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Christian Rôças: 'Se a sua marca sumisse das redes, alguém sentiria falta?'

No Marketing Trends, autor do livro 'Parem de me interromper' defende que marcas precisam gerar conexão real em vez de apenas interromper na 'era da distração'

Christian Rôças, autor do livro 'Parem de me interromper' (Divulgação)

Christian Rôças, autor do livro 'Parem de me interromper' (Divulgação)

Juliana Pio
Juliana Pio

Editora-assistente de Marketing e Projetos Especiais

Publicado em 14 de janeiro de 2026 às 11h08.

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“Se a sua marca hoje saísse das redes sociais, alguém ia sentir falta dela?” A pergunta do jornalista Christian Rôças funciona como um teste de relevância em um ambiente saturado de estímulos. “Desde que acorda até a hora de dormir, com o celular na mão, a gente é interrompido por mensagens, WhatsApp, anúncios, ligações, outdoors”, diz. Para ele, a sensação de excesso não é subjetiva: “a gente não aguenta mais ser interrompido.” A atenção, afirma, virou um ativo escasso e disputado.

Essa provocação orienta a reflexão central do livro 'Parem de me interromper', lançado pelo autor, e também pauta a conversa no videocast Marketing Trends, da EXAME. Rôças chama esse cenário de “era da distração”, como contraponto ao termo “era da atenção”, já incorporado ao discurso do mercado. A escolha não é apenas semântica. Segundo ele, falar em distração ajuda a explicitar o impacto real de uma comunicação que disputa tempo sem considerar contexto, momento e interesse do público.

“Se alguém oferece alguns segundos de atenção, o uso desse tempo precisa fazer sentido”, afirma. Na prática, insiste, mensagens repetitivas ou formatos deslocados do meio — em referência ao pensamento de Marshall McLuhan — tendem a acelerar o cansaço do consumidor, não a construir vínculo.

A análise vem de alguém que fala com conhecimento de causa. Conhecido como Crocas, Rôças é CEO da Flint.me, plataforma de educação focada na creator economy, e soma 25 anos de experiência em conteúdo, marketing, branding e relações públicas, sempre na interseção entre tecnologia, mídia e comportamento.

Ao longo da carreira, passou por Facebook e Instagram na América Latina, onde ficou seis anos à frente da relação com creators, grupos de mídia, agências e publishers. Nesse período, liderou iniciativas de conteúdo e branded content associadas a grandes eventos, como Olimpíadas, Copa do Mundo e Carnaval.

Antes disso, comandou a agência Gruda, responsável pela carreira digital de artistas como Gilberto Gil e Marisa Monte e de festivais como Rock in Rio e Lollapalooza Brasil. Em 2019, assumiu o cargo de CEO do Porta dos Fundos, conduzindo o reposicionamento multiplataforma e a expansão da marca para México e Polônia.

Hoje, como autor, Rôças reúne essa bagagem para discutir um dos principais desafios da comunicação contemporânea: como conquistar atenção e relevância sem recorrer à interrupção. No livro, recorre a exemplos históricos para mostrar que dilemas semelhantes já surgiram sempre que novas mídias ganharam escala.

'Parem de me interromper': livro defende a atenção como ativo central da comunicação em um ambiente saturado de mensagens (Divulgação)

Um dos casos citados é a transmissão radiofônica de A Guerra dos Mundos, em 1938, quando uma dramatização apresentada como boletim informativo levou parte do público a acreditar em uma invasão alienígena. O efeito, afirma, só pode ser entendido a partir do contexto: o rádio era associado a comunicados oficiais, o programa foi ao ar no Halloween e o formato de ficção era incomum naquele meio. “Quando você entende o contexto, tudo passa a fazer sentido”, diz.

A mesma lógica, segundo ele, ajuda a explicar a forma como o jornalismo e o conteúdo digital se estruturam hoje. Rôças lembra que a pirâmide invertida — base do lead jornalístico — surgiu da necessidade de condensar informação com a chegada do telégrafo. Esse princípio, afirma, está presente nos vídeos curtos e nos primeiros segundos de um post nas redes sociais. “O TikTok usa a pirâmide invertida”, diz, ao comparar o gancho atual à forma como o jornalismo aprendeu a organizar informação desde a abertura.

Parte dessa argumentação é organizada em torno dos “três Cs”: conteúdo, conexão e comunidade. No conteúdo, ele defende autoridade e singularidade. Na conexão, reforça a importância de saber com quem se fala e de ouvir os sinais da audiência. Já ao tratar de comunidade, faz uma distinção clara entre pertencimento e segmentação. “Target não é comunidade. Público-alvo não é comunidade”, afirma. Para Rôças, falar com menos pessoas, desde que exista vínculo, tende a ser mais efetivo do que buscar escala sem conexão.

'Parem de me interromper' saiu pela Citadel, tem prefácio de Nelson Motta e está disponível em livrarias e em formato digital.

Assista abaixo à entrevista completa

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Sobre o Marketing Trends

O Marketing Trends é o videocast da EXAME dedicado a discutir os principais movimentos do marketing, da publicidade e da creator economy, em linha com o posicionamento da marca como uma mediatech focada em informação e formação de lideranças.

Apresentado por Juliana Pio, editora assistente de marketing, o programa reúne CMOs, executivos dos setores e personalidades para conversas sobre estratégia, negócios, comunicação e consumo. Os episódios são publicados semanalmente, às quartas-feiras, às 9h, no YouTube (@exame). Confira outros episódios:

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