Trump vs. Powell: presidente do Fed evita comentar divergência com governo (Saul Loeb/AFP)
Redação Exame
Publicado em 28 de janeiro de 2026 às 17h34.
A entrevista coletiva do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, nesta quarta-feira, fugiu do roteiro tradicional. Minutos depois de o banco central manter os juros dos Estados Unidos inalterados, Powell foi submetido a uma bateria de perguntas que extrapolavam a política monetária: desde uma investigação do Departamento de Justiça sobre suspeitas de superfaturamento em obras de prédios do Fed até as pressões públicas do presidente Donald Trump por cortes na taxa básica.
O chairman se recusou a comentar qualquer tema que não estivesse ligado à economia americana, mas respondeu uma jornalista sobre a importância da autonomia dos bancos centrais — “benéfica para a população”, disse Powell — complementando que a política monetária não pode ser instrumentalizada em ciclos eleitorais.
Também houve provocações sobre sucessão. Powell deixará o cargo de chairman em maio e foi questionado se permanecerá no conselho do Fed. “Não tenho nada a declarar”, respondeu, evitando especular sobre a transição ou oferecer conselhos diretos ao sucessor além de um recado claro: ficar fora da política eleitoral e manter contato regular com o Congresso, órgão de fiscalização do banco central.
Além dos temas atípicos, Powell falou dos assuntos de sempre. Sobre inflação, afirmou que, embora os preços de bens tenham subido por causa das tarifas, a desinflação em serviços “parece continuar”.
O impacto das tarifas, acrescentou, tende a ser pontual e deve diminuir por volta do meio do ano. As expectativas de inflação — tanto as medidas por pesquisas quanto as de mercado — recuaram de forma significativa após o pico observado depois das chamadas tarifas do “Dia da Libertação”, permanecendo bem ancoradas, condição considerada essencial para a estabilidade de preços no longo prazo.
Sobre atividade, Powell reconheceu que o shutdown do governo provavelmente afetou o crescimento no último trimestre, mas avaliou que os efeitos podem ser revertidos com a reabertura. A perspectiva econômica, disse, “claramente melhorou” desde dezembro, reforçando a avaliação de que a economia americana voltou a surpreender pela força e deve entrar em 2026 “em bases sólidas”.
No mercado de trabalho, o tom foi mais cauteloso. A demanda por mão de obra “claramente diminuiu”, em linha com a desaceleração da oferta de trabalhadores, num ambiente que ele descreveu como difícil de analisar devido ao congelamento essencial da imigração.
Ainda assim, o comitê vê alguma estabilização nos dados recentes — “mas eu não iria muito longe com essa afirmação”, ponderou.
Powell destacou que há uma ampla gama de possíveis impactos da inteligência artificial sobre o emprego: a tecnologia pode gerar disrupções no curto prazo, mas, historicamente, tende a elevar a produtividade, base para ganhos salariais ao longo do tempo. Ele observou que grandes empresas já citam a IA para justificar contratações mais contidas ou até cortes de vagas.
Quanto à política monetária, Powell reiterou que as taxas atuais são adequadas para avançar nos dois objetivos do Fed — inflação e emprego — e que os juros estão dentro de uma faixa plausível de neutralidade, na extremidade superior das estimativas.
Houve amplo apoio no comitê para manter as taxas, inclusive entre membros que não votaram. “Não seguimos um roteiro predefinido”, afirmou, reforçando que as decisões serão tomadas reunião a reunião, guiadas pelos dados.
O Fed, concluiu, está bem posicionado para esperar por novas informações antes do próximo movimento, num cenário em que os riscos de inflação e desemprego ainda existem — e não está claro se estão totalmente equilibrados.