Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, durante discuro no Fórum Econômico Mundial, em Davos ( Fabrice Coffrini/Getty Images)
Repórter
Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 16h58.
Última atualização em 27 de janeiro de 2026 às 17h01.
Enfrentando ameaças políticas, econômicas, e até mesmo militares pelo governo de Donald Trump, o bloco da União Europeia busca novas parcerias em várias frentes, em uma estratégia para reduzir a dependência dos EUA.
Ao avançar em grandes acordos nas últimas semanas – muitos dos quais estiveram em negociação por várias décadas, como o do Mercosul e da Índia – o bloco buscar criar algumas das maiores áreas de livre comércio do mundo. A UE também vem negociando e revivendo pactos comerciais com o México e a Indonésia.
Além disso, o bloco também busca mais autossuficiência em segurança e defesa e investe em pesquisa e desenvolvimento científico através do Horizon Europe, que atrai trabalhadores estrangeiros (inclusive americanos).
Veja a seguir um resumo dos principais acordos comerciais e programas em andamento pela União Europeia.
O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi (Centro), posa para uma fotografia com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen (Direita), e o presidente do Conselho Europeu, Antonio Costa, antes de uma reunião no Hyderabad House, em Nova Délhi, em 27 de janeiro de 2026 (Sajjad HUSSAIN / AFP via Getty Images)
Concluído nessa terça-feira 27, o histórico acordo entre a União Europeia e a Índia, conhecido como “a mãe de todos os acordos” já estava sendo planejado há quase duas décadas.
“Concluímos a mãe de todos os acordos. Criamos uma zona de livre comércio para dois bilhões de pessoas, com benefícios para ambos os lados", disse a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.
O acordo cobrirá cerca de 25% do PIB global, disse o premiê indiano Narendra Modi, adicionando que, para a Índia, o novo pacto trará grandes benefícios para as indústrias têxteis, de couro e joalheiras, que sofreram ano passado com as tarifas de Trump.
Além disso, a exportação de mão de obra indiana, tanto especializada em campos STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) quanto em outras áreas, encontrará mais oportunidades na Europa.
“Este acordo trará muitas oportunidades para os 1,4 bilhão de habitantes da Índia e para os milhões de cidadãos da UE”, disse Modi para a mídia.
Em troca, a União Europeia ganhará mais de acesso ao mercado indiano, um dos maiores do mundo, mas normalmente fechado e permeado por tarifas. Sob o acordo, 96,6% das tarifas sobre bens europeus exportados para a Índia seriam eliminadas ou reduzidas. Oficiais europeus estimam que o pacto economizará até 4 bilhões de euros para o bloco. Com isso, a UE estima que suas importações para a Índia devem dobrar até 2032.
Dentre os produtos cujas tarifas foram completa ou virtualmente eliminadas estão maquinário, produtos químicos e medicamentos.
Em relação aos carros, um dos principais mercados indianos, tarifas que hoje estão em 110% seriam gradualmente reduzidas para 10%.
Acordo UE-Mercosul: tratado integrará dois dos maiores blocos econômicos do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) conjunto de mais de US$ 22 trilhões (Ricardo Stuckert/PR/Flickr)
Outro acordo potencialmente histórico, com mais de duas décadas de planejamento e negociação, é o da União Europeia com o bloco do Mercosul. O pacto, que criará uma ampla zona de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, composto por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, foi assinado esse mês, mas ainda enfrenta obstáculos para sua ratificação.
Impactando 780 milhões de pessoas, caso entre em vigor, o pacto prevê uma redução gradual das taxas de comércio entre os blocos de 91 a 92% ao longo de 15 anos. O escopo total do acordo é amplo e prevê acesso preferencial mútuo aos mercados de ambos os blocos.
Para o Brasil, há destaque especial é o agronegócio, que terá tarifas reduzidas em produtos como grãos e carnes. A UE, por sua vez, se beneficiaria no envio de carros e peças de automóveis, maquinário, produtos químicos e têxteis.
Espreitando os blocos, o acordo é considerado promissor pela maioria dos atores envolvidos, mas levanta séria oposição na Europa. Parlamentares enviaram partes do acordo para a Corte Europeia de Justiça, onde será analisado.
O Parlamento Europeu contesta uma cláusula específica que concederia aos países do Mercosul um mecanismo para desafiar regras europeias, caso acreditem que essas regras restringem o acesso deles ao mercado do bloco. Além disso, o acordo é alvo de diversos protestos por parte de setores agrícolas, especialmente na França, que temem competir com o agro brasileiro, um dos maiores do mundo.
Claudia Sheinbaum, presidente do México, durante entrevista coletiva (José Méndez/EFE)
O bloco europeu também negocia acordos comerciais que gerariam zonas de livre comércio com a Indonésia, a maior economia do bloco da ASEAN, que conta com 11 países do Sudeste Asiático, e com o México, uma importante economia emergente, vizinha dos EUA. A União Europeia é o terceiro maior parceiro comercial do México.
Com a Indonésia, o acordo permitirá que as exportações de ambos os lados se tornem isentas de cerca de 90% das tarifas vigentes, visando facilitar exportações e investimentos para compensar as tarifas de Donald Trump. Uma grande parte das tarifas deve ter redução quase imediata.
Para a Indonésia, o acordo prevê benefícios na exportação de importantes produtos para a economia do país, como o óleo de palma, café e têxteis. O país prevê que o comércio bilateral com o bloco, que movimentou cerca de 30,1 bilhões de dólares em 2024, dobre nos primeiros cinco anos do acordo em vigor.
Por sua vez, o principal benefício para a União Europeia será nas exportações automobilísticas. Atualmente, a Indonésia tem uma taxa de 50% sobre veículos europeus. Além disso, bens europeus, como produtos químicos, maquinário e certos produtos alimentícios, como leite em pó e queijo também se beneficiarão do acordo.
Com o México, um acordo relativamente antigo, originalmente desenhado nos anos 90 e ratificado em 2000 foi revivido e reformulado perante as ameaças de Trump. Com os termos originais do pacto cobrindo apenas bens industriais, os parceiros agora buscam adicionar serviços, compras governamentais, maior facilidade para investimentos e produtos agrícolas – todos basicamente isentos de taxas adicionais.
No momento, a União Europeia exporta anualmente cerca de 2 bilhões de euros em produtos agrícolas para o México.
O Eurofighter Typhoon FGR4 em demonstração no Farnborough International Airshow (Simon Dawson/Bloomberg)
Por fim, a Europa também toma passos para aumentar sua autossuficiência nas áreas de defesa, tecnologia, inovação e pesquisa.
Através do programa SAFE, um instrumento que providencia empréstimos para estados-membros do bloco adquirirem equipamentos de defesa produzidos na Europa, o bloco busca reduzir sua dependência em armamentos e sistemas de defesa americanos.
O SAFE acomoda apenas uma quantidade limitada de produtos não europeus no setor e permite que os países negociem termos ainda mais favoráveis internamente. Centrado em empréstimos, o programa tem uma carteira de 150 bilhões de euros.
Por outro lado, o programa Horizon Europe, centrado em pesquisa e desenvolvimento, conta com um orçamento de 95,5 bilhões de euros para fortalecer a base científica e tecnológica do bloco e a Área de Pesquisa Europeia, um projeto que visa criar um mercado sem fronteiras para pesquisa, inovação e tecnologia através da Europa.
Além disso, o projeto também visa aumentar a capacidade de inovação do bloco, sua competitividade e oportunidades de trabalho especializadas a fim de atender às necessidades dos seus cidadãos. O projeto também busca atingir os objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU.