Mapa mostra Brasil e alguns países da América do Sul: região fica em alerta após ataque dos EUA na Venezuela (omersukrugoksu/Getty Images)
Repórter
Publicado em 3 de janeiro de 2026 às 12h35.
O ataque ordenado por Donald Trump contra a Venezuela — com bombardeios em várias cidades e a captura de Nicolás Maduro — não é só mais um capítulo da história de intervenções dos Estados Unidos na região.
Para especialistas, ele inaugura um patamar de risco político e militar na América do Sul, porque atinge diretamente um grande país do continente, com muito peso econômico e simbólico.
A operação derrubou sistemas de energia e alvos militares antes de, segundo Washington, levar o presidente venezuelano para fora do país. A esposa dele, Cilia Flores, também foi levada para Nova York.
Em território norte-americano, eles passam a ser tratados como réus em processos de narco-terrorismo — ligação entre tráfico de drogas e violência política — e tráfico internacional de cocaína.
“Chamar esse episódio de ‘primeiro ataque militar dos EUA na América Latina desde o Panamá, em 1989’ subestima sua importância”, disse o cientista político Oliver Stuenkel, professor da FGV e pesquisador da Carnegie Endowment e de Harvard, na rede social X.
Para ele, a diferença é que, agora, o alvo é um grande país sul-americano, com as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, muito próximo de Brasil, Argentina e Chile. “Do ponto de vista de Brasília ou Santiago, o Panamá era distante. A Venezuela é maior, mais próxima e muito mais difícil de ignorar”, resume.
Na avaliação de Gustavo Menon, professor do Prolam-USP e coordenador de Relações Internacionais da Universidade Católica de Brasília, a operação americana é mais um passo de uma escalada para intimidar não só Caracas, mas “o conjunto da América Latina na totalidade”, tratada historicamente como o quintal de Washington.
Menon destaca que o ataque misturou tecnologia militar avançada, informações de inteligência e rapidez:
“Em poucas horas, houve bombardeios seletivos a instalações elétricas e militares e, na sequência, a captura do chefe de Estado. É uma demonstração clara de capacidade bélica e de até onde os EUA estão dispostos a ir”.
O pano de fundo, para Menon, é a disputa por recursos estratégicos e poder entre grandes países. A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do planeta e, nos últimos anos, se aproximou ainda mais da China, com presença crescente de empresas e autoridades de Pequim no país.
Ao mesmo tempo, a Rússia está presa em um conflito prolongado e a Europa aumenta gastos em defesa. Nesse cenário, Trump tenta se reposicionar como líder disposto a usar força militar — com a pauta de drogas, terrorismo e “restauração da ordem” — e, ao mesmo tempo, mandar um recado a rivais globais.
No X, Stuenkel chama atenção para as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos. Em alguns momentos, o discurso foca na defesa da democracia; em outros, no combate ao narcotráfico; em outros, no controle do petróleo venezuelano.
“Quando as razões mudam conforme a conveniência, planejadores militares sul-americanos inevitavelmente se questionam: se hoje é a Venezuela, amanhã poderia ser quem?”, afirma.
Segundo ele, a preocupação que cresce nas Forças Armadas da região é menos ideológica — não é sobre ser de esquerda ou de direita — e mais estratégica: trata-se de lidar com uma potência que mostra estar disposta a agir sem autorização de organismos multilaterais.
Em público, a reação de países latino-americanos segue as divisões políticas já conhecidas. O presidente argentino Javier Milei comemorou a operação e disse que “a liberdade avança” na região.
Já o presidente Lula afirmou que os bombardeios e a captura de Maduro “ultrapassam uma linha inaceitável”, representam uma “afronta gravíssima à soberania da Venezuela” e ameaçam a ideia de uma América Latina como “zona de paz”.
Presidentes como Gustavo Petro, na Colômbia, e Gabriel Boric, no Chile, também condenaram a ação dos EUA. Para Stuenkel, nos bastidores, o quadro é mais uniforme do que o debate público sugere.
“Independentemente de apoiar ou não o governo Maduro, é profundamente perturbador para qualquer planejador de defesa na América do Sul ver um grande país vizinho ser bombardeado e ter seu presidente capturado por forças estrangeiras”, escreveu Stuenkel.
Menon concorda e diz que, do ponto de vista brasileiro, a preocupação é dupla: a intervenção acontece “sem precedentes em um país vizinho, às portas do território nacional” e em um contexto em que “o direito internacional, na prática, virou pó”.
Vale ressaltar que a invasão não significa que os Estados Unidos quer (ou pode) começar uma guerra em território latino-americano. “A guerra dependeria da aprovação do Congresso estadunidense para esse tipo de operação”, diz Menon.
Para o Brasil, a crise venezuelana deixa de ser apenas um problema diplomático e humanitário — marcado pelo fluxo de migrantes em Roraima — e passa a ter um componente militar mais evidente.
Para analistas ouvidos pela EXAME, um ataque dessa natureza em um país vizinho tende a reforçar o debate interno sobre a capacidade defensiva brasileira e sobre como o país se posiciona diante de crises na própria região.
Quando uma potência age sem o aval da ONU e bombardeia um vizinho, toda a arquitetura de segurança baseada em direito internacional é colocada à prova, avaliam esses especialistas — especialmente em um momento em que organizações regionais perderam espaço.
Menon lembra que a região vive um “quadro de fragmentação política e desintegração regional”. Organismos que, no passado, ajudavam a coordenar respostas — como Unasul ou mesmo o Mercosul em sua vertente política — hoje têm menos protagonismo.