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A competição, e não a geopolítica, é o maior obstáculo para multinacionais na China

Mesmo assim, apesar das pressões, empresas estrangeiras apostam no potencial do mercado chinês, como evidenciado pelas ações da Apple e da Nvidia, aponta economista no World Economic Forum Summer Davos

China é destino atraente para multinacionais, mas mercado interno é repleto de competição. Na foto, uma rua de lojas em Xangai, com negócios locais e estrangeiros (Nikada/Getty Images)

China é destino atraente para multinacionais, mas mercado interno é repleto de competição. Na foto, uma rua de lojas em Xangai, com negócios locais e estrangeiros (Nikada/Getty Images)

Publicado em 27 de junho de 2026 às 08h01.

Ao contrário do que pode sugerir a crença popular, considerando a mão de ferro do dirigente chinês Xi Jinping e as tensões com outras grandes economias, como os EUA e a União Europeia, a geopolítica não é o principal obstáculo para multinacionais que buscam espaço no mercado chinês.

Em vez disso, aponta o economista Joe Ngai, diretor do departamento da China da empresa de consultoria McKinsey & Company, a forte competição no mercado é o principal desafio para as multinacionais que tentam entrar no mercado local.

Falando sobre o tema na edição de verão do World Economic Forum em Davos, na Suíça, nesta quinta, 25, Ngai não subestimou a importância da geopolítica, admitindo que pode ser difícil encontrar espaço para sua empresa no mercado chinês. Todavia, o verdadeiro teste está na competição com rivais locais.

“Esses caras estão famintos... eles conseguem superar qualquer um; aí você chega aqui e a pergunta é: o que você tem a oferecer?”, disse Ngai.

“Já usei a analogia de que o ecossistema empresarial da China é a academia mais dura do mundo”, observou ele, comparando a agressiva concorrência local a um ambiente exigente que, no fim das contas, fortalece as empresas que conseguem entalhar para si um lugar no mercado.

O aumento recente das velhas tensões entre a China e outras grandes economias, como os Estados Unidos e a União Europeia, intensificou o escrutínio sobre o comércio e os investimentos transfronteiriços no último ano, levando parte das empresas a adotar uma postura mais cautelosa quanto à sua presença na segunda maior economia do mundo.

China e o futuro dos negócios

Loja da Apple em Xangai, na China (CFOTO/Future Publishing via /Getty Images)

Apesar desse cenário, Ngai avalia que o mundo corporativo passou a enxergar os limites da estratégia de dissociação econômica entre as grandes potências. Segundo ele, as empresas perceberam que o decoupling é "uma forma simplista demais de pensar o mundo dos negócios", já que a capacidade industrial chinesa continua sendo um dos principais pilares das cadeias globais de suprimentos. "Não há ninguém que saiba melhor o que a China pode oferecer do que Tim Cook, da Apple, ou Jensen Huang, da Nvidia", afirmou.

Na prática, embora grandes multinacionais tenham buscado diversificar suas operações, a dependência da infraestrutura produtiva chinesa permanece elevada.

A Apple, a segunda empresa mais valiosa do mundo, atrás apenas da Nvidia, transferiu parte de sua cadeia de produção para a Índia e o Vietnã, mas a maior parte de sua rede manufatureira permanece concentrada na China. Em reunião com o Ministério do Comércio chinês, em março, Tim Cook destacou que 80 dos 100 principais fornecedores da companhia ainda estão instalados no país. A Nvidia, por sua vez, também mantém o mercado chinês como prioridade estratégica. Mesmo após o governo dos Estados Unidos proibir a exportação de seus chips mais avançados para a China, a fabricante continua buscando formas de preservar sua atuação em um mercado onde já chegou a deter uma participação significativa.

Cook e Huang integraram a delegação de executivos que acompanhou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante sua visita a Pequim, em maio. O encontro entre Trump e Xi Jinping contribuiu para reduzir as tensões bilaterais após a prolongada guerra comercial que atingiu seu ponto mais crítico em abril de 2025.

Para Ngai, a visita simbolizou que, apesar das disputas geopolíticas, o diálogo entre governos e empresas continua avançando.

"Neste ano, vi mais intercâmbios entre conselhos de administração, CEOs e líderes na China do que em qualquer outro momento. Para mim, isso é um excelente sinal de entendimento e comunicação", afirmou. Segundo ele, o aumento do contato entre conselhos de administração, executivos e lideranças chinesas representa um sinal positivo de fortalecimento da comunicação e do entendimento entre os diferentes atores econômicos.

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