Etiqueta de procedência: transformação de valor ao longo de décadas (Getty Images)
Estrategista de Comunicação
Publicado em 28 de agosto de 2026 às 15h42.
Escrevo esta coluna do avião, sobrevoando o continente africano, a 39 mil pés de altitude.
Faltam pouco mais de quatro horas para chegar a Dubai, uma viagem de 15 horas e a conexão que me levará, pela primeira vez, à China — um país completamente transformado em relação a minha infância, 50 anos atrás, e a minha adolescência, nos anos 1980.
A China que povoou o imaginário da minha geração era distante, fechada e rural. Quarenta anos atrás, começamos a encontrá-la nas etiquetas dos brinquedos, nas roupas e nos objetos baratos. Mais tarde, em computadores, telefones e eletrodomésticos.
“Isso é chinês” servia para classificar algo que custava pouco, parecia cópia ou não duraria muito.
Agora, o “Made in China” também significa origem. E isso, no marketing, nunca foi detalhe: Alemanha lembra engenharia; França, moda; Itália, design; Japão, precisão. Sim, são associações imperfeitas, porém, poderosas, pois fazem um país começar a vender antes da marca.
A China percorreu o caminho contrário: tornou-se a fábrica do mundo sem receber o valor simbólico daquilo que produzia.
Para o Ocidente, ela montava o telefone, costurava o tênis, fabricava o eletrodoméstico e fornecia os componentes. Margem de lucro e prestígio ficavam com americanos, europeus e japoneses.
A China entregava o produto e os “gringos” recebiam o desejo.
Durante muito tempo, esse acordo funcionou. Só havia um detalhe: a China, que passou décadas fabricando, também passou décadas aprendendo.
Produzir em escala ensinou os chineses a dominar fornecedores, materiais, engenharia, logística, preço e velocidade. A fábrica asiática começou a participar das decisões.
Depois, aproximou-se do consumidor. No Brasil, marcas como BYD, Huawei, Xiaomi, DJI, TikTok, Pop Mart são uma realidade e têm modelos, públicos e reputações muito diferentes.
Juntas, porém, desmontam a crença de que uma empresa chinesa precisa escolher entre preço baixo e inovação.
No mercado doméstico, essa virada já aconteceu. Em 2024, marcas chinesas respondiam por 76% das vendas nas categorias de bens de consumo acompanhadas por Bain e Worldpanel. Em quase metade das 27 categorias analisadas, empresas locais ganharam participação das estrangeiras.
O consumidor chinês deixou de tratar a origem ocidental como certificado automático de superioridade. Tradição continua valendo sim, mas disputa espaço com conveniência, funcionalidade, velocidade e pertinência cultural.
Para quem trabalha com marcas, o recado é pouco confortável: reputações herdadas já perdem para experiências melhores.
Vou passar os próximos dez dias entre Pequim, Xangai, Hangzhou e Shenzhen, em uma imersão organizada pela Moovers, para conhecer empresas e ecossistemas nos quais conteúdo, comércio eletrônico, IA, robótica, varejo e cadeia de suprimentos funcionam simbioticamente.
Certamente, vou encontrar carros cheios de telas, lojas automatizadas e robôs dançando por lá. Mas eu não desembarco deslumbrado. A China enfrenta desaceleração econômica, pressão demográfica, competição predatória, controle político e tensões geopolíticas.
Muitas empresas ainda carregam dúvidas sobre transparência, segurança, cópia e confiança.
A 39 mil pés, ainda não sei quanto dessa nova China verei nas ruas e o quanto permanece restrito a apresentações, relatórios e vídeos cuidadosamente produzidos.
E é justamente isso que torna essa viagem tão fascinante.