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Marcas de canabidiol se associam a esportes e patrocinam atletas em Tóquio

Empresas do mercado legal de cannabis têm começado a enxergar proximidade com atletas como uma boa alternativa para um posicionamento que associe o canabidiol a bem estar

Pedro-Barros-olimpiada-toquio-canabidiol O skatista Pedro Barros: Olimpíadas de Tóquio são as primeiras em que os atletas poderão competir utilizando o canabidiol

O skatista Pedro Barros: Olimpíadas de Tóquio são as primeiras em que os atletas poderão competir utilizando o canabidiol (Divulgação/Divulgação)

O derivado medicinal da maconha canabidiol pode ser consumido no Brasil desde 2015 e o acesso acontece principalmente por marcas que oferecem a importação em seus e-commerces. Apesar do crescimento no uso do canabidiol, elas enfrentam um desafio de mercado. Não podem propaganda dos produtos.

A veiculação de imagens de frascos, incentivo ao uso e tudo o que for relacionado à propaganda é vetado pela Anvisa.

Uma saída foi apostar na produção de conteúdo educativo para as redes sociais e, mais recentemente, em patrocínios para atletas, seguindo um posicionamento de marcas que já existia nos Estados Unidos. Por lá, mercado em que a cannabis medicinal tem menos restrições, as grandes marcas de canabidiol começam a aparecer ao lado de lutadores de UFC, por exemplo. No Brasil, porém, o caminho tem sido mais lento, já que os negócios de canabidiol começam agora a desabrochar, como mostra esta reportagem da Exame.

Desde 2020, essas empresas também podem pedir também à Anvisa para entrar nas farmácias físicas, facilitando o acesso da substância. Até o momento, apenas o laboratório Prati-Donaduzzi e americana Nunature conseguiram.

Agora, as marcas brasileiras de canabidiol também tem começado a enxergar a oportunidade de se aproximar de atletas como uma boa alternativa para um posicionamento que associe o canabidiol a bem-estar, qualidade de vida e não a um medicamento para doenças graves.

Com a decisão da Agência Mundial Anti-Doping (WADA) de excluir a substância da lista de substâncias proibidas em 2018, estas Olimpíadas são as primeiras em que os atletas poderão competir utilizando o canabidiol tranquilamente. Com forte atuação no relaxamento muscular, a substância também tem ação anti-inflamatória em lesões.

Concorrendo pela delegação brasileira, dois atletas fazem uso do canabidiol regularmente e um deles tem tratamento patrocinado pela USA Hemp Brasil, empresa fundada por brasileiros nos Estados Unidos que opera via importação de canabidiol.

O maratonista Daniel Chaves, que tem grandes chances de trazer uma medalha de ouro, e o skatista Pedro Barros estão em Tóquio e usam o canabidiol da USA Hemp Brasil, que apoia o tratamento da Daniel.

O tenista Bruno Soares seria mais membro da delegação com o patrocínio de uma marca de cannabis se não fosse um infortúnio.

Nesta semana, Bruno ficou de fora das competições de Tóquio devido a uma apendicite. Ele é defensor do uso medicinal da cannabis sativa e é patrocinado pela marca 1Pure.

O intermédio entre os atletas e a produtora de canabidiol foi feito pela empresa Atleta Cannabis, autointitulada como uma "comunidade" de assistência de saúde a atletas com o tratamento do canabidiol. Além de captar potenciais profissionais, ela também oferece assessoria em medicina canábica do esporte.

Mudança de posicionamento

A USA Hemp Brasil é uma das muitas importadoras de canabidiol que atuam no e-commerce brasileiro, mas tem o diferencial de ter a própria fazenda de cannabis no estado do Oregon, nos Estados Unidos, desde 2016. Com administração familiar, a estratégia de fornecer tratamento com canabidiol para quase 100 atletas passa pela visão de mundo da marca.

A ideia é humanizar os tratamentos com canabidiol e ajudar a quebrar os estigmas. Além disso, a ideia é comunicar que o produto gera saúde.

No Brasil, a marca patrocinou o reality show de jiu-jitsu The New Star e vai apoiar o Encontro da Federação de Jiu-Jitsu Paradesportivo, em agosto. Nesse grupo de outros esportistas com apoio da USA Hemp Brasil, estão também a lutadora Lívia Souza e o Matheus Isaac, do Windsurf, que deve competir em nos jogos de Paris 2024.

Fundador da Atleta Cannabis, Fernando Parternostro defende que o modelo de patrocínio das marcas de cannabis a atletas tenha uma preocupação em investir na carreira deles.

"As empresas de cannabis estavam voltadas mais para os discursos do tratamento das doenças. A gente começou com outro discurso, que é de bem-estar e qualidade de vida. Agora a gente vê as marcas começando, mas essas estratégia tem um tempo de maturação. Estava faltando as marcas enxergarem que o mercado de bem-estar e qualidade de vida é muito maior que o de doenças. Gostaria que as marcas tivessem mais posição de investimento no atleta também, não só pensando em faturamento. O momento é de educar e construir", diz Parternostro. 

Para ele, o acesso aos produtos acaba sendo mais interessante do que dinheiro em si, já que eles são importados e podem estar fora do orçamento do atleta.

Além da USA Hemp Brasil, que tem dois competidores olímpicos sob seu apoio, e da 1Pure, essa estratégia de utilizar o esporte como um canal de comunicação também é o foco da HempMeds desde março, multinacional de canabidiol que tem subsidiária de importação brasileira.

