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Sete em dez produtos vendem menos com inflação e inadimplência no Brasil

Levantamento da NielsenIQ mostra que a retração de consumo começou no ano passado

Inflação e inadimplência: 70% dos bens de consumo em massa foram impactados (Ilustração gerada pelo ChatGPT/Reprodução)

Inflação e inadimplência: 70% dos bens de consumo em massa foram impactados (Ilustração gerada pelo ChatGPT/Reprodução)

Rebecca Crepaldi
Rebecca Crepaldi

Repórter de finanças

Publicado em 24 de junho de 2026 às 05h00.

A inflação pode ter desacelerado em alguns indicadores, mas o consumidor brasileiro ainda sente seus efeitos no bolso. Pressionado por um custo de vida elevado, pelo endividamento e pela necessidade de fazer o orçamento fechar no fim do mês, o brasileiro está comprando menos, planejando mais e mudando a forma como consome.

Levantamento da NielsenIQ mostra que 70% das categorias de bens de consumo de massa registraram retração em volume no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. O movimento é uma continuidade da desaceleração observada desde meados de 2025 e reflete uma combinação de fatores estruturais, não apenas eventos pontuais ou mudanças recentes de comportamento.

"O consumo de bens de consumo em massa vai muito além do supermercado. É sobre fechar o orçamento do domicílio como um todo", afirma Gabriel, da NielsenIQ. Segundo ele, o consumidor tem regulado gastos em diferentes frentes para acomodar despesas cada vez maiores com itens essenciais.

Os números mostram a deterioração gradual do cenário. Em 2024, o volume total vendido cresceu 4,3% frente a 2023. Já em 2025 houve queda de 1,4%, enquanto a abertura de 2026 mostra retração ainda mais intensa, de 1,9% no primeiro trimestre. Paralelamente, a parcela de categorias que perderam volume saltou de 20% em 2024 para 50% em 2025 e chegou a 70% neste início de ano.

Não é uma nova inflação, mas um novo patamar de preços

Um dos principais fatores por trás da retração é o impacto acumulado da inflação dos últimos anos. No primeiro trimestre de 2026, houve uma queda acentuada nos prelos, entretanto os reajustes acumulados desde a pandemia continuam pesando sobre o orçamento das famílias.

Segundo a NielsenIQ, 2025 foi marcado por uma nova aceleração dos valores, consolidando um patamar mais elevado para produtos essenciais. O café está 248% mais caro do que em 2019. Óleo e azeite acumulam alta de 118%, enquanto o arroz avançou 78% no período.

Para Gabriel, a redução recente de preços em algumas categorias não é suficiente para restaurar o poder de compra perdido.

"A inflação subiu tantos degraus nos últimos anos que reduções de curto prazo não necessariamente levam ao aumento de volume. O consumidor já adequou o comportamento de compra dele para fazer a conta fechar."

Segundo ele, mesmo quando arroz ou feijão ficam mais baratos em 2026 em comparação ao ano anterior, continuam significativamente mais caros do que antes da pandemia.

Endividamento segue comprimindo a renda

A pressão não vem apenas dos preços. O estudo aponta que o endividamento, que atinge 80% da população, continua sendo um dos principais fatores por trás da cautela dos consumidores.

Dados compilados pela NielsenIQ mostram que a popularização do Pix e dos meios eletrônicos de pagamento ocorreu paralelamente ao aumento do endividamento das famílias. A correlação entre o avanço das transações por Pix e cartões e a evolução do endividamento alcança 0,95. Ao mesmo tempo, o Brasil encerrou 2025 com 253,8 milhões de cartões de crédito ativos — mais de um cartão por pessoa.

Gabriel ressalta que o problema não está na tecnologia em si, mas na facilidade de acesso ao crédito em um ambiente de renda pressionada."O cartão de crédito muitas vezes é visto como parte da renda mensal", diz. Enquanto isso, o Pix e a digitalização reduzem a fricção psicológica do gasto. "Isso pode representar um risco em um contexto de alto endividamento."

Na prática, o crédito acaba funcionando como uma extensão da renda para muitas famílias, ajudando a cobrir despesas básicas, mas ampliando os desafios financeiros nos meses seguintes.

