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Suécia testa barcos 'voadores' que podem mudar transporte público

Embarcações elétricas se movem acima da superfície da água, prometendo transporte mais rápido e barato

Barco P-12, da Candela, em teste em Estocolmo, na Suécia (Divulgação)

Barco P-12, da Candela, em teste em Estocolmo, na Suécia (Divulgação)

Publicado em 11 de fevereiro de 2026 às 06h01.

A companhia sueca Candela fabrica embarcações de transporte público marítimo, com uma diferença: seus barcos são capazes de planar cerca de meio metro acima da superfície, com todo o casco fora d’água.

Suportado por três finas hastes, apoiadas em dois hidrofólios retráteis – estruturas em formato de asa, que utilizam os mesmos princípios de aviação para levantar o casco de embarcações acima d’água – que geram sustentação o bastante para que o barco “decole”, deixando apenas os hidrofólios submersos.

Se movendo dessa forma, o veículo reduz drasticamente o atrito com a água, o que, por consequência, reduz a energia necessária para a propulsão em até 80%, afirma Gustav Hasselskog, fundador da empresa, para a revista britânica The Economist.

A Candela produz embarcações recreativas e barcos para transporte público. Os veículos, por serem elétricos, são silenciosos e não produzem emissões. Além disso, devido aos aerofólios, custam apenas 5% do preço de um barco convencional por milha náutica (cerca de 1.850 metros), e não deixam rastros na água, o que causa menos perturbação – fator importante na limitação de velocidade em embarcações marítimas comerciais.

Dessa forma, estima a revista britânica, barcos assim poderiam revolucionar o transporte público, prometendo uma alternativa mais barata, rápida e sustentável para o transporte de milhares de pessoas diariamente.

A empresa sueca não é a única que aposta nessa transformação. Outras companhias ao redor do mundo já produzem barcos sobre o mesmo princípio, e várias cidades já testam a implementação do conceito.

Empresas na Suíça, Irlanda, Estados Unidos, França e Nova Zelândia já produzem tanto embarcações particulares quanto públicas, e os usos de hidrofólios também são cogitados em aplicações militares, por serem silenciosos e com uma baixa presença térmica, devido aos seus motores elétricos.

Uma nova indústria

Embora sejam uma ideia antiga — com origem no fim do século XIX —, os hidrofólios tiveram suas aplicações e eficiência exponencialmente ampliadas com o avanço da tecnologia digital. Em corridas náuticas, por exemplo, os hidrofólios são projetados para maximizar a velocidade e não operam totalmente submersos, o que resulta em uma viagem turbulenta.

Já os modelos adotados por empresas como a Candela seguem uma lógica distinta: sensores e sistemas digitais realizam ajustes contínuos no posicionamento das hélices submersas, garantindo deslocamentos mais rápidos, estáveis e suaves.

Essas novas embarcações também se beneficiam dos avanços tecnológicos nas áreas de propulsão e de materiais. Como a energia necessária para mover um barco por meio de hidrofólios é diretamente proporcional à sua massa, a redução de peso torna-se um fator crucial. Isso exige um equilíbrio delicado entre o tamanho e a resistência dessas estruturas, que precisam ser suficientemente pequenas para minimizar o atrito com a água, mas robustas o bastante para sustentar o peso da embarcação. Nesse contexto, a fibra de carbono destaca-se como o material preferido, por combinar leveza e alta resistência.

Melhorias nos processos de fabricação e o uso de matérias-primas mais acessíveis contribuíram para a redução de custos desse material, tradicionalmente caro, viabilizando uma nova indústria.

Durante a fase de protótipos, a Candela utilizava sistemas elétricos da BMW e da BYD, antes de iniciar uma parceria com a Polestar, uma empresa focada na construção de veículos elétricos, que agora produz motores próprios para barcos de hidrofólio.

Ao posicionar os motores abaixo do nível d’água, na parte traseira do barco, as companhias são capazes de melhorar a eficiência e fornecer um sistema de resfriamento natural. Com duas hélices girando em sentidos opostos, uma diretamente atrás da outra, as forças de rotação geradas por uma hélice são praticamente anuladas pela outra, reduzindo drasticamente as perdas de energia. Hasselskog, fundador da Candela, estimula que essa configuração gere uma eficiência energética de até 80%.

Eficiência

Em comparação, barcas normais são altamente ineficientes, utilizando cerca de 15-35 vezes mais combustível do que um ônibus por milha, estima a The Economist. Essas barcas têm que ser grandes para arcar com o volume de passageiros em horários de pico, mas veem pouco uso durante o resto do dia. Uma frota de barcos menores e mais eficientes pode resultar em um serviço mais frequente e sustentável, diz Hasselskog para a revista.

Várias cidades pela Suécia e Noruega já conduziram testes com as embarcações para transporte público da Candela, e a companhia entregará oito embarcações para a Arábia Saudita, com mais pedidos vindo da Índia, das Ilhas Maldivas, e da Tailândia. Ao todo, a Economist estima que o mercado por barcas elétricas pode movimentar US$ 22 bilhões por ano.

O tamanho de embarcações desse tipo é limitado pelas próprias leis da física. Assim, até mesmo as maiores barcas operando sobre o princípio de hidrofólios teriam problemas para levar grandes números de passageiros e seus carros, mas ainda assim prometem ser uma alternativa viável e sustentável para o transporte de pessoas por vias marítimas em cidades pelo mundo.

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