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'Supernavio medieval' é encontrado no fundo do mar da Dinamarca

Coca do século XV é a maior já encontrada, com capacidade de carga estimada em 300 toneladas

Embarcação de 28 metros estava excepcionalmente preservada no Estreito de Øresund, na Dinamarca (Divulgação/Viking Ship Museum)

Embarcação de 28 metros estava excepcionalmente preservada no Estreito de Øresund, na Dinamarca (Divulgação/Viking Ship Museum)

Da Redação
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 18 de janeiro de 2026 às 10h25.

Arqueólogos do Museu do Navio Viking, na Dinamarca, identificaram no Estreito de Øresund um "supernavio medieval", a maior coca já descoberta — um navio mercante do início do século XV.

O naufrágio foi localizado durante estudos no fundo do mar para a construção do bairro de Lynetteholm. À medida que areia e lodo acumulados por cerca de 600 anos foram removidos, os pesquisadores constataram que se tratava de uma embarcação, muito maior e mais complexa do que qualquer outra coca conhecida até hoje.

"A descoberta é um marco para a arqueologia marítima. É a maior coca que conhecemos e nos dá uma oportunidade única de entender tanto a construção quanto a vida a bordo dos maiores navios mercantes da Idade Média", afirma o arqueólogo marítimo Otto Uldum, responsável pela escavação.

Batizado de Svælget 2, em referência ao canal onde foi encontrado, o navio mede cerca de 28 metros de comprimento, 9 metros de largura e 6 metros de altura, com capacidade estimada de 300 toneladas. Construído por volta de 1410, é o maior exemplar desse tipo já identificado no mundo.

"Um navio com uma capacidade de carga tão grande faz parte de um sistema estruturado em que os mercadores sabiam que havia um mercado para as mercadorias que transportavam. O Svælget 2 é um exemplo concreto de como o comércio se desenvolveu durante a Idade Média", destaca Uldum.

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Sobre as cocas

As cocas eram navios eficientes, capazes de transportar grandes volumes com tripulações relativamente pequenas. Desenvolvida na região do Mar do Norte, foi um dos principais motores do crescimento econômico europeu nos séculos XIV e XV.

Sua grande capacidade permitiu que mercadorias comuns, antes restritas a mercados locais, passassem a circular por longas distâncias.

Grandes exemplares como o Svælget 2 eram usados em rotas longas e arriscadas, ligando regiões da atual Holanda às cidades do Mar Báltico, passando pelo Øresund. A embarcação reforça a existência de redes comerciais extensas e bem estabelecidas no século XV.

"É uma prova clara de que bens de consumo diário eram comercializados. Os construtores navais usavam navios o maior possível para transportar cargas volumosas – sal, madeira, tijolos ou alimentos básicos", afirma o arqueólogo.

A análise dendrocronológica indica que o Svælget 2 foi construído com madeira de diferentes origens. As tábuas de carvalho vieram da Pomerânia, atual Polônia, enquanto as cavernas — as costelas do navio — são de origem holandesa. Esse padrão sugere que o navio foi construído nos Países Baixos, combinando madeira importada com materiais preparados localmente.

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Estado de conservação

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Na foto, um dispositivo chamado "olhal de segurança", usado para ajustar o cordame do navio (Divulgação/Viking Ship Museum)

Além do tamanho, o estado de conservação do naufrágio impressionou os pesquisadores. O navio estava a 13 metros de profundidade, protegido da erosão costeira. A areia preservou o costado de estibordo da quilha até a borda, algo inédito nesse tipo de achado, além de revelar partes significativas do cordame.

"É extraordinário ter tantas peças do cordame. Nunca vimos isso antes, e nos dá uma oportunidade real de dizer algo totalmente novo sobre como as cocas eram equipadas para navegar", afirma o arqueólogo.

Os achados também incluem a primeira comprovação arqueológica de castelos de popa em cocas — estruturas elevadas conhecidas apenas por ilustrações até então.

"Temos muitos desenhos de castelos, mas eles nunca foram encontrados porque geralmente apenas o fundo do navio sobrevive. Desta vez, temos a prova arqueológica", diz Uldum.

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Traços do cotidiano da tripulação

Outra descoberta inédita foi uma cozinha construída em tijolos, a mais antiga já encontrada em águas dinamarquesas. O espaço reunia cerca de 200 tijolos, telhas, panelas de bronze, tigelas de cerâmica e restos de peixe e carne.

"Nunca antes vimos uma cozinha de tijolos em um navio medieval encontrado em águas dinamarquesas. Isso demonstra um conforto e uma organização notáveis a bordo", afirma o arqueólogo.

Objetos pessoais — como pratos de madeira pintados, sapatos, pentes e contas de rosário — ajudam a reconstruir o dia a dia da tripulação. "Esses objetos pessoais nos mostram que a tripulação levava consigo itens do cotidiano. Eles transferiram sua vida em terra para a vida no mar", explica Uldum.

Apesar da dimensão do navio, não foram encontrados vestígios da carga transportada. "Não encontramos nenhum vestígio da carga. Não há nada entre os muitos achados que não possa ser explicado como itens pessoais ou equipamentos do navio", afirma o arqueólogo. A hipótese é que mercadorias como sal, tecidos ou madeira tenham flutuado e se dispersado após o naufrágio.

Os pesquisadores também descartam qualquer uso militar da embarcação. "Não há qualquer indício de guerra ou conflito neste navio. Absolutamente nenhum", diz Uldum.

Para os arqueólogos, o Svælget 2 é mais do que um feito tecnológico: é um retrato de uma sociedade em transformação.

"Era necessária uma sociedade capaz de financiar, construir e equipar esses enormes navios que atendiam à necessidade da Idade Média de exportação e importação a grandes distâncias", afirma.

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