A disputa agora é pelo bolso do consumidor

A pesquisa mostra que a renda disponível para gastos discricionários está cada vez menor. Em média, os brasileiros destinam 71% da renda mensal para gastos básicos, como contas domésticas, alimentação, produtos de consumo, prestações e dívidas. Nas famílias de menor renda, essa fatia sobe para 75%.

A renda média domiciliar considerada pela NielsenIQ é de R$ 3.613. Desse total, cerca de R$ 2,5 mil já são consumidos por despesas essenciais. Segundo Gabriel, sobra pouco espaço para despesas consideradas secundárias.

"No fim do dia, não sobra. É sempre um cobertor muito curto. Qualquer fôlego financeiro acaba sendo consumido por alguma necessidade do domicílio."

Por isso, a competição pelo orçamento das famílias deixou de acontecer apenas dentro das categorias de consumo. "A disputa agora é pelo share do bolso do consumidor, e não apenas pelo share de mercado", resume o estudo.

Menos bares, restaurantes e lazer

Quando precisa cortar gastos, o consumidor costuma começar pelas despesas consideradas mais flexíveis. E os dados mostram que alimentação fora de casa e lazer estão entre as primeiras vítimas desse ajuste.

Entre os lares endividados, 36% afirmam ter reduzido gastos com alimentação fora do lar nos últimos meses. O Nordeste responde por um quarto dessa redução, enquanto famílias com renda entre R$ 3.500 e R$ 7.800 lideram os cortes.

O movimento também aparece nos indicadores do setor de food service, que vêm registrando desempenho mais fraco diante da retração do consumo. Além disso, 34% dos lares endividados dizem ter reduzido gastos com lazer fora de casa.

Segundo Gabriel, esse comportamento é recorrente em períodos de maior pressão econômica. "Sempre que o consumidor fica mais cauteloso, ele busca controlar primeiro o consumo fora do lar e os gastos com lazer. É uma forma de tentar equilibrar o orçamento sem mexer em despesas consideradas essenciais."

Planejamento vira regra

A resposta das famílias ao cenário de aperto não tem sido apenas cortar gastos, mas também comprar de forma mais estratégica. Hoje, 80% dos consumidores afirmam planejar suas compras antecipadamente, enquanto 30% realizam compras semanais — percentual superior aos 27% registrados no ano anterior.

Ao mesmo tempo, 48% das categorias perderam penetração nos lares brasileiros e 60% registraram queda na frequência de compra em 2025. Para Gabriel, o consumidor brasileiro desenvolveu uma capacidade de adaptação que combina pesquisa de preços, escolha de canais, busca por promoções e reorganização constante do carrinho.

"Ele usa absolutamente todas as ferramentas que tem disponível. Pesquisa preço, planeja a compra, mistura canais, alterna embalagens e faz concessões para conseguir encaixar algum tipo de indulgência sem comprometer o orçamento."

E-commerce ganha espaço na reorganização do consumo

Outra mudança estrutural identificada pela NielsenIQ é o fortalecimento do comércio eletrônico na jornada de compra.

Atualmente, 88% dos consumidores já compram bens de consumo rápido pela internet e 64% afirmam deixar de comprar em lojas físicas para realizar compras online. O canal digital adicionou 3,1 milhões de lares e figura entre os que mais ganharam penetração em 2026.

Para a consultoria, o e-commerce deixou de ser complementar e passou a integrar a estratégia de economia dos consumidores.

Queda de volume reflete uma recalibração do consumo

Na avaliação da NielsenIQ, a retração observada no varejo não pode ser explicada por um único fator. Ela é resultado da combinação entre inflação acumulada, endividamento, custo de vida elevado, mudanças de hábito e novas prioridades de consumo.

"O que vemos não é um fator novo, mas a consolidação de fatores que já vinham pressionando o consumidor", afirma Gabriel.

A conclusão do estudo é que o brasileiro está passando por uma profunda recalibração de consumo. A economia deixou de ser uma reação temporária e se transformou em uma estratégia permanente. O desafio para empresas e varejistas, agora, é conquistar espaço dentro de um orçamento cada vez mais apertado.

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