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A Brahma entendeu o Brasil que a Nike esqueceu

Cervejaria contrapõe estética 'global' da Nike com referências ao boteco, à rua e ao futebol do cotidiano para reforçar vínculo emocional com a torcida brasileira

Carlo Ancelotti e Ronaldo Nazário participam da campanha “Tá Liberado Acreditar”, lançada pela Brahma para a Copa do Mundo de 2026 (Divulgação)

Carlo Ancelotti e Ronaldo Nazário participam da campanha “Tá Liberado Acreditar”, lançada pela Brahma para a Copa do Mundo de 2026 (Divulgação)

Publicado em 9 de maio de 2026 às 15h38.

A Brahma fez o contraponto perfeito ao filme da Nike.

Enquanto a Nike parece ter tentado atualizar a Seleção Brasileira a partir de uma estética global, dura e “fashion”, quase um olhar externo — e exagerado — sobre o que é o Brasil, a Brahma fez o caminho inverso: olhou para o Brasil que já existe. O Brasil do boteco, da rua, do ônibus, do churrasquinho, da camisa empoeirada que sai do armário a cada quatro anos, da bola improvisada e do futebol que aparece no meio da vida, e não apenas dentro do estádio.

A diferença fundamental é que a Brahma procurou representar aquilo que existe na nossa “cultura da Copa”. A camisa amarela, o hino, os ídolos, os narradores, os gols antigos e até as nossas decepções recentes formam um território simbólico muito mais envolvente do que qualquer ícone de marca porque lida com algo que já pertence às pessoas. Está aí o brilhantismo da Brahma.

E a propaganda funciona não só porque resgata símbolos culturais conhecidos, mas porque a Brahma tem legitimidade para contar essa história. A marca ocupa há décadas o território da torcida, do encontro, do bar, da celebração popular e da brasilidade cotidiana. Ela não precisa explicar por que está ali. Por isso, esse é um filme de “Brasil na Copa”, mas também pode ser um filme de Brahma”, em um território de celebração, bar da esquina e futebol que também lhe pertence.

O comercial pode ser considerado uma “signature story”, como chamaria David Aaker. Ele não é apenas uma peça publicitária bonita. Ele organiza uma narrativa que expressa aquilo que a marca quer representar: a possibilidade de transformar ceticismo em celebração. Ele faz a notícia pessimista virar bola. E a gente sabe o que brasileiro faz com bola: coloca ela em movimento. O jornal que registrava a desesperança passa a circular até deixar de ser notícia e virar esperança no imaginário das pessoas que jogam, assistem e sentem futebol.

O filme é uma bela costura de lances que estão no imaginário coletivo e que vão sendo resgatados para mostrar que talvez ainda seja possível acreditar. Mas a conexão mais forte vem da leitura afinada da brasilidade. O filme é brasileiro sem parecer fantasia de brasileiro. Tem centro de cidade histórica, boteco tradicional, camisa antiga, jogo de rua, transporte público, comércio, restaurante, praia, barbeiro, e até churrasquinho com grelha de bolinha (genial!). O futebol aparece misturado ao cotidiano, como de fato acontece no Brasil. Ele não está isolado em uma arena ou em uma estética “cool”. Ele está no meio da vida.

E a comparação com a Nike fica inevitável. A Nike tentou construir um Brasil que não existe, algo futurista, como um Mad Max tropical, usando ícones estranhos à nossa energia nacional. O samba, no filme da Brahma, funciona melhor porque atravessa mais gerações, mais regiões, mais memórias. Ele envolve sem caricaturar. Tem ritmo, tem malemolência, tem alegria, mas não parece uma tentativa forçada de parecer jovem. É Brasil reconhecível e compartilhado.

Nesse sentido, o filme também lembra o clássico comercial da Nike no aeroporto para a Copa de 98. E isso é um elogio. Aquele filme era brilhante porque transformava o futebol brasileiro em linguagem corporal, em improviso, em brincadeira, em habilidade moleque com a bola. A Nike de 98 parecia observar o Brasil com encantamento. A Brahma agora faz algo parecido, mas mostra mais do que o talento brasileiro com a bola. Mostra a nossa relação emocional com a Seleção.

Por fim, sugiro que a CBF dê um desconto para a Ambev no valor do patrocínio. Porque esse filme fez um favor para a marca da Seleção Brasileira. Enquanto a Nike conseguiu complicar ainda mais a relação simbólica da Seleção com o torcedor, a Brahma ajudou a reconectar esse vínculo. Sem politizar. Sem polemizar. Sem tentar ensinar o brasileiro a torcer. Apenas lembrando que, apesar de tudo, Copa do Mundo ainda mexe com toda a nossa gente.

Viva os nossos três Rs. Viva o samba. Viva a bola improvisada jogada na rua. Viva a Seleção e a Copa do Mundo. Viva esse sonho meio irracional, mas profundamente brasileiro, de acreditar de novo.

O Brasil não é favorito. O Hexa é improvável. O sofrimento com a derrota é quase garantido. Mas sabe de uma coisa? liberado acreditar (com moderação!).

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