Debate “normal” entre vices devolve civilidade à campanha

Coronavírus é o principal tema do confronto entre Mike Pence e Kamala Harris, que foi civilizado e inteligível

Os candidatos a vice-presidente dos Estados Unidos, o republicano Mike Pence e a democrata Kamala Harris, fizeram um debate normal na noite de ontem. É um elogio e tanto depois do desastre da semana passada, quando Donald Trump e Joe Biden passaram 90 minutos batendo boca e atropelando um ao outro.

Pence e Harris foram cordiais, respeitosos e conseguiram manter um diálogo inteligível. É verdade que no clima de polarização extrema da política americana há poucos indecisos a conquistar, mas a troca de ideias na noite de ontem pode servir no mínimo como um sinal de esperança para quem acredita que existe espaço para a discordância civilizada entre adversários.

E as discordâncias entre os dois são muitas, como se sabe. Kamala (pronuncia-se kámala) Harris abriu o debate resumindo a sensação de muitos americanos sobre o desempenho do governo Trump diante da pandemia do coronavírus: “Foi o maior fracasso de qualquer presidência da história”.

Harris lembrou as revelações feitas há pouco mais de um mês pelo jornalista Bob Woodward, que divulgou conversas gravadas com Trump na qual o presidente admitiu ter mentido sobre a gravidade da pandemia para a população americana no início da crise para evitar pânico.

“Eles foram informados da gravidade da doença em 28 de janeiro. Sabiam o que estava acontecendo e não te contaram”, afirmou Harris, olhando para a câmera. “Você ficou calmo quando seu filho não pode mais ir para a escola, quando teve de passar meses sem ver os avós?”

Pence, que foi o chefe da força-tarefa de combate à pandemia, foi fiel ao roteiro da campanha de reeleição dos republicanos: culpou os chineses e a OMS e disse que a proibição da entrada de voos vindos da China no final de janeiro salvou “centenas de milhares de vidas”.

Ao contrário do chefe, porém, Pence fala em frases inteiras e em tom calmo e comedido. Ele também expressou pesar pelos mais de 210.000 americanos mortos até agora. Em suas declarações públicas, Trump raramente demonstra luto. Nesta semana, ele disse que os americanos não têm por que temer o coronavírus e que pegar Covid-19 foi “uma bênção de Deus”.

 

Havia muita expectativa sobre a discussão da doença do presidente e sobre as mais de 20 pessoas que estiveram em sua órbita nos últimos dias e foram diagnosticados com o coronavírus. Mas o tema acabou sendo engolido por outras discussões.

Apesar disso, a pandemia estava literalmente no palco. As mesas dos dois candidatos estavam separadas por uma distância de quatro metros. Dois painéis de acrílico também foram instalados entre Harris e Pence, apesar de a medida ser considerada inócua pelos especialistas: o vírus viaja com a corrente de ar, contornando essas barreiras.

Todas as pessoas presentes no auditório foram testadas antes do debate. Apesar da aderência aos estritos protocolos de segurança, integrantes da campanha democratas estavam apreensivos. Katie Miller, diretora de comunicação de Pence, é casada com Stephen Miller, um dos principais assessores de Trump. O diagnóstico de Covid-19 de Miller foi confirmado na terça. Katie Miller já contraiu e se curou da doença, mas deixou Salt Lake City ao saber que o marido estava doente.

Silêncio eloquente

Como no debate entre os candidatos da semana passada, o que deixou de ser dito foi mais relevante do que a maioria das respostas.

Harris tergiversou quando questionada diretamente por Mike Pence sobre a possibilidade de que os democratas aumentem o número de juízes da Suprema Corte. O objetivo seria restabelecer o equilíbrio entre conservadores e progressistas do tribunal. Espera-se que Amy Coney Barrett, indicada por Trump, seja confirmada para o cargo, o que garantiria uma maioria de 6 votos a 3 para a ala conservadora.

Pence, por sua vez, se recusou a responder se o governo Trump vai acabar com uma regra que permite que pessoas que tenham problemas de saúde tenham acesso garantido a planos de saúde. Este é potencialmente um dos temas que podem ser analisados pela Suprema Corte já com uma nova composição.

O vice também fugiu da pergunta sobre uma transição pacífica de poder caso Trump seja derrotado nas urnas. O presidente americano há meses vem afirmando que a votação pelo correio abre brecha para fraudes “massivas” (apesar de não haver nenhuma prova de que isso seja verdade) e não se comprometeu a aceitar a vontade da população.

“Primeiro, acho que vamos ganhar essa eleição”, afirmou Pence. “Senadora, seu partido passou os últimos três anos e meio tentando reverter o resultado [da eleição de 2016].” Pence se referia a uma teoria da conspiração segundo a qual o governo Obama teria infiltrado espiões em sua campanha.

