Café da manhã: experiência completa na hotelaria (Divulgação/Divulgação)
Colunista
Publicado em 30 de agosto de 2026 às 09h00.
Destinos passam meses discutindo posicionamento. Hotéis investem pesado em identidade, fotografia, site, redes sociais e campanhas. Pousadas pensam no nome, no conceito, no discurso e em como querem ser vistas pelo hóspede. Mas existe uma parte menos glamurosa do branding no turismo: em algum momento, toda essa construção precisa sobreviver à operação. E talvez um dos melhores lugares para observar isso seja justamente o café da manhã.
Quando um hóspede escreve uma avaliação depois do checkout, dificilmente está pensando no manifesto da marca ou na campanha que o convenceu a reservar. Ele está lembrando da cama, do atendimento, do banho e, muitas vezes, do café que tomou poucas horas antes. No Booking, a avaliação específica do café da manhã não compõe diretamente a nota geral da propriedade, mas a própria plataforma chama atenção para o peso dessa experiência no fim da hospedagem: para muita gente, é a última refeição antes de fechar a mala e pegar a estrada.
Isso expõe uma questão importante para quem trabalha com marketing no turismo: a comunicação cria uma expectativa, mas é a operação que decide se ela realmente se concretiza. Uma pousada pode se posicionar como conectada ao território e servir os mesmos produtos industrializados encontrados em qualquer hotel do país. Pode falar sobre exclusividade e montar um buffet genérico. Pode construir uma narrativa sofisticada sobre cultura local e não conseguir traduzi-la para uma experiência concreta.
O hóspede, afinal, não separa marketing, atendimento, gastronomia e hospitalidade em departamentos. Para ele, tudo faz parte da mesma experiência. É por isso que alguns hotéis deixaram de tratar o café como um serviço acessório. Na Casa Maria Luigia, propriedade de Massimo Bottura nos arredores de Modena, ele incorpora receitas familiares, ingredientes locais e referências da tradição gastronômica da Emília-Romanha. Não é apenas algo incluído na diária: é uma forma de materializar a relação daquele lugar com o território.
E essa diferença é mais estratégica do que parece. Campanhas, linguagens visuais, amenities e formatos de conteúdo são relativamente fáceis de reproduzir. Uma experiência construída a partir da operação é muito menos copiável. Quando existe uma receita daquela família, um produtor da região ou um modo específico de receber, o diferencial deixa de estar apenas no discurso e passa a fazer parte do próprio negócio.
É nesse ponto que marcas de turismo começam a ficar mais difíceis de substituir. Não necessariamente porque tenham o melhor logo ou o maior orçamento de mídia, mas porque conseguiram transformar posicionamento em rotina. E rotina é muito mais difícil de copiar do que estética. Quando a identidade está incorporada na forma de atender, servir e receber, ela deixa de depender exclusivamente da comunicação para existir.
O Airbnb oferece um exemplo interessante pelo caminho contrário. O café da manhã praticamente desapareceu da experiência padrão da plataforma, apesar de estar na própria origem do nome: AirBed and Breakfast. Hoje, na maior parte das hospedagens, o viajante recebe uma chave ou um código e se organiza sozinho. E talvez exista aí uma oportunidade pouco explorada, principalmente para quem compete em mercados onde as acomodações estão cada vez mais parecidas.
Quem já chegou à noite em uma casa alugada, especialmente em um destino menor ou mais afastado, sabe o valor que teria encontrar algo preparado para a manhã seguinte. Pão de uma padaria local, café produzido na região, frutas ou uma geleia de um pequeno produtor. Não precisa ser um buffet nem representar um grande custo. Mas pode transformar um ponto chave do modelo em que o hóspede precisa resolver tudo sozinho, em uma experiência de cuidado que será lembrada.
Durante muito tempo, branding foi tratado como uma camada aplicada sobre o negócio: primeiro existe a operação e depois alguém cria o nome, o logo, as fotos e a campanha para apresentá-la ao mercado. No turismo, essa separação funciona cada vez menos. A marca está na reserva, no atendimento, no quarto, no café, no checkout e em tudo aquilo que o viajante experimenta quando a comunicação já cumpriu seu papel.
A campanha pode fazer alguém reservar uma vez. O que essa pessoa vai contar depois depende do que encontrou quando chegou.