Carlênio Castello Branco, da Senior: aposta em softwares que deixam de ser apenas uma sequência de telas, botões e campos para preencher (Divulgação/Divulgação)
Editor de Negócios e Carreira
Publicado em 22 de maio de 2026 às 11h27.
A corrida por inteligência artificial chegou aos sistemas de gestão, aqueles programas usados por empresas para cuidar de folha de pagamento, estoque, vendas, impostos, logística e finanças. A promessa agora é reduzir cliques, formulários e tarefas repetidas dentro desses sistemas.
A Senior, empresa de Blumenau, em Santa Catarina, especializada em softwares de gestão, levou esse tema para o Senior Experience, evento realizado em 21 de maio, em São Paulo, para mais de 2.000 pessoas. No palco, a companhia lançou o Sara Studio, uma ferramenta para empresas criarem agentes de inteligência artificial e automatizarem tarefas do dia a dia.
O lançamento acontece em um momento de avanço da Senior. A companhia fechou 2025 com faturamento de R$ 1,17 bilhão, alta de 19,9% em relação ao ano anterior. Em 2026, a empresa diz ter começado o ano com aceleração no primeiro trimestre, mesmo em um cenário com juros altos, empresas endividadas, Copa do Mundo no meio do ano e eleição no segundo semestre.
“Todo executivo hoje está preocupado com o avanço da inteligência artificial. Seja porque ela pode aumentar produtividade, seja porque pode reduzir custo, seja porque pode destruir o seu negócio”, afirma Carlênio Castello Branco, CEO da Senior.
O Sara Studio é a nova etapa da Sara, sigla em inglês para Senior Agent Recommendation & Analysis, plataforma de agentes de IA da Senior. A empresa já tem centenas de agentes em seu ecossistema e mais de 50 disponíveis em suas soluções.
Com o Sara Studio, os clientes poderão criar seus próprios agentes de IA, sem depender de programação. A ideia é permitir que uma empresa monte assistentes para processos internos, consultas, análises e tarefas repetidas.
Na parte de dados, a ferramenta também permitirá fazer perguntas em linguagem comum, sem abrir uma ferramenta de BI, sigla para sistemas usados para montar relatórios e painéis. Um usuário poderá, por exemplo, pedir um gráfico de vendas por vendedor, região e produto. A IA cruza os dados e monta a visão dentro do sistema.
A Senior também anunciou a criação do MCP, sigla para Model Context Protocol, um padrão para conectar modelos de inteligência artificial às soluções da empresa com contexto e segurança. Na prática, é uma camada para permitir que os sistemas entendam melhor os dados de cada cliente antes de responder ou executar uma ação.
Para Castello Branco, a mudança principal é que o software deixa de ser apenas uma sequência de telas, botões e campos para preencher. A IA passa a executar partes do processo.
Um exemplo citado pelo CEO está na admissão de funcionários. Antes, o novo colaborador enviava documentos. O RH recebia, escaneava, digitava dados e conferia as informações. Agora, a Senior quer que agentes de IA conversem com o futuro funcionário, peçam documentos e validem as informações no sistema.
“Antigamente, o colaborador enviava carteira de trabalho, comprovante de residência e outros documentos. Alguém pegava aquilo, escaneava e digitava. Era todo um processo manual”, afirma Castello Branco.
No novo modelo, o agente pede os documentos em uma conversa. Depois, a IA usa OCR, tecnologia que lê texto em imagens e arquivos, para reconhecer os documentos, conferir se estão corretos e capturar os dados.
“A gente sai do conceito de software, que era uma operação muito manual, com fluxo de informações e uso de telas, para um processo em que conseguimos fazer tudo de forma automatizada”, afirma Castello Branco.
A Senior aplica essa lógica em áreas como gestão de pessoas, finanças, logística, agronegócio, construção e fiscal. A empresa atende mais de 14.500 grupos empresariais e gerencia mais de 50 mil CNPJs.
O Senior Experience reuniu clientes, parceiros, executivos e convidados em São Paulo. Além do lançamento do Sara Studio, o evento apresentou novidades para várias áreas atendidas pela companhia.
A programação também contou com palestrantes convidados, entre eles o ex-tenista Guga Kuerten. A presença de nomes de fora do setor de tecnologia acompanhou a proposta do evento de discutir gestão, pessoas, produtividade e uso de IA dentro das empresas.
No agronegócio, a Senior apresentou o Originação X, plataforma para classificação e gestão de grãos. A solução usa reconhecimento de imagem e OCR para automatizar processos de classificação agrícola e reduzir etapas manuais.
Em gestão de pessoas, a empresa lançou agentes para recrutamento, liderança, remuneração, força de trabalho e atendimento ao colaborador. Um dos produtos é o Talent Sourcing, ferramenta que usa o histórico interno de competências, desempenho e desenvolvimento para identificar talentos dentro da empresa.
Na área tributária, a Senior apresentou uma plataforma voltada às mudanças da reforma tributária. A solução inclui simuladores de CBS e IBS, tributos criados pela reforma, além de ferramentas para conciliação, análises fiscais e configuração de regras.
Em logística, a empresa mostrou novas funções para TMS, sistema de gestão de transporte, e WMS, sistema de gestão de armazéns. Entre os recursos estão agentes para frete, desempenho de entrega e integração com RFID, tecnologia de identificação por rádio, além de robôs móveis e planejamento de cargas.