O vice também afirmou que os democratas queriam remover o presidente do cargo por causa de um “telefonema”. A Câmara aprovou o impeachment de Trump, mas ele foi absolvido no Senado. O presidente foi acusado de obstrução da justiça e abuso de poder por um toma-lá-dá-cá com o seu par ucraniano.

Se houve uma concordância entre Pence e Harris foi em relação a uma questão ardilosa da mediadora, a jornalista Susan Page, do jornal USA Today. O vencedor da eleição de 3 de novembro será o presidente mais velho a assumir a Casa Branca (Trump fez 74 anos em junho, e Biden completa 78 em novembro).

Page perguntou se os vices tinham discutido eventuais planos caso os candidatos estivessem incapacitados de exercer o cargo. Tanto Pence quanto Harris se esquivaram da pergunta. Presumivelmente, nenhum deles estava disposto a colocar em dúvida a saúde de seus cabeças de chapa diante de dezenas de milhões de telespectadores.

Audição seletiva

Nos demais pontos levantados pela mediadora, ambos os candidatos mostraram que, apesar de mais civilizados que os chefes, as perguntas de debates muitas vezes são apenas um detalhe.

Uma questão sobre como os Estados Unidos deveriam encarar a China serviu para Pence culpar o país por falta de transparência no início da pandemia do coronavírus. Ele não disse como trataria a potência que mais ameaça a hegemonia americana.

Harris também não foi capaz de articular uma resposta coerente. A questão geopolítica mais importante da atualidade ficou sem resposta de dois potenciais ocupantes da cadeira mais poderosa do mundo.

Os vices também repetiram a cartilha de suas respectivas campanhas em relação à economia. Pence afirmou (falsamente) que Biden quer acabar com o fraturamento hidráulico, como é chamada a técnica de exploração de gás natural do subsolo. Ele também afirmou que os democratas querem cobrar mais impostos, estender as regulamentações e inchar o governo.

Harris rebateu lembrando do corte de impostos anunciado por Trump, que beneficiou os mais ricos e as grandes empresas. “Biden acredita que você mede a saúde da economia pela saúde dos trabalhadores e das suas famílias”, disse Harris.

O momento pitoresco do debate aconteceu a cerca de 15 minutos do final do debate: uma mosca posou nos cabelos brancos de Mike Pence e lá ficou por bons dois minutos (o inseto já tem uma conta no Twitter, é claro).

Na conclusão, a moderadora anunciou para o próximo dia 15 o segundo encontro entre Trump e Biden. Mas ainda não é certa a realização do confronto. Apesar das declarações de Trump de que ele estará presente, o presidente precisa estar inteiramente recuperado e não mais contagioso.

Biden amplia vantagem

A pouco mais de três semanas da eleição, uma nova leva de pesquisas indica que Joe Biden ampliou sua vantagem sobre Donald Trump. Segundo um levantamento nacional da CNN divulgado na terça-feira, o democrata tem vantagem de 16 pontos percentuais sobre Trump: 57% a 41%. A média de 14 pesquisas realizada pelo site Real Clear Politics aponta uma margem média de 9,7 pontos percentuais para Biden.

Mas o presidente americano é eleito pelo colégio eleitoral, e o total de votos nacional pode não ser necessariamente o melhor indicador do estado da corrida. A esta altura da campanha há quatro anos atrás, Trump também estava atrás de Hillary Clinton com margens semelhantes.

Existem algumas diferenças importantes, entretanto. A principal delas, claro, é a pandemia do coronavírus e a reprovação da condução da crise pelo governo. Hillary Clinton também tinha altos índices de rejeição, e o número de indecisos era muito maior em 2016.

E Trump está perdendo de forma consistente em estados-chave do colégio eleitoral. Na Flórida, o maior do prêmio em número de votos no colégio eleitoral, o democrata estaria 11 pontos percentuais à frente de Trump, de acordo com uma pesquisa da CNN realizada depois do diagnóstico de Covid-19 do presidente.

Um levantamentos da Universidade Quinnipiac aponta Biden com vantagem de 13 pontos percentuais (vantagem média de 7,1 pontos) na Pensilvânia, um dos estados fundamentais para a eleição de Trump em 2016. Tanto os eleitores da Flórida quanto os da Pensilvânia desaprovam a condução da pandemia pelo governo americano.

A maioria da população considera irresponsável o comportamento pessoal de Trump em relação ao coronavírus. Esta é a opinião de sete entre dez mulheres entrevistadas pelo instituto SSRS, e de quase dois terços dos eleitores com mais de 65 anos. Esses dois recortes demográficos são considerados essenciais para as aspirações presidenciais de qualquer candidato.

O presidente americano raramente usa máscara e ironizou repetidas vezes os cuidados tomados por Biden. Depois de receber alta do hospital, ele afirmou que os americanos “não devem ter medo” do coronavírus. Mais de 210.000 pessoas morreram por complicações de Covid-19 nos Estados Unidos.

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