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Powell pode deixar o Fed mais cedo? Saiba quando termina o mandato do 'chair'

Investigação criminal e pressão política reacendem debate sobre a independência e sucessão do banco central americano

O Departamento de Justiça abriu uma investigação criminal envolvendo a autoridade monetária, ampliando as tensