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Dívidas impactam saúde de 86% dos inadimplentes, revela estudo

Alteração de sono, crises de ansiedade e estresse são manifestações mais comuns entre devedores

O pesadelo do inadimplente: medo de não conseguir pagar e receio do julgamento social (Marcos Calvo/Thinkstock)

O pesadelo do inadimplente: medo de não conseguir pagar e receio do julgamento social (Marcos Calvo/Thinkstock)

Rebecca Crepaldi
Rebecca Crepaldi

Repórter de finanças

Publicado em 23 de junho de 2026 às 06h17.

Última atualização em 23 de junho de 2026 às 06h22.

A inadimplência no Brasil deixou de ser apenas uma questão financeira para se transformar em um problema de saúde pública e produtividade. Uma pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, realizada em parceria com a Offerwise Pesquisas, mostra que 86% dos consumidores com contas em atraso há mais de três meses relatam consequências físicas associadas ao estresse provocado pelas dívidas.

O levantamento revela que os efeitos ultrapassam o orçamento doméstico e também atingem diretamente a saúde mental, o desempenho profissional e os relacionamentos pessoais. Entre os entrevistados, 95% afirmam ter sofrido impactos emocionais negativos em decorrência da inadimplência, enquanto 61% dizem que as dívidas já prejudicaram sua performance no trabalho.

O impacto das dívidas na saúde

As alterações no sono aparecem como a principal consequência física da inadimplência, afetando 64% dos entrevistados. Mudanças no apetite foram relatadas por 52%, enquanto 41% afirmam recorrer a mecanismos de compensação para lidar com a ansiedade, como cigarro, comida ou bebidas alcoólicas.

No campo emocional, a preocupação constante lidera os relatos, citada por 78% dos inadimplentes. Em seguida aparecem ansiedade (73%), angústia (65%), estresse ou irritação (65%) e culpa (64%).

Os dados mostram que o endividamento prolongado gera um estado permanente de alerta, que acaba se refletindo em diferentes aspectos da vida cotidiana.

Produtividade comprometida no ambiente de trabalho

O efeito das dívidas também chega às empresas. Entre os trabalhadores inadimplentes, 61% afirmam que a situação financeira já afetou seu desempenho profissional.

Segundo o levantamento, 47% relatam desatenção ou queda na produtividade durante a jornada de trabalho, enquanto 42% dizem produzir menos. Outros 38% afirmam perder a paciência com colegas de equipe em função da pressão causada pelas pendências financeiras.

Isolamento social cresce entre negativados

Além do impacto econômico, a inadimplência tem provocado mudanças significativas no convívio social dos brasileiros. O estudo aponta que 59% dos entrevistados sofreram prejuízos em suas relações pessoais e familiares.

A irritação e a intolerância com pessoas próximas atingem 48% dos inadimplentes. Já 58% afirmam ter perdido o interesse em sair de casa ou participar de atividades sociais.

O isolamento se torna ainda mais evidente quando o assunto são eventos sociais. Segundo o estudo, 76% dos entrevistados já deixaram de comparecer a aniversários, casamentos ou confraternizações por não terem condições de arcar com gastos relacionados a transporte, roupas ou presentes.

Para o presidente da CNDL, José César da Costa, os dados evidenciam que o endividamento produz um custo social que vai além das restrições financeiras.

“A pesquisa mostra um forte custo social: as pessoas estão se isolando e rompendo vínculos familiares por vergonha ou falta de condições mínimas de convivência. Embora haja uma parcela que tenta criar manobras para conviver com a dívida, usando o nome de terceiros para continuar consumindo, a perda da dignidade e a sensação de exclusão social ainda sufocam quase metade dos brasileiros que estão nessa situação”, afirma.

O "choque de realidade" após entrar na inadimplência

A entrada na inadimplência também provoca mudanças no comportamento de consumo. De acordo com a pesquisa, 37% dos entrevistados passaram a evitar sair com pessoas que costumam incentivar gastos, numa tentativa de proteger o orçamento.

Os cortes de despesas se concentram principalmente em vestuário, citado por 34% dos entrevistados, e em itens considerados não essenciais na alimentação, como bebidas e produtos congelados, mencionados por 29%.

Quase a totalidade dos inadimplentes (92%) afirma ter mudado a forma de administrar o dinheiro após o atraso das contas. Entre as principais medidas adotadas estão o controle mais rigoroso dos gastos domésticos (32%), refletir antes de comprar (30%) e pesquisar preços com mais frequência (29%).

Também aparecem entre as estratégias evitar o uso do cartão de crédito (25%) e suspender compras parceladas (20%).

Medo de não conseguir pagar e receio do julgamento social

As preocupações dos inadimplentes vão além da capacidade de quitar as dívidas. Segundo a pesquisa, 97% manifestam algum tipo de temor relacionado à situação financeira.

O principal receio é não conseguir pagar os débitos, citado por 26% dos entrevistados. Em seguida aparece o medo de ser visto como desonesto por amigos, familiares ou colegas, mencionado por 18%.

Também pesam preocupações ligadas ao futuro financeiro. Cerca de 10% temem perder acesso a novos empréstimos, enquanto outros 10% receiam ser considerados incompetentes na gestão das próprias finanças.

Mesmo negativados, 80% buscaram crédito no último ano

Apesar das restrições, a dependência de crédito permanece elevada entre os consumidores inadimplentes. O levantamento mostra que 80% tentaram obter algum tipo de crédito nos últimos 12 meses, seja por meio de empréstimos, financiamentos, crediário, cheque especial ou cartão de crédito.

A principal motivação é quitar outras dívidas: 54% afirmam ter buscado crédito para essa finalidade. Outros 33% procuraram recursos para realizar novas compras.

Um dado que chama atenção é que 12% dos entrevistados disseram ter buscado crédito para realizar apostas online.

Entre as consequências mais sentidas da inadimplência estão a negativação do nome (53%), o pagamento de juros elevados (35%) e a dificuldade de acessar crédito em bancos e lojas (34%).

O estudo também mostra duas reações distintas entre os consumidores. Enquanto 46% afirmam sentir perda de dignidade e exclusão social, outros 46% dizem ter encontrado formas de conviver com o "nome sujo". Entre eles, 29% utilizam o nome de amigos ou parentes para continuar consumindo, 17% acreditam que o mercado está mais flexível com os devedores e 7% mantêm sua rotina por meio de redes informais de crédito.

Metodologia

A pesquisa ouviu 609 consumidores com contas em atraso há mais de três meses, residentes nas capitais brasileiras, com 18 anos ou mais e pertencentes a todas as classes econômicas.

A coleta foi realizada pela internet entre os dias 6 e 17 de março de 2026. A margem de erro é de 4 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.

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