Beatriz Milhazes: duas décadas de trabalho em nova mostra na Pinacoteca de São Paulo (Leandro Fonseca/Exame)
Repórter de Casual
Publicado em 25 de junho de 2026 às 06h00.
Encarar uma tela em branco ainda tem um grande peso para Beatriz Milhazes, após 40 anos de carreira e incontáveis mostras pelo mundo. Não se trata de um bloqueio criativo, mas de um desafio permanente, como uma pressão que, segundo ela, só é possível entender com uma história longa o suficiente para ter algo a defender. Com uma mostra recém-inaugurada na Estação Pinacoteca de São Paulo, a artista carioca que se tornou a primeira brasileira a ter uma individual no Guggenheim de Nova York acredita que olhar para a própria retrospectiva traz uma sensação de sair do próprio corpo, mas de uma forma positiva. “Para mim é sempre fascinante fazer isto: observar uma coisa que foi construída em diferentes anos e tentar entender o que já fiz, para e por quê segui naquela direção”, diz.
Sua mais recente exposição, Beatriz Milhazes: gravuras do acervo da Pinacoteca de São Paulo, apresenta uma coleção de 27 gravuras produzidas de 1996 a 2019 no estúdio americano Durham Press. “É uma exposição que narra o início do trabalho de exploração de Milhazes na técnica da gravura e conta o ciclo, do início ao fim, desse processo de colaboração com a Durham Press”, diz Renato Menezes, curador da Pinacoteca. Para Milhazes, em uma retrospectiva existe o enfrentamento do que ela própria descreve como um dos exercícios mais estranhos da profissão: olhar para trás. Na individual do Museu Guggenheim, obras dos anos 1990 foram colocadas diretamente em confronto com pinturas de 2024 — mais de duas décadas separando telas que dialogavam no mesmo espaço. “Foi um confronto. É como se eu, com 30 anos, me encontrasse comigo aos 60”, diz. “Ficou muito claro quanto o trabalho caminhou, as diferenças, sem a questão de ser melhor ou pior, mas como ele é bem diferente.”

Para Milhazes, tudo começa e termina no ateliê. Não por isolamento, mas por método. Ela coleta referências por onde passa, mas nada se resolve fora de seu espaço no Horto Florestal, no Rio de Janeiro. Esse entendimento foi se aprofundando ao longo dos anos, especialmente quando as portas internacionais começaram a se abrir nos anos 1990. Nova York queria que ela ficasse. Galerias apostavam nela. A crítica do New York Times acompanhava seu trabalho. E, mesmo assim, ela sempre voltava à sua cidade natal.
“Quando eu voltava para cá, era um alívio: ‘Cheguei’”, conta. A lógica era simples, já que quem pagaria as contas no Brasil seria o trabalho como artista. A cidade que muitos viam como limitação era, para ela, fonte de renda e, acima de tudo, inspiração. O Rio de Janeiro aparece em sua obra não como cartão-postal, mas como contexto vivo, com elementos da natureza, contraste social, manifestação popular, como o Carnaval, exuberância e tensão convivendo no mesmo espaço. “O trabalho de Beatriz é muito rítmico, muito musical, é muito dançante. Por outro lado, ela também é uma artista que soube muito bem criar uma forma de diálogo direto com a tradição neoconcreta e concreta, e conseguiu introduzir espontaneidade e uma organicidade própria da técnica que ela inventa nesse elemento geométrico”, diz Menezes.
Milhazes pertence à chamada “Geração 80”, grupo de artistas que emergiu no Brasil ainda sob o peso da ditadura militar e que acabou profissionalizando o mercado de arte e abrindo a produção nacional para o circuito internacional. “A perspectiva de ser artista profissional era uma coisa completamente longínqua”, diz a artista, que se graduou em jornalismo antes de seguir para o Parque Laje, onde estudou pintura entre 1980 e 1983. A escola funcionava como um espaço de resistência e ponto de encontro. “Aquilo virou um reduto, fez a gente virar meio uma família.”
