Brexit: o que parecia uma ótima ideia há dez anos agora volta para assombrar o país, conforme maioria da população se arrepende da saída britânica da União Europeia (Jack Taylor/Getty Images)
Repórter
Publicado em 23 de maio de 2026 às 08h01.
Pela primeira vez desde o referendo original do Brexit, que tirou o Reino Unido da União Europeia em 2016, a ideia de um retorno paira sobre o debate político e a opinião pública. Desde a saída, defendida à época pela maioria dos britânicos, as percepções sobre o Brexit mudaram drasticamente.
Em 2016, cerca de 48% da população concordava com a mudança, segundo dados do Parlamento. Com 72% de participação, a opção para sair do bloco ganhou de seu oposto por mais de 1 milhão de votos. Atualmente, a base de dados Statista sugere uma figura diferente — apenas 30% da população correspondente continua defendendo a saída, com 58% achando que foi uma má ideia. E o que ressoa com eleitores também ressoa com os partidos, com cada vez mais ministros declarando apoio à reunificação. Esses ministros são ainda mais motivados por causa de um cenário geopolítico de instabilidade e competição.Por sua vez, a UE também tem seus motivos para querer o Reino Unido de volta, apesar de certos desacordos relativamente irrelevantes, como o alinhamento de protocolos, por exemplo, em segurança alimentar.
Todavia, qualquer união aceitaria a presença de mais um país do G7, além da França, com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, seu próprio arsenal nuclear e o maior mercado de capitais do continente.
Segundo a revista britânica The Economist, os mesmos fatores que levam alguns britânicos a discutir um retorno à relativa estabilidade da UE — uma ordem global caótica, na qual os Estados Unidos e a China disputam a supremacia e deixam as potências médias lutando pela segurança — também deveriam levar a UE a favor de um retorno do Reino Unido.
Em toda a UE, os eleitores dizem que acolheriam bem o retorno do Reino Unido.
Mesmo assim, há quem se oponha ao retorno do Reino Unido. Afinal, o país sempre foi um membro relativamente passivo do bloco, inclusive se opondo a muitas das principais medidas da união, como o uso do euro e a adoção da zona de livre circulação sem passaporte, conhecida como a área Schengen. Além disso, a contribuição britânica ao orçamento do bloco também era motivo de intensos debates.
À luz disso, desde a saída do Reino Unido, parlamentares europeus aprovaram uma série de medidas que, segundo a Economist, certamente teriam sido barradas por premiês britânicos, especialmente em termos orçamentários.
Ideias francesas que, historicamente, eram palco de desacordos com os britânicos floresceram numa UE pós-Brexit, como novas ideias de política industrial e de autonomia.
Mesmo assim, uma reentrada britânica no bloco seria, por um lado, simples: assumindo apoio popular e político, o Reino Unido já tem a maioria - se não todas - das características necessárias para se tornar um membro do bloco, como ser uma economia de livre mercado e apresentar os valores democráticos defendidos pelo bloco.
Essa facilidade não é aproveitada por outros candidatos, como a Sérvia e a Ucrânia, por exemplo.
Haveria obstáculos, porém. Por exemplo, obter o apoio de todos os governos nacionais, cada um com poderes de veto. Para esse fim, possivelmente teriam de fazer concessões, como adotar o euro, a zona de livre circulação sem passaportes e ser mais flexíveis com suas reservas sobre políticas orçamentárias.
Mas o principal motivo de apreensão para o retorno britânico é a falta de confiança de que o Reino Unido continuaria firme na UE dessa vez, já que, além de não ter sido um membro muito ativo, agindo de maneira relativamente independente, os britânicos já saíram uma vez; caso acontecesse novamente, isso poderia ser visto como um sinal de fraqueza europeia.