Dólar: moeda se desvaloriza perante o real (Getty Images)
Repórter de finanças
Publicado em 28 de janeiro de 2026 às 13h47.
Última atualização em 28 de janeiro de 2026 às 17h41.
No meio da tempestade, fica difícil de prever alguns movimentos — e isso aconteceu no ano passado com o câmbio. Quando 2025 começou, falava-se em dólar a R$ 7, mas o ano se mostrou extremamente positivo para a cotação do real, com a moeda terminando o período com queda acumulada de 11,18%.
Em 2026, esse movimento segue, muito por conta do capital estrangeiro que entra no Brasil. Da abertura do dia 1º de janeiro de 2026 até o fechamento do dia 23 de janeiro, a moeda registrou uma desvalorização de mais de 5%, alcançando o patamar dos R$ 5,20. Nesse momento, entra a questão: é hora de ir às compras?
“Temos um mantra por aqui que diz que é sempre hora de ir às compras no dólar, seja ele em R$ 5, R$ 5,30, R$ 6 ou R$ 7. A ideia é olhar o dólar como proteção patrimonial da variação cambial. Então achamos que é hora de ir às compras e, obviamente, se você aproveita o momento de baixa para comprar é mais interessante”, diz João Arthur, diretor de investimentos da Suno Consultoria.
O especialista cita um estudo da Fundação de Getúlio Vargas (FGV) que estima o quanto o brasileiro tem que ter em dólar para se blindar do impacto na inflação: algo entre 15 e 20%, dependendo da classe social (por conta de maiores gastos em dólares).
Bruno Yamashita, analista de alocação e inteligência da Avenue, concorda. Investimento no exterior é muito relevante, porque ajuda a mitigar o risco de estar alocado em um país só. “Se acontece alguma coisa internamente em um país, se o investidor está alocado em outras geografias, talvez esse impacto seja muito menor”, comenta Yamashita.
Apesar do fluxo estrangeiro sustentar o dólar, Diego Costa, Head de Câmbio no norte e nordeste da B&T XP, explica que essa entrada é tática e altamente sensível ao tom da política monetária americana. "Parte relevante do dólar fraco já está no preço, enquanto os riscos para o segundo semestre seguem elevados."
Segundo ele, as projeções para o fim do ano já apontam dólar mais próximo de R$ 5,50, com o mercado ainda tendo pela frente eleições no Brasil e nos EUA, tensões geopolíticas e tarifárias, além da incerteza sobre como Fed e BC vão reagir à atividade e à inflação. "O conjunto tende a devolver volatilidade ao câmbio."
Por conta disso, olhando adiante, o risco é assimétrico, ou seja, há mais espaço para o dólar subir do que para continuar caindo de forma sustentada. "Mais do que tentar acertar o fundo, este parece um momento mais apropriado para compras graduais ou estruturação de hedge (proteção), especialmente para quem tem exposição futura à moeda", diz Costa.
Segundo Arthur, a forma de se expor ao dólar depende do perfil e do tamanho do investidor. Pessoas conservadoras podem optar por títulos da renda fixa do governo americano, sem correr riscos elevados, enquanto investidores mais arrojados podem investir diretamente em ações ou bonds de empresas.
O montante investido também influencia a estratégia: investidores menores costumam usar ETFs no Brasil, enquanto investidores maiores podem recorrer a estruturas offshore, mais eficientes em termos tributários e que ajudam a proteger o patrimônio.
Yamashita destaca que investir no mercado americano não significa se expor apenas aos Estados Unidos. “Uma conta americana que acessa o mercado dos EUA abre a porta para o investidor brasileiro acessar produtos e estratégias de todas as regiões do mundo”, explica.
Segundo ele, isso aumenta a diversificação geográfica da carteira e permite ao investidor aproveitar oportunidades e teses de investimento que surgem globalmente.
Há três fatores principais que afetam o dólar, mas que se correlacionam. O primeiro é a desvalorização da moeda devido aos movimentos de Donald Trump.
O presidente americano aplica e retira tarifas de modo constante, ameaça invadir outros países e vem confrontando aliados, o que aumenta a aversão a risco, fazendo o capital sair do país norte-americano e migrar para outros países.
“A intensidade e abrangência das tarifas anunciadas no dia 2 de abril, além da animosidade do governo Trump contra aliados históricos, elevou a incerteza geopolítica a patamares muito elevados. E isso ocorreu em um contexto no qual a economia americana era o grande destino de recursos internacionais, com a tese do excepcionalismo americano frente ao resto do mundo”, explica André Valério, economista sênior do Inter.
Nesse movimento, os emergentes têm se beneficiado muito dessa realocação de portfólio — e o Brasil entra nessa conta. Até 23 de janeiro, entraram na bolsa R$ 17,7 bilhões, um volume que já corresponde a 66% dos R$ 26,8 bilhões aportados ao longo de todo o ano de 2025, segundo a consultoria Elos Ayta.
O terceiro fator que colabora para a alta do real é a taxa Selic elevada, que atrai recursos para o país. Isso ocorre por meio do carry trade, estratégia em que investidores pegam dinheiro emprestado em países com juros baixos e aplicam em países com juros altos, ganhando com a diferença das taxas — consequentemente isso traz mais dólares ao Brasil e valoriza o real.
Para 2026, Valério comenta que a perspectiva é de um dólar que permaneça enfraquecido, com o índice DXY, que mede a força do dólar frente às principais moedas do mundo, abaixo de US$ 100 ao longo do ano. Isso contribuiria para a apreciação do real.
“Entretanto, no lado doméstico temos fatores que podem impedir uma apreciação mais intensa. A questão fiscal ainda é delicada e permanece como um entrave e o ano eleitoral deverá trazer muita volatilidade para o câmbio a partir do segundo semestre”, diz.
A projeção do Inter é de um câmbio ao redor de R$ 5,40 ao fim do ano, mas se não houver uma reversão nessa tendência atual, de reposicionamento dos portfólios internacionais para fora dos EUA, o Brasil pode ter um câmbio ao fim do ano mais próximo de R$ 5,20 do que de R$ 5,40.
A decisão do Banco Central hoje deve ter impacto limitado no dólar, pois o mercado já espera a manutenção da Selic. Segundo Yamashita, o que pode influenciar mais a moeda no futuro é o posicionamento do BC e o tom do relatório do Copom, especialmente em relação à possibilidade de início de um ciclo de cortes de juros, que pode gerar maior movimentação no câmbio do que a decisão isolada em si.
Para Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, se não houver uma surpresa de um comunicado mais duro do Copom hoje, a tendência é que o real siga forte no curto prazo.
E a própria entrada do dólar no país pode favorecer o corte de juros. “Um dólar mais barato diminui pressões inflacionárias, o que pode abrir espaço para cortes nas taxas de juros — então o próprio fortalecimento do real pode ajudar o BC brasileiro na tomada de decisões”, diz Zogbi.