Com a redemocratização, as oportunidades internacionais surgiram, e Milhazes já havia desenvolvido uma linguagem própria — e não estava disposta a abrir mão dela. Em Nova York, havia pressão para que abandonasse os elementos da cultura popular brasileira, os chitões, as referências ao universo visual do Rio, em favor de uma abstração geométrica mais palatável para o mercado internacional. “Milhazes conseguiu combinar e conciliar elementos muito diferentes da cultura brasileira, do têxtil aos grafismos indígenas, com um olhar para artistas modernos do Brasil: Tarsila do Amaral claramente, Roberto Burle Marx, Genaro de Carvalho, Niobe Xandó, Lygia Clark. Ela consegue combinar essas referências todas de maneira muito única, e que constitui uma linguagem própria”, diz Menezes. A resistência era consciente, mesmo que custosa. Ser mulher, latina e trabalhar com referências consideradas “inferiores” pelos críticos da época formava uma equação difícil.

Essa é a perspectiva que ela aconselha aos artistas mais jovens: foco, principalmente com a sedução por sucesso via redes sociais. “Hoje você é convidado para um mar de dispersão. Toda hora você tem possibilidades, e uma falsa ilusão de que estão oferecendo esse mundo inteiro. Você tem aquele mundo que está em volta de você, que você nunca deve deixar de observar, e é a partir dele que você vai poder ir para o mundo.”
O foco também aparece nas escolhas de criação de Milhazes, que funcionam por acumulação e retroalimentação. A serigrafia que começou nos anos 1990 foi, no início, alimentada pela pintura; depois inverteu o fluxo e passou a abastecê-la. A técnica de monotransfer, desenvolvida por Milhazes, ganhou novas abordagens para além do papel, como cenários que criou para a companhia de dança de sua irmã e um projeto para a Cartier. Em 2010, Milhazes foi convidada pela joalheria para desenvolver uma peça de arte para o projeto “Artist Meets Artisan”, em que artistas são convidados a criar obras com pedras preciosas não utilizadas pela Cartier. No programa, que já contou com nomes como David Lynch, Takeshi Kitano e Alessandro Mendini, os artesãos da -Cartier colaboram com os artistas para desenvolverem as obras. No caso de Milhazes, o resultado foi o móbile Aquarium, feito com 15 fios e adornado com diferentes formas e cores. Independentemente do formato de trabalho escolhido pela artista, cada linguagem conversa com as outras. “Todas as outras investigações têm que trazer um retorno para minha prática. Principalmente no diálogo com a pintura, que é o mais complexo. A pintura é a que demanda mais tempo, porque ela tem o tempo dela, e eu tenho que respeitar isso.”
A pandemia trouxe uma mudança que ela não esperava: o desenho preparatório. Milhazes nunca havia adotado esse método, considerado quase convencional entre pintores, até que o isolamento a empurrou para esse novo caminho. Esse recurso foi decisivo para o Pavilhão Brasileiro na Bienal de Veneza de 2024, para o qual a artista desenvolveu cinco telas monumentais a partir de tecidos. “Fiz um exercício extremamente penoso por ter pouco tempo. Olhar aquele tecido, fazer paleta de cor com base no tecido, olhar a estrutura de composição e depois levar isso para a tela. Isso só foi possível porque eu já tinha esse método do desenho preparatório.”
Milhazes está usando o mesmo processo para criar uma obra na passagem subterrânea de 40 metros que interligará os dois prédios do Masp. A previsão de inauguração é agosto deste ano. A pressão de continuar evoluindo não vem de fora, mas de dentro, e de tudo que já foi construído. “Cada vez fica mais desafiador você mover isso para a frente no sentido do seu próprio interesse. Porque o interesse externo vem se você também está interessado naquilo que está fazendo. Se você já perdeu o interesse, quem vai se interessar?” A tela em branco, por ora, ainda lhe interessa.
Beatriz Milhazes: gravuras do acervo da Pinacoteca de São Paulo
Até 14 de março de 2027 | Largo General Osório, 66 | Santa Ifigênia, São Paulo
Beatriz Milhazes usa joias: Colar longo Bvlgari de ouro rosa 18K cravejado com elementos de madrepérola, opala rosa, olho de tigre, malaquita e cornalina, 129.000 reais | Colar Bvlgari com pingente Serpenti Viper de ouro amarelo 18K, cravejado com pavê de diamantes na cabeça e na cauda, 41.400 reais | Colar Bvlgari B.zero1 Rock Chain de ouro amarelo 18K com pingente de tachas cravejado com cerâmica preta, 25.400 reais | Pulseira Bvlgari Tubogas de ouro amarelo 18K, 68.000 reais | Brincos Bvlgari Serpenti Viper de ouro amarelo 18K, 25.400 reais.