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O fim da guerra está perto? O vai e vem das negociações entre Rússia e Ucrânia

Com telefonemas, plano de paz “95% pronto” e novos ataques, Rússia, Ucrânia e EUA testam até onde vai o discurso de avanço nas conversas

A valsa de Putin e Zelensky: ambos os líderes conversaram separadamente com o presidente americano Donald Trump

A valsa de Putin e Zelensky: ambos os líderes conversaram separadamente com o presidente americano Donald Trump

Laura Pancini
Laura Pancini

Repórter

Publicado em 29 de dezembro de 2025 às 15h19.

Entre domingo e esta segunda-feira, 29, o conflito entre Rússia e Ucrânia avançou em duas frentes aparentemente contraditórias.

De um lado, líderes falam em negociações de paz “90% a 95% concluídas”; de outro, Moscou intensifica ataques contra Kiev e ameaça rever sua postura após acusar a Ucrânia de lançar drones contra uma residência de Vladimir Putin.

Quais os últimos acontecimentos?

Tudo começa no campo diplomático. O último fim de semana foi marcado pelo encontro de quase três horas entre Donald Trump e Volodimir Zelensky em Mar-a-Lago, resort do presidente americano na Flórida.

Na reunião, os dois líderes discutiram um novo plano de paz e indicaram que o texto está praticamente pronto. Trump falou em “95% concluído”, enquanto Zelensky estimou cerca de 90%, com expectativa de decisões em janeiro sobre cessar-fogo, garantias de segurança e o futuro das regiões ocupadas no Donbass.

Ainda no domingo, horas mais cedo, Trump e Putin realizaram uma ligação de mais de uma hora, classificada pelo americano como “muito produtiva”.

Segundo Moscou, o russo aceitou a proposta americana de criar grupos de trabalho – um focado na dimensão de segurança e outro em questões econômicas – para detalhar o plano de 20 pontos, que inclui cessar-fogo monitorado internacionalmente, reafirmação da soberania ucraniana e um pacote de reconstrução de até US$ 800 bilhões.

Nesta segunda-feira, 29, novas camadas foram adicionadas à equação. Pela manhã, a Casa Branca informou que Trump teve um novo “telefonema positivo” com Putin para tratar da guerra, um dia depois do encontro com Zelensky na Flórida.

Pouco antes desse anúncio, Moscou acusou Kiev de disparar drones contra uma residência de Putin na região de Novgorod e avisou que poderia “revisar” sua posição nas negociações caso considere a Ucrânia responsável, vinculando diretamente o campo de batalha ao ritmo das conversas de paz.

De Kiev, Zelensky reagiu chamando a acusação de “mais uma mentira da Federação Russa e afirmou que Moscou está “simplesmente preparando o terreno para ataques, provavelmente contra a capital e possivelmente contra prédios do governo”.

Na leitura ucraniana, o episódio é menos um obstáculo técnico às negociações e mais uma ferramenta de pressão russa, que combina o discurso de avanço diplomático com a ameaça constante de novos bombardeios.

O resultado é um quadro em que a retórica de “fase final” nas negociações convive com uma escalada militar visível, o que reforça a sensação de que o acordo avançou no papel, mas ainda não no terreno.

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O que mudou na mesa de negociações?

Do ponto de vista estrutural, o fim de semana consolidou um desenho mais claro para o possível acordo.

O plano de 20 pontos, elaborado após semanas de negociações entre Washington e Kiev, prevê reafirmação da soberania ucraniana, um acordo pleno de não agressão com a Rússia, cessar-fogo imediato com monitoramento internacional, manutenção das Forças Armadas ucranianas e o compromisso de Kiev como Estado não nuclear.

Também inclui a adesão da Ucrânia à União Europeia, acordos econômicos com EUA e Europa, um amplo pacote de reconstrução de até US$ 800 bilhões e medidas humanitárias como troca total de prisioneiros e devolução de civis deportados.

Um dos pontos centrais em disputa são as garantias de segurança. Zelensky revelou nesta segunda-feira que os Estados Unidos ofereceram um pacote com duração de 15 anos, mas deixou claro que Kiev considera o prazo insuficiente.

“Gostaríamos de um compromisso de até 50 anos, para dissuadir a Rússia de novas tentativas de tomar nosso território à força”, disse o presidente.

“Sem garantias de segurança, realisticamente, esta guerra não terminará”, teria dito Zelensky a repórteres, por mensagens de voz respondidas via WhatsApp. A proximidade geográfica e o histórico de agressões mantêm o risco de novos ataques sempre presente.

As garantias também foram amarradas à política interna. Zelensky afirmou que a lei marcial, em vigor desde o primeiro dia da invasão russa em 2022, só será suspensa quando o país obtiver garantias formais de segurança dos aliados ocidentais.

Isso significa que a transição de um país em guerra para uma normalidade institucional – com retomada plena de direitos civis e liberdade de movimento para homens em idade de combate – depende diretamente do desfecho das negociações com Washington, Europa e, indiretamente, com Moscou.

Ao mesmo tempo, a Rússia tenta desenhar seus próprios limites. O Kremlin já reagiu à possibilidade de envolvimento direto da Otan, deixando claro que não aceitará o envio de tropas da aliança ocidental para o território ucraniano.

Na prática, o plano em discussão busca equilibrar três pressões: a demanda ucraniana por proteção duradoura; a disposição americana e europeia de assumir compromissos de longo prazo, e as “linhas vermelhas” de Moscou sobre presença militar estrangeira e status dos territórios ocupados.

Ao atrelar o fim da lei marcial às garantias de segurança, Zelensky também envia um recado: a conta do pós-guerra (econômica, militar e política) será dividida com EUA e Europa.

O balanço dos últimos acontecimentos é que o dossiê da paz ficou mais robusto, mas a margem para retrocessos continua grande.

No curto prazo, o destino do acordo depende menos das declarações otimistas e mais da capacidade de todos os lados de manter o diálogo aberto enquanto a guerra, literalmente, ainda não parou.

Com informações da AFP e da agência Efe.

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