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Tropas europeias chegam à Groenlândia em meio à ameaça de Trump

'Vamos mostrar aos Estados Unidos que a Otan está presente', disse embaixador da França para a região, em referência ao esforço do bloco europeu

Um Lockheed C-130J Super Hercules da Força Aérea Real Dinamarquesa (RDAF) estacionado na pista do aeroporto internacional de Nuuk, em 15 de janeiro de 2026, em Nuuk, Groenlândia (Alessandro Rampazzo/AFP)

Um Lockheed C-130J Super Hercules da Força Aérea Real Dinamarquesa (RDAF) estacionado na pista do aeroporto internacional de Nuuk, em 15 de janeiro de 2026, em Nuuk, Groenlândia (Alessandro Rampazzo/AFP)

Publicado em 15 de janeiro de 2026 às 14h35.

Países europeus começaram a enviar tropas militares para a Groenlândia nessa quinta-feira, 15, conforme a Dinamarca e seus aliados conduzem exercícios militares para assegurar o presidente americano da segurança da ilha, e por extensão, do Ártico.

O movimento de tropas faz parte de uma cooperação europeia, conforme o bloco joga seu suporte para a Dinamarca, ante ambição do presidente americano de tomar posse da ilha, que flerta com meios militares para atingir seu objetivo.

Trump justifica suas ambições como preocupações com a segurança do vital ponto estratégico do ártico, e argumenta que os EUA fariam melhor proteção da ilha. Mesmo em luz disso, apesar dos números exatos não serem públicos ainda, a implementação militar inicial parece ser pequena — embora conte com a participação de membros importantes da UE.

Europa se mobiliza

A sede do Comando Conjunto do Ártico, responsável pelas tarefas de defesa na Groenlândia e nas Ilhas Faroé e arredores.

A sede do Comando Conjunto do Ártico, responsável pelas tarefas de defesa na Groenlândia e nas Ilhas Faroé e arredores. (Alessandro Rampazzo/AFP)

As forças armadas alemãs, por sua parte, mandaram um time de reconhecimento com 13 soldados, incluindo um oficial britânico, marcando presença também do Reino Unido, um dos principais e mais poderosos aliados americanos, na questão da Groenlândia.

Olivier Poivre d’Arvor, o embaixador francês aos polos, disse que a França estava mandando 15 tropas montanheiras. A Suécia estaria enviando 3 oficiais, e a Noruega, 2.

O ministério do exterior holandês também disse que o país estaria disposto a enviar tropas, e que faria uma decisão até o fim da semana.

Por fim, um grande avião de transporte da força aérea dinamarquesa também pousou no aeroporto de Nuuk, capital da Groenlândia, do qual saíram soldados trajados em farda, que foram recebidos por dois ônibus.

Enquanto isso, o ministro do exterior dinamarquês Lars Lokke Rasmussen disse que os americanos teriam cerca de 200 tropas estacionadas na região.

Apesar dos baixos números, as tropas europeias são acima de tudo uma mensagem para a administração de Trump:

"Vamos mostrar aos Estados Unidos que a Otan está presente, que a Dinamarca aumentou drasticamente suas capacidades de vigilância na Groenlândia e que a União Europeia está contribuindo para garantir a segurança nacional de toda a região”, disse Poivre d’Arvor à rádio France Info, dando destaque à união dos aliados europeus nesse assunto.

A presença de importantes nomes entre os países que enviaram tropas não só demonstra a união da aliança europeia mas também sugere uma ênfase dos principais atores do bloco para a segurança da Groenlândia.

Por sua parte, o premiê da Groenlândia Jens-Frederik Nielsen foi às redes sociais defender sua soberania em um post no Facebook:

“A Groenlândia deseja uma cooperação pacífica e baseada no diálogo com os Estados Unidos e com os nossos parceiros internacionais. Mas o diálogo exige respeito pela nossa posição constitucional, pelo direito internacional e pelo nosso direito à nossa própria pátria”, escreve.

“A situação de segurança é grave e os interesses geopolíticos em nossa região são grandes. Entendo que isso gere inquietação. É precisamente por isso que é crucial que nos mantenhamos unidos em nossa comunidade e nas alianças que nos protegem”, elabora o premiê em referência à Otan, cuja própria existência pode estar em risco devido aos imbróglios diplomáticos ao redor da Groenlândia.

“Agora não é hora para discussões internas. Agora é hora de união, calma e responsabilidade. Estou acompanhando a situação de perto e estou com vocês no cuidado com a Groenlândia.”

“Não há nada que a Dinamarca possa fazer” para a proteção do ártico

Consulado americano em Nuuk, capital da Groenlândia.

Consulado americano em Nuuk, capital da Groenlândia. (Alessando Rampazzo/AFP)

A preocupação com o nível de segurança na Groenlândia, que por extensão afeta a segurança no círculo ártico, de importante peso estratégico, é ponto central na narrativa de Donald Trump para a aquisição americana da ilha.

Em uma reunião entre oficiais americanos, dinamarqueses e representantes da Groenlândia nessa quarta-feira, 14, o republicano reiterou que sua ambição de assumir o controle da ilha é centrada especificamente em manter a Rússia e a China longe – e ele acredita que a segurança não poder ser confiada à Dinamarca, que é dona constitucional da ilha.

"A Groenlândia é muito importante para a segurança nacional, inclusive da Dinamarca", disse Trump a repórteres no Salão Oval. "E o problema é que não há nada que a Dinamarca possa fazer se a Rússia ou a China quiserem ocupar a Groenlândia, mas nós podemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance. Vocês descobriram isso na semana passada com a Venezuela", afirmou, se referindo à intervenção militar que depôs o regime de Nicolás Maduro, e o extraditou para os EUA no começo desse mês.

Após a reunião, a premiê dinamarquesa Mette Frederiksen disse em um comunicado por escrito à Reuters que “a ambição americana de controlar a Groenlândia está intacta”, no que ela descreve como um “desacordo fundamental”.

Soluções diplomáticas para a tensão ao redor da ilha permanecem em aberto, e incertas.

Medos imaginários?

Mesmo assim, as informações mais atualizadas sobre a navegação russa e chinesa no ártico sugerem pouca atividade desses países perto da Groenlândia. Tanto embarcações russas quanto chinesas nessa latitude operam principalmente ao longo da costa russa, por meio da Rota Marítima do Norte, que passa pela Sibéria.

Um comunicado russo disse que essa retórica é artificial e um “mito”:

"A Otan embarcou em um processo de militarização acelerada do Norte, aumentando sua presença militar na região sob o pretexto fictício de uma crescente ameaça de Moscou e Pequim", afirmou a embaixada da Rússia na Bélgica, em um comunicado ao jornal Izvestia.

"Podemos ver que a aliança está usando declarações de alto nível de Washington sobre a questão da Groenlândia unicamente para promover uma agenda anti-Rússia e anti-China", disse a embaixada, que também listou declarações europeias recentes sobre a defesa da Groenlândia.

"Os instigadores desses planos belicosos apelam para desafios míticos que eles mesmos geram", continua o comunicado, observando que até mesmo diplomatas ocidentais com acesso aos relatórios de inteligência da OTAN citados na mídia confirmaram que nenhum submarino russo ou chinês havia sido avistado na região nos últimos anos.

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