O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung (JEON HEON-KYUN / POOL/AFP)
Repórter
Publicado em 23 de fevereiro de 2026 às 07h35.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente sul-coreano Lee Jae-myung anunciaram nesta segunda-feira, 23, em Seul, a elevação das relações bilaterais entre os países ao nível de parceria estratégica.
O movimento marca um novo patamar na cooperação entre os dois países e inclui o compromisso de retomar as negociações para um acordo de livre comércio entre a Coreia do Sul e o Mercosul.
Após a reunião bilateral, os dois líderes divulgaram um conjunto de acordos em áreas que vão da agricultura à cooperação empresarial, além da assinatura de dez memorandos de entendimento.
“Decidimos elevar nossa relação bilateral a uma ‘parceria estratégica’”, afirmou Lee em entrevista coletiva, ao se referir à declaração conjunta assinada após o encontro. Até então, Brasil e Coreia do Sul mantinham uma parceria de cooperação integral.
Segundo o presidente sul-coreano, o Plano de Ação Quadrienal Coreia do Sul-Brasil servirá como roteiro para os próximos anos, abrangendo política, economia, cooperação prática e intercâmbio entre cidadãos.
Lula destacou que os dois países apresentaram um plano de ação “com iniciativas concretas para os próximos três anos”.
Um dos principais pontos do encontro foi o impulso às negociações para um acordo de livre comércio entre a Coreia do Sul e o Mercosul, interrompidas em 2021.
“Sobre as negociações de livre comércio entre o Brasil e a República da Coreia, discutimos caminhos para retomar as negociações interrompidas em 2021”, afirmou Lula.
Lee reforçou que o Brasil é “um membro chave do Mercosul” e reiterou a necessidade de retomar as tratativas. Segundo ele, os dois concordaram que os benefícios da cooperação econômica “devem ser ampliados” aos países vizinhos.
Os dois governos assinaram dez memorandos de entendimento em setores como pequenas e médias empresas, saúde, agricultura, espaço, defesa e aviação.
Entre os acordos está a criação de um comitê econômico e comercial de alto nível, copresidido pelas chancelarias e pelos ministérios da Indústria de ambos os países. O objetivo é impulsionar a cooperação em comércio, investimentos, agricultura, energia, economia digital e inteligência artificial.
Na área da saúde, foi firmado um acordo de cooperação regulatória que, segundo Lee, permitirá que os cosméticos sul-coreanos, populares no Brasil, alcancem mais consumidores.
Na agricultura, três acordos focam em segurança alimentar e no fortalecimento da cooperação em tecnologias agrícolas de próxima geração, com vistas ao desenvolvimento sustentável das economias rurais.
Lee mencionou a tentativa de lançamento do foguete comercial sul-coreano Hanbit-Nano no Centro Espacial de Alcântara, no Maranhão, em dezembro, e manifestou expectativa de sucesso futuro do projeto.
Também ressaltou a cooperação nas cadeias de suprimentos aeronáuticas e o desejo de avançar no codesenvolvimento de aeronaves civis de nova geração.
Lula afirmou que a transição energética abre novas oportunidades de complementaridade produtiva e destacou as cadeias de minerais críticos como áreas com potencial de agregação de valor. Ele citou ainda espaço para cooperação em alta tecnologia, como semicondutores e inteligência artificial.
O presidente brasileiro disse ter comunicado a Lee que a conclusão dos procedimentos sanitários para exportação de carne bovina brasileira poderá beneficiar os consumidores sul-coreanos.
“O Brasil é o principal destino dos investimentos coreanos na América Latina e, com 11 bilhões de dólares, a Coreia é o nosso quarto parceiro comercial na Ásia”, afirmou Lula.
Lula afirmou que a visita a Seul conclui “um ciclo fundamental da política externa brasileira” em seu terceiro mandato, com fortalecimento das relações com a Ásia. Ele lembrou ter visitado China, Índia, Indonésia, Malásia e Vietnã nos últimos três anos.
O presidente brasileiro chegou à Coreia do Sul procedente da Índia, participará de um fórum empresarial e deixa o país amanhã. Em seguida, visitará os Emirados Árabes Unidos.
Os dois líderes também acordaram ampliar o intercâmbio estudantil, o ensino da língua coreana no Brasil e a coprodução audiovisual.
Lula lembrou que o Brasil abriga cerca de 50 mil pessoas de origem coreana, a maior comunidade da América Latina. Ele destacou ainda que o K-pop, as novelas e a culinária sul-coreana têm milhões de consumidores no país.
Antes da reunião, Lee afirmou que ele e Lula chegaram ao topo após infâncias difíceis. O sul-coreano trabalhou em uma oficina têxtil para sustentar a família, enquanto Lula deixou a escola para ajudar em casa.
Lula também mencionou a firmeza e a resiliência das democracias de ambos os países diante de tentativas recentes de golpe de Estado, em referência às ações de seus respectivos antecessores, Jair Bolsonaro e Yoon Suk-yeol.
*Com informações da AFP e EFE