Imagens de Renée Good e Alex Pretti, mortos por agentes do ICE, em memorial em Minneapolis, em 27 de janeiro (Octavio Jones/AFP)
Repórter de internacional e economia
Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 16h11.
Última atualização em 27 de janeiro de 2026 às 16h13.
As ações duras de agentes do ICE, órgão que procura imigrantes irregulares, em Minnesota, geraram uma crise política que impacta o apoio ao presidente Donald Trump entre a população e levou membros de seu partido a criticá-lo, algo que ocorreu em raras ocasiões nos últimos meses. Além disso, há risco de um novo shutdown, uma paralisação de serviços públicos por falta de verbas.
Uma pesquisa da Reuters/Ipsos, divulgada na noite de segunda-feira, 26, aponta que a desaprovação da política de imigração de Trump atingiu 53%, o maior nível desde o início do mandato. Ao mesmo tempo, 39% apoiam as medidas do presidente.
O estudo apontou, ainda, que 58% dos entrevistados avaliaram que as ações do ICE em Minnesota foram longe demais, e 26% as consideraram justas.
Na avaliação geral de seu governo, Trump teve 38% de aprovação, o menor índice desde o início do mandato, segundo a Reuters/Ipsos.
Desde o ano passado, o governo Trump ampliou os poderes do ICE para caçar imigrantes irregulares nas ruas. Agentes do órgão circulam armados e com o rosto coberto em várias cidades americanas, em cenas incomuns nas ruas do país.
Nas últimas semanas, um grande contingente do ICE foi enviado para o estado de Minnesota, onde há uma grande comunidade de imigrantes da Somália. A população local protestou contra a ação e passou a filmar as abordagens realizadas pelos agentes na rua, o que acirrou os ânimos.
A tensão atingiu seu ápice no sábado, 24, após os agentes matarem a tiros, pelas costas, o enfermeiro Alex Pretti, de 37 anos, que era cidadão americano e protestava contra as ações, em Minneapolis. Foi o segundo caso de morte realizada por agentes do ICE em menos de um mês.
Inicialmente, o governo Trump disse que Pretti estaria armado e teria ameaçado os policiais, mas vídeos mostram que ele estava segurando seu celular.
No domingo, 25, a secretária de Segurança Interna de Trump, Kristi Noem, o acusou de ser um terrorista doméstico e de tentar atirar contra os policiais. A Casa Branca chegou a divulgar fotos de uma arma que estaria com ele, mas o porte de armas é permitido nos EUA e Pretti tinha autorização para andar armado.
Com a publicação dos vídeos que desmentiam as acusações contra o enfermeiro, o governo Trump foi alvo de fortes críticas de democratas e até de republicanos, o partido do presidente.
Kevin Stitt, governador de Oklahoma, disse que "a morte de americanos causa grandes preocupações". "Os eventos em Minneapolis são incrivelmente perturbadores", disse o senador republicano Bill Cassidy. A senadora Lisa Murkowski, do Alasca, disse que as cenas em Minneapolis "levantam sérias questões sobre o treinamento adequado dos agentes anti-imigração".
Em meio às críticas, o governo Trump baixou o tom nas acusações e adotou o discurso de que a morte de Pretti será investigada. Ao mesmo tempo, Trump anunciou que enviará Tom Homan, autoridade máxima no combate a imigrantes, para Minnesota e que deverá retirar de lá Gregory Bovino, que chefiava a operação e acusou o enfermeiro de atacar policiais, sem provas.
Trump conversou por telefone com o governador de Minnesota, o democrata Tim Walz, e a expectativa é que a presença de agentes do ICE seja reduzida. Segundo o jornal Financial Times, a presença deles na rua ficou menor nesta terça-feira.
As cenas de agentes do ICE prendendo suspeitos de forma bruta, muitas vezes os jogando no chão, também passaram a circular de forma intensa nas redes sociais, e o morte de Pretti foi comentada por influenciadores que não costumam falar de política, o que aumentou o alcance do tema.
O combate à violência policial contra cidadãos é uma bandeira que mobiliza os americanos há anos, e pode aumentar a resistência a Trump. Em junho de 2020, por exemplo, a morte de George Floyd, um homem negro que foi sufocado por um policial, também em Minneapolis, gerou uma onda de protestos pelo país. Naquele ano, Trump perdeu a reeleição.
Em novembro, haverá eleições para renovar o Congresso e os governadores de vários estados nos EUA. Há risco de que as ações contra imigrantes reduzam os votos dos republicanos, que hoje têm maiorias na Câmara e no Senado, mas por margens pequenas.
Na segunda-feira, Chris Madel, candidato republicano ao governo de Minnesota que liderava as pesquisas no partido, se retirou da disputa, por considerar que as ações do ICE foram muito longe e tornaram a disputa impossível de vencer para os republicanos.
"Não posso apoiar as represálias lançadas por republicanos em nível nacional contra os cidadãos do nosso estado, nem me considerar membro de um partido que faria isso", afirmou Madel, conhecido por defender as forças de segurança.
Ao mesmo tempo, um juiz de Minnesota intimou o diretor do ICE, Todd Lyons, a depor sobre o caso e acusou o órgão de agir de modo irregular na captura de imigrantes.
Além disso, senadores democratas debatem a possibilidade de retirar recursos para o ICE do orçamento federal, o que poderia gerar um impasse na aprovação da liberação de verbas para outras agências. Sem acordo, haveria um shutdown, uma paralisação do governo americano.
No entanto, segundo a CBS News, o Departamento de Segurança Interna, que chefia o ICE, recebeu uma verba extra de US$ 165 bilhões no ano passado, por meio do projeto One Big Beautiful Bill, assinado por Trump, e teria verba garantida para continuar operando mesmo em caso de shutdown. Mesmo assim, Trump teria mais um desgaste político, com a suspensão de vários serviços, em um ano eleitoral decisivo, que definirá seus poderes na reta final do mandato