Kylian Mbappe: filme publicitário em formato de cinemak/New Jersey Stadium in East Rutherford on June 16, 2026. (Photo by CHARLY TRIBALLEAU / AFP) (Charly Triballeau/AFP)
Estrategista de Comunicação
Publicado em 24 de junho de 2026 às 15h35.
Você não precisa torcer para nenhuma das 48 seleções da Copa do Mundo FIFA 2026 para reconhecer o que está acontecendo. Há quatro semanas, um ecossistema inteiro decidiu, sem reunião ou briefing, que o mundo prestaria atenção na mesma coisa ao mesmo tempo.
O mercado publicitário, por sua vez, tratou isso como o que realmente é: o recurso mais raro e mais caro da comunicação contemporânea.
Uma pesquisa recente da Harris Poll, com mais de 2 mil adultos americanos, mostrou algo que interessa mais a quem faz marketing do que a quem faz escalação: metade dos americanos planeja assistir a pelo menos uma partida da Copa pela TV, streaming ou redes sociais.
Mais de um em cada quatro só passou a se interessar por futebol por causa do torneio. Ou seja: boa parte dessa audiência nunca foi fã do esporte, e sim do momento.
Raciocine comigo: as marcas não estão patrocinando futebol, mas comprando um lugar dentro de uma das últimas janelas de atenção verdadeiramente sincronizada que ainda existem: gente de continentes diferentes, fusos diferentes, idiomas diferentes, olhando para a mesma tela ao mesmo tempo.
O tamanho do investimento prova que o mercado já fez essa conta: Coca-Cola, Adidas, Visa, Nike, McDonald's, Bank of America, Pepsi... A lista de patrocinadores oficiais já era extensa o bastante. O que chama atenção é quem entrou na disputa sem nenhuma obrigação contratual com bola: LEGO e uma infinidade de marcas locais mundo afora também quiseram um pedaço dessa atenção.
Quando gigantes da IA, dos brinquedos e do wellness decidem aparecer numa Copa do Mundo ao lado de hambúrgueres, batatas-fritas e chuteiras, o ativo em jogo não é mais o esporte; é a sincronia da audiência.
Os próprios formatos publicitários já abandonaram a lógica do comercial de 30 segundos. A Nike lançou um filme de seis minutos com Erling Haaland, Mbappé, Cristiano Ronaldo, Channing Tatum, Kim Kardashian e LeBron James, com estética de cinema, não de intervalo comercial.
Um dos seus diretores criativos resumiu o feito desta forma: “Parece que existe uma Copa do Mundo paralela, só que no mundo da publicidade”.
Sua concorrente direta, a Adidas, reuniu o ator Timothée Chalamet e Messi e uma versão “rejuvenescida” digitalmente de David Beckham.
O mesmo Messi pintou os cabelos de azul e celeste pelo ChatGPT e se divertiu com isso.
Moda, música, entretenimento, fast-food e comportamento: o público jovem não quer se sentir “vendido para”. Então as marcas pararam de comercializar produtos e começaram a vender entretenimento que carrega o produto dentro.
Vender deixou de ser o objetivo declarado; entreter virou a estratégia, e as marcas pegam carona. É o mesmo princípio que fez a CazéTV, de Casimiro Miguel, transformar transmissão esportiva em comunidade: primeiro entrega o que prende, depois vem o resto.
O caso mais revelador, porém, não veio das marcas com orçamento ilimitado. Veio de uma bebida escocesa. A Irn-Bru não tem o caixa de uma Coca-Cola, então fez a única coisa que uma marca pequena pode fazer contra um adversário com orçamento dez vezes maior: pesquisou de verdade o que os torcedores estavam sentindo, em vez de tentar imitar a épica das grandes campanhas.
O resultado foi uma campanha sobre a logística impossível de viagem, a insônia e a irresponsabilidade financeira de seguir a seleção escocesa, e não sobre grandeza esportiva. Quem não compete em orçamento, compete em precisão de leitura cultural — uma lição para qualquer empresa brasileira que não tem verba de Copa do Mundo, mas tem capacidade de entender o próprio público melhor do que o concorrente maior entende o dele.
Existe mais um detalhe que talvez seja o mais didático de toda essa Copa: a atenção do intervalo passou a valer dinheiro de verdade. As pausas de hidratação, criadas oficialmente por motivo de saúde dos atletas, se transformaram em inventário publicitário.
Nos Estados Unidos, especialistas estimam que essas pausas devem gerar mais de US$ 250 milhões só ali, e a soma global pode passar de US$ 1 bilhão. Uma emissora chegou a perder o retorno ao jogo porque o próprio intervalo comercial dela atrasou. O futebol virou, literalmente, o intervalo entre os intervalos.
A sincronia, porém, tem um limite que nenhum orçamento compra. Quando uma marca atropela a experiência que o público esperava ter, a reação vem contra: as pausas foram vaiadas em quase todo estádio, e a Telemundo, que transmite a Copa em espanhol nos Estados Unidos, decidiu não vender um único anúncio nelas.
Sim, atenção forçada cobra seu preço.
Quem ainda mede uma campanha por “público que gosta de futebol” está usando a régua errada. A régua certa é outra: quantas pessoas, fãs ou não, eu alcanço dentro da única janela do ano em que o mundo concorda em olhar para o mesmo lugar?
Essas janelas são cada vez mais raras e, por isso, cada vez mais caras.