A empresa já patrocina nove atletas, todos usando o canabidiol da empresa. Entre eles, como uma espécie de embaixador, está o lutador Maguila. Na luta, por exemplo, estão Raoni Barcelos e John Teixeira, e no surf está Raquel Apollonio.

"Por que patrocinar atletas? São pessoas que ajudam a diminuir a barreira e o preconceito ao tratamento com os derivados da cannabis. Como você colocaria um atleta olímpico ou de outra modalidade, que está exposto com outros patrocinados e marcas, fazendo uma coisa que seria ilegal? Então, a gente afasta qualquer possibilidade de as pessoas associarem erroneamente a tráfico ou a até ao uso recreativo, coisas que não tem a ver com a gente", diz Matheus Patelli, diretor-geral da HempMeds Brasil.

Laranja tomando conta

A aposta em apoiar o tratamento dos atletas chega num momento de mudança na identidade visual da empresa.

Até 2020, a importadora de canabidiol vendia produtos sob um marca mais sóbria e "low profile", com referências de design similares ao adotado na indústria farmacêutica. O azul-claro predominava nas embalagens. Agora, a ideia é remeter a movimento, estilo de vida e descontração, com o laranja tomando conta.

“Quem usa o CBD nota a diferença que ele faz. Eles conseguem trazer para a gente algo que é importante, que é você conseguir falar de algo com muita propriedade porque eles estão tomando aquilo. É muito diferente de uma marca de roupa ou expor um alimento. A pessoa passa a tomar aquilo e incorporar no dia a dia dele", defende Matheus.

Fora da delegação brasileira, duas jogadores do futebol feminino dos Estados Unidos também falam abertamente sobre o uso de cannabis medicinal e têm patrocínio.

Megan Rapinoe, 36 anos, é patrocinada pela Mendi, empresa de cannabis medicinal de sua irmã. Megan tem medalha de ouro nos jogos de Londres e foi duas vezes campeã do mundo pelos EUA. Em 2016, no Rio de Janeiro, ela não jogou devido a uma lesão. Agora, em Tóquio, volta às Olímpiadas com a permissão do consumo medicinal da cannabis.

Outra jogadora do futebol da seleção norte-americana que chega a Tóquio com apoio de uma marca canabidiol é Carli Lloyd. A jogadora é apoiada pela marca CBDMEDIC desde que teve uma lesão no joelho em 2020 e precisou fazer uma cirurgia.

Por que usar o canabidiol em atletas?

Os principais usos comprovados canabidiol são no combate à rigidez muscular devido à esclerose múltipla e para convulsões em casos de epilepsia — focos do Sativex, remédio formulado com canabidiol que passou por estudos clínicos e é referência global, fabricado pela GW Pharma.

Há outros usos, porém frutos de evidências ainda não comprovadas em estudos completos. Nessa lista entram dor crônica, náusea causada por quimioterapia, insônia e ansiedade.

O canabidiol é apenas uma das centenas de substâncias presentes na cannabis sativa, planta que também é usada como a droga maconha. No uso medicinal, porém, os compostos não têm quantidade alta de tetrahidrocanabidiol, conhecido pela sigla THC, que gera os efeitos psicoativos.

No caso dos atletas, a principal utilização é com o objetivo de ter uma ação anti-inflamatória. A médica do esporte e prescritora de canabidiol Jéssica Durand explica que o foco é recuperação muscular, mas o uso do canabidiol em atletas também ajuda muito na redução da ansiedade pré-competições e na qualidade do sono.

"Qualquer pessoa quando pratica uma atividade física de alta intensidade lesiona o músculo. Depois da lesão, uma resposta básica é a inflação. Essa inflamação é importante para que se tenha a regeneração e que se cria memória muscular. A inflamação no esporte tem o sentido de reparar o músculo. O canabidiol vai atuar em receptores que temos no corpo modulando a resposta inflamatória. Ele é um anti-inflamatório natural. Ao contrário de anti-inflamatórios como o Ibuprofeno, por exemplo, que a gente toma quando se machuca, o canabidiol retira a 'parte ruim' da inflamação, mas deixa a 'parte boa', porque a inflamação tem uma parte boa. Com o canabidiol, a gente tira por exemplo a dor e o edema, mas permite que ele cicatrize. Os anti-inflamatórios tradicionais mascaram porque a inflamação é bloqueada totalmente", diz Jéssica.

O uso medicinal de cannabis no esporte será um dos temas do segundo congresso CNABIS, promovido pela plataforma Dr. Cannbais, em agosto. A ideia é reunir autoridades da sáude para no evento que é técnico-científico, destinado a médicos, profissionais da saúde e interessados no uso terapêutico dos canabinoides. As inscrições são gratuitas e já estão abertas neste link.

O primeiro lugar no mundo a autorizar o uso medicinal da cannabis foi o estado da Califórnia, nos Estados Unidos, nos anos 1990. Depois, em 2001, o Canadá entrou na onda, assim como o estado do Havaí. Hoje, já são cerca de 40 paí­ses que permitem o uso de ­derivados medicinais, com regras que variam. Nessa lista estão o Brasil, vizinhos como Argentina, Colômbia, Uruguai e Chile, a maior parte da Europa e dos estados dos Estados Unidos.

O uso medicinal de derivados não tem relação com o uso recreativo, permitido em bem menos locais — entre eles, Uruguai e Canadá. 

A substância era proibida pela Agência Mundial Anti-Doping principalmente por sua associação com a droga maconha, que tem os efeitos do psicoativos do THC, substância que continua proibida e vetada no Jogos Olímpicos.

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