Negócios

Brás formalizado? O centro popular que quer levar camelô para dentro do CNPJ

O Circuito de Compras reúne 5.400 boxes e lojas em 182 mil m² (incluindo uma unidade do Sebrae), gera cerca de 40 mil empregos e tenta formalizar um dos endereços mais caóticos do comércio brasileiro

André Seibel, CEO do Circuito de Compras: administração está prestes a lançar um estúdio de podcast e gravação para os lojistas (Circuito de Compras/Divulgação)

André Seibel, CEO do Circuito de Compras: administração está prestes a lançar um estúdio de podcast e gravação para os lojistas (Circuito de Compras/Divulgação)

Laura Pancini
Laura Pancini

Repórter

Publicado em 3 de março de 2026 às 06h00.

No coração do Brás, em São Paulo, um complexo de 182 mil m² abriga 5.400 boxes e lojas, movimenta cerca de 40 mil empregos diretos e indiretos e tenta fazer algo raro no comércio popular brasileiro: tirar vendedores da rua, dar CNPJ a camelôs e organizar o caos sem matar o preço baixo.

É o Circuito de Compras, hoje o maior centro popular de comércio da América Latina, que nasceu como concessão pública para reorganizar a região da antiga Feira da Madrugada.

Na origem, a ideia era oferecer infraestrutura decente, segurança e banheiros para quem sempre vendeu na chuva, correndo da fiscalização. Com o tempo, o desafio ficou mais complexo.

“A intenção sempre foi trazer regularidade e paz para um ambiente historicamente caótico”, diz o CEO André Seibel, que chegou ao empreendimento em 2022.

Quando Seibel assumiu primeiro como diretor financeiro e depois como presidente, o Circuito carregava o peso de notícias sobre pirataria e irregularidades, num bairro em que se estima existirem 17 mil comerciantes de rua.

A primeira etapa foi arrumar a casa: criar um comitê de compliance com membros externos, instalar canal de denúncias anônimas e revisar operações financeiras e contratuais sob um padrão de transparência mais próximo do mercado formal.

Do ponto de vista do consumidor, o resultado aparece menos em normas e mais em sensação de segurança: câmeras, portaria, praça de alimentação estruturada e corredores numerados fizeram o Circuito se aproximar de um shopping popular tradicional — com lojas de moda, utilidades, acessórios e alimentação — sem perder o apelo de preço do Brás.

Como entrar no Circuito?

O Circuito foi desenhado para ser porta de entrada de quem quer sair da informalidade, mas não sabe por onde começar.

O processo, segundo Seibel, é propositalmente simples. Com CPF regular, documento de identidade e um contrato básico, em até 24 horas o futuro lojista escolhe o espaço, assina os papéis e sai com a chave do box na mão — sem análise de crédito extensa nem exigência de histórico prévio.

Os valores de locação são apresentados internamente como “aluguel social”, com preço por metro quadrado pensado para caber no bolso do microempreendedor que está dando o primeiro passo fora da rua.

“É um aluguel que cumpre o seu papel social”, diz o CEO. A lógica: o Circuito ganha com ocupação e fluxo e, em troca, oferece infraestrutura que seria impossível para um vendedor de rua organizar sozinho.

A formalização, porém, não termina na assinatura do contrato. Desde 2022, o Circuito mantém uma unidade do Sebrae dentro do complexo, fruto de uma parceria que envolve atendimento conjunto, não apenas locação de sala.

Por ali, já foram concluídos cerca de 300 cursos, passando por temas como fluxo de caixa, formação de preço e gestão de estoque. Muitos ambulantes que operavam com CPF na pessoa física saíram dali como MEI, com CNPJ, acesso a crédito e a possibilidade de contratar funcionários dentro das regras.

Limites, desafios e próximos passos

Nem tudo, porém, cabe dentro do Circuito. Os estudos da Prefeitura apontam cerca de 17 mil comerciantes de rua na região, além de 50 a 60 mil trabalhadores envolvidos diretamente nessa economia — volume muito maior do que a capacidade física do centro popular.

A própria gestão reconhece que não é possível “abraçar todo mundo” e que a formalização depende, antes de tudo, da vontade de quem hoje vive da banca na calçada, sob sol e chuva.

O empreendimento ainda não opera com 100% de ocupação: há lista de espera em algumas áreas e andares, enquanto outros trechos convivem com alguma vacância, normal para um shopping de grande porte.

A estratégia, segundo Seibel, é qualificar o mix, preencher espaços com lojistas comprometidos com a formalidade e manter a porta aberta para quem quer fazer a transição da rua para o box com perspectiva de longo prazo.

Do lado dos donos, não há plano imediato de replicar o modelo em outros bairros de São Paulo — a SPE que administra o Circuito existe, por contrato, para operar apenas essa concessão. Os acionistas, porém, já mantêm negócios semelhantes em outros estados, o que pode, na prática, espalhar aprendizados de governança e inclusão produtiva testados no Brás.

Para 2026, o foco está em aprofundar a agenda de sustentabilidade e mobilidade no entorno. Estão em estudo parcerias para usar parte das 325 vagas de ônibus do estacionamento como ponto de recarga para ônibus e carros elétricos, além de projetos de reuso de água, eficiência energética e um novo centro de convenções.

A administração também está finalizando um estúdio de podcast e gravação, que poderá ser usado pelos lojistas para apresentar coleções, fazer transmissões ao vivo e produzir conteúdo em ambiente profissional.

A ideia é que o box físico continue sendo o coração do negócio, mas que a vitrine se multiplique em outras plataformas. “Mais do que simplesmente alugar um espaço, a nossa missão é gerar oportunidade”, resume o executivo.

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