No evento, a Senior também apresentou novidades para marketplace, construção e backoffice, área que reúne processos administrativos e financeiros.
Entre os produtos estão uma plataforma para marketplace conectada ao ERP, o Creative AI para campanhas imobiliárias, o Receba+ para cobrança e antecipação de recebíveis, o ERP Banking para serviços bancários dentro do sistema de gestão e a solução Pausa Térmica, criada para monitorar jornadas de trabalho em ambientes refrigerados.
A Senior foi fundada em 1988, em Blumenau, por Jorge José Cenci, Guido Heinzen e Nesio Gilberto Roskowski. A empresa nasceu com foco em folha de pagamento e gestão de recursos humanos, área que ainda tem peso no negócio.
Com o tempo, a companhia ampliou o portfólio para ERP, sistema que integra finanças, compras, vendas, controladoria e impostos; logística; agronegócio; construção; marketplace; crédito; e serviços financeiros.
Castello Branco assumiu a presidência em 2012. Sob seu comando, a empresa cresceu por aquisições e ampliou a presença fora do Brasil. A Senior tem 15 filiais, mais de 3.800 colaboradores no Brasil e no exterior e cerca de 180 canais de distribuição.
Desde 2015, a companhia fez mais de 30 aquisições. Uma das mais recentes foi a compra da Cigam, anunciada por R$ 162,5 milhões. A operação ampliou a presença da Senior em empresas de médio e grande porte, em setores como indústria, varejo e serviços.
A companhia também avançou em serviços financeiros. A parceria com o BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME) deu origem a uma sociedade de crédito direto, com a proposta de oferecer produtos financeiros conectados aos sistemas de gestão.
A chegada da IA aos sistemas de gestão também muda a discussão sobre emprego. Castello Branco reconhece que algumas funções serão substituídas, sobretudo as mais repetitivas.
“Não tenhamos dúvida de que a inteligência artificial vai substituir algumas funções. Tarefas repetitivas que a IA pode automatizar, ela vai automatizar”, afirma Castello Branco.
O CEO compara o momento atual a outras mudanças tecnológicas. Segundo ele, novas funções surgem enquanto outras deixam de existir. Na Senior, um exemplo citado é a busca por profissionais de governança de IA, área responsável por definir regras, qualidade dos dados e uso correto dos modelos.
“De um lado, não adianta falar que não vai existir substituição. Claro que vai existir. Do outro lado, vão surgir diversas outras funções”, afirma Castello Branco.
O desafio, segundo ele, está na formação de profissionais para essas novas funções. A empresa vê mais facilidade entre pessoas de 15 a 25 anos, já acostumadas a ferramentas digitais, mas enxerga uma tarefa maior na adaptação de profissionais mais velhos.
“O grande desafio é preparar essa turma que não está pronta. Quem está chegando ao mercado tem mais facilidade. Mas o que fazer com uma pessoa de 50, 60 ou 70 anos?”, afirma Castello Branco.
Castello Branco afirma que as empresas terão de assumir parte da formação dos profissionais. Para ele, a educação básica ainda não está preparada para o ritmo das mudanças ligadas à IA.
“A educação, como está hoje, não está pronta para o que está vindo. A gente sai com lacunas importantes quando chega nas empresas”, afirma Castello Branco.
Na Senior, a orientação dada aos gestores é olhar menos para o conhecimento pronto e mais para o potencial de aprendizado. O CEO usa a expressão “brilho nos olhos” para falar de curiosidade, disposição e vontade de aprender.
“Quando a gente vai contratar pessoas na Senior, eu sempre oriento: contrata menos pelo conhecimento e mais pelo potencial, pelo brilho nos olhos. Conhecimento a gente consegue dar”, afirma Castello Branco.
A lógica também aparece na forma como a empresa vê o RH. Ao automatizar tarefas de admissão, atendimento e rotinas internas, a Senior diz querer liberar tempo das equipes para cuidar de temas ligados a pessoas, liderança, desenvolvimento e retenção.
“Quanto mais a gente deixar a vida do RH mais fácil e sobrar tempo para ele cuidar do principal, que são as pessoas dentro da empresa, melhor”, afirma Castello Branco.
Castello Branco afirma que a companhia teve um primeiro trimestre forte e de aceleração em relação ao histórico.
Ao mesmo tempo, a empresa olha o cenário econômico com cautela. Para Carlênio, juros altos, endividamento das empresas, Copa do Mundo e eleição são fatores que podem fazer empresários adiarem decisões de compra ou investimento.
“É um ano que não é fácil. Muitos empreendedores esperam, seguram um pouco, tentam adiar. Mas, isolando esse problema macroeconômico, o primeiro trimestre foi um ano de aceleração”, afirma Castello Branco.
A área de aquisições segue ativa. Segundo o CEO, a Senior negocia novos movimentos, mas não pode antecipar nomes nem setores. A busca, neste momento, está mais ligada a produtos e clientes do que à compra de empresas apenas por terem tecnologia de IA.
“A gente se preocupa menos com IA, porque a nossa plataforma tecnológica já está pronta para IA. Quando vamos buscar uma aquisição, estamos buscando produto e base de clientes”, afirma Castello Branco.