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Europa quer aumentar venda de carros à Índia em meio a ameaças de Trump

Reunião de cúpula nesta terça-feira poderá abrir caminho para o maior acordo comercial do mundo

Carros da Audi e da Volkswagen, fabricados na Alemanha (Matthias Balk/DPA/Getty Images)

Carros da Audi e da Volkswagen, fabricados na Alemanha (Matthias Balk/DPA/Getty Images)

Publicado em 26 de janeiro de 2026 às 14h50.

Última atualização em 26 de janeiro de 2026 às 14h53.

A União Europeia e a Índia negociam acordos ambiciosos de comércio e de segurança em meio às incertezas geopolíticas trazidas pelo presidente americano Donald Trump. Um dos principais pontos dos tratados é a adoção de medidas para aumentar as vendas de carros europeus na Índia. 

Autoridades da Europa e da Índia farão, nesta terça-feira, 27, uma reunião de cúpula em Nova Déli. O encontro marcará o início do maior acordo de livre comércio do mundo, envolvendo cerca de 2 bilhões de pessoas e correspondendo a um quarto do PIB global.

Os detalhes ainda estão sendo debatidos, mas há a expectativa de que a Índia reduza as tarifas sobre carros europeus para 40%, o que representaria a maior abertura do mercado automobilístico indiano até então.

O acordo abrange ainda áreas como livre-comércio, pesquisa científica, comunicação e infraestrutura e é mais um movimento da Europa para reduzir sua dependência dos EUA.

O premiê indiano, Narendra Modi, se encontrará com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e com o presidente do Conselho Europeu, Antonio Costa, nessa terça-feira, 27, numa cúpula que deve dar origem ao novo tratado de livre comércio e desenvolver um acordo de defesa.

“Uma Índia bem-sucedida faz o mundo mais estável, próspero e seguro. E todos nos beneficiamos”, disse Von der Leyen à imprensa nesta segunda, 26.

Acesso ao mercado automobilístico

Segundo apuração da agência Reuters, a redução de tarifas na Índia valerá para a importação de 200.000 novos carros europeus com motores de combustão por ano. No momento, Nova Déli impõe tarifas de 70% a 110% sobre carros importados.

Veículos elétricos ficarão de fora do acordo pelos próximos 5 anos, pois a Índia quer proteger sua indústria. Após esse prazo, veículos elétricos europeus terão as mesmas reduções tarifárias.

Com o tempo, o acordo prevê uma redução gradual das tarifas para 10% - facilitando a entrada de nomes como Volkswagen, Mercedes-Benz e BMW na Índia, que é o terceiro maior mercado automobilístico por vendas, atrás apenas dos EUA e da China.

Atualmente, carros europeus representam menos de 4% das 4,4 milhões de unidades que entram no mercado por ano. Os carros estrangeiros que mais fazem nome no mercado indiano são os japoneses, principalmente da marca Suzuki.

O primeiro-ministro indiano Narendra Modi concordou em reduzir as taxas sobre um número limitado de veículos do bloco europeu com um preço de importação superior a 15.000 euros, de acordo com duas fontes anônimas familiarizadas com as negociações, para a Reuters.

Em troca, a importação de bens como têxteis e joias, fortes indústrias indianas terá menos tarifas na União Europeia. Esses setores foram alvos de tarifas de até 50% pelo presidente americano Donald Trump desde agosto.

Além de reduções tarifárias, o acordo também visa lançar uma nova estrutura cooperativa para mobilidade de trabalhadores, sob a qual a UE pretende atrair pesquisadores e trabalhadores sazonais indianos, de acordo com as necessidades do mercado de trabalho europeu.

Sob Trump, intensas taxas sobre o visto H-1B, que permite residência e trabalho nos EUA, afetou muitos trabalhadores indianos, que representam a maioria dos portadores desse visto. Com essa opção indisponível, milhares de cientistas e pesquisadores indianos olham para a Europa para novas oportunidades.

Além disso, os acordos também afetam o Corredor Econômico Índia-Oriente Médio-Europa, ou IMEEC, um corredor econômico que visa aumentar o crescimento e integração econômica entre os participantes. O projeto criaria infraestruturas para transporte e conexões de energia entre os blocos, em uma rota que vai da Índia até a Europa através dos Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Israel e Grécia.

Narendra Modi, premiê da Índia, durante reunião do G7 em Bari, na Itália (Tiziana Fabi/AFP)

Parceria de segurança

Além do acordo de livre comércio, os blocos também podem adotar iniciativas conjuntas de segurança e defesa. O acordo de defesa, que até então está nas etapas preliminares, diz em seu rascunho que “A UE e a Índia irão consultar-se sobre as suas respectivas iniciativas de defesa, inclusive através de intercâmbios sobre assuntos relacionados com a indústria de defesa.”

"Eles irão explorar, onde houver interesse mútuo e alinhamento de prioridades de segurança, as possibilidades de participação da Índia em iniciativas de defesa relevantes da UE, conforme apropriado, em conformidade com os respectivos marcos legais", acrescenta. A premissa do acordo é centrada em um diálogo anual sobre segurança e defesa entre a Índia e o bloco europeu, e aprofunda a cooperação em questões de segurança marítima, virtual e contraterrorismo.

"A crescente complexidade das ameaças à segurança global, o aumento das tensões geopolíticas e as rápidas mudanças tecnológicas sublinham a necessidade de um diálogo e cooperação mais estreitos entre a UE e a Índia em matéria de segurança e defesa", diz o documento.

Visita do premiê canadense

Nesse contexto, o primeiro-ministro canadense Mark Carney também fará uma visita à Índia na primeira semana de março, onde pretende assinar acordos sobre urânio, energia, minerais e inteligência artificial, segundo Dinesh Patnaik, alto-comissário da Índia no Canadá.

Carney, assim como seus aliados europeus e muitos outros, busca novos parceiros comerciais, principalmente após Trump ameaçar anexar o país vizinho, assim como fez com a Groenlândia.

Em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial, o premiê foi aplaudido em pé após realçar que a antiga ordem mundial está em ruínas, mobilizando o Canadá e os chamados "middle power", ou potências médias, para criar uma nova ordem mundial mais justa e bilateral.

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