaco, couro e frutos secos. A presença massiva de políticos sussurrando e seguranças rodeando o primeiro-ministro de poucas palavras aumentava o mood de suspense. Saí dali sabendo que, da história real daquela adega, pouco saberei...

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