Trump e Netanyahu durante encontro na Casa Branca: presidente americano afirmou que a reunião acontece a pedido de Netanyahu (Andrew Harnik / Equipe/Getty Images)
Redação Exame
Publicado em 29 de dezembro de 2025 às 15h49.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, se reúne nesta segunda-feira, 29, com o presidente americano Donald Trump na Flórida, em meio à pressão de Washington para tirar do papel a segunda fase do frágil plano de trégua em Gaza e às dúvidas sobre o futuro do cessar-fogo.
O encontro acontece no complexo Mar-a-Lago, em Palm Beach, e é o quinto entre os dois líderes realizado nos Estados Unidos neste ano.
Enquanto isso, autoridades da Casa Branca temem que Israel e o Hamas estejam atrasando a implementação da segunda fase do cessar-fogo, que prevê mudanças concretas no controle do território e no desarmamento do grupo islamista.
Trump, que afirmou que a reunião acontece a pedido de Netanyahu, estaria ansioso para anunciar antes de janeiro um governo tecnocrático palestino para Gaza e a mobilização de uma força internacional de estabilização para o território, reforçando a tentativa de marcar seu primeiro ano de volta ao poder com um avanço visível no dossiê Oriente Médio.
Antes da conversa com Trump, o gabinete de Netanyahu informou que o premiê se reuniu na Flórida com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, e o secretário de Defesa, Pete Hegseth.
A porta-voz do governo israelense, Shosh Bedrosian, disse que Netanyahu pretende abordar com Trump a segunda fase do acordo, que implica garantir que "o Hamas seja desarmado e Gaza desmilitarizada".
Do outro lado, o braço armado do Hamas voltou a rejeitar qualquer sinal de desarmamento, um dos principais pontos de fricção nas negociações.
"Nosso povo está se defendendo e não entregará suas armas enquanto a ocupação continuar", afirmaram as Brigadas Ezzedine al-Qassam em uma mensagem em vídeo.O grupo islamista também confirmou a morte de seu porta-voz de longa data, Abu Obeida, meses depois de Israel anunciar que ele havia morrido em um ataque aéreo em Gaza em 30 de agosto.
Além da trégua, Netanyahu deve usar o encontro para reforçar sua pauta em relação ao Irã. Segundo Bedrosian, o primeiro-ministro pretende pressionar Trump a realizar mais ataques contra o programa nuclear de Teerã devido "ao perigo que o Irã representa não apenas para a região do Oriente Médio, mas também para os Estados Unidos".
A visita de Netanyahu dá sequência a dias intensos de diplomacia em Palm Beach, onde Trump recebeu no domingo seu homólogo ucraniano, Volodimir Zelensky, para discutir o fim da invasão russa.
O cessar-fogo em Gaza, anunciado em outubro, é apresentado pela Casa Branca como uma das principais conquistas do primeiro ano de Trump em seu retorno ao poder, e mediadores regionais tentam manter o ímpeto.
O enviado especial dos Estados Unidos, Steve Witkoff, e o genro de Trump, Jared Kushner, receberam no início do mês, em Miami, funcionários de alto escalão dos países mediadores – Catar, Egito e Turquia – para discutir os próximos passos.
A arquitetura da trégua prevê uma segunda fase sensível: enquanto Israel deve retirar as tropas de suas posições em Gaza, o Hamas precisa entregar as armas, uma autoridade interina deve governar o território palestino e uma força internacional de estabilização (ISF, na sigla em inglês) será mobilizada.
Na primeira etapa do acordo, o Hamas era responsável por libertar os reféns que permaneciam em cativeiro, vivos e mortos, após o ataque de 7 de outubro de 2023 contra Israel. O grupo devolveu todos, exceto o corpo de um refém. Na prática, as duas partes denunciam violações frequentes do cessar-fogo.
O momento da reunião com Netanyahu é "muito significativo", disse Gershon Baskin, copresidente da comissão de construção da paz Alliance for Two States, que participou de negociações secretas com o Hamas.
"A fase dois precisa começar", declarou à AFP. Ele acredita que "os americanos percebem que já é tarde porque o Hamas teve tempo demais para restabelecer sua presença".
Nos bastidores, cresce a leitura de que Trump busca consolidar um papel de anfitrião do processo de paz.
O site americano Axios informou na sexta-feira que o presidente quer convocar a primeira reunião de um novo "Conselho de Paz" para Gaza, que ele presidiria, durante o Fórum de Davos, na Suíça, em janeiro. A publicação apontou, porém, que funcionários da Casa Branca estão cada vez mais exasperados por considerarem que Netanyahu se esforça para travar o processo de paz.
"Há cada vez mais sinais de que o governo americano está se frustrando com Netanyahu", disse Yossi Mekelberg, analista para o Oriente Médio do centro de estudos Chatham House, com sede em Londres. "A pergunta é o que vai fazer a respeito (...) porque a fase dois, neste momento, não avança", acrescentou.
Mekelberg observou ainda que Netanyahu tenta desviar a atenção de Gaza para o Irã justamente quando Israel entra em um ano eleitoral. "Tudo está relacionado com permanecer no poder", afirmou sobre o veterano primeiro-ministro israelense.
Para analistas, essa dinâmica ajuda a explicar por que o premiê endurece o discurso sobre Teerã, ao mesmo tempo em que mantém uma margem de manobra para retardar passos mais concretos na implementação da trégua.
Com informações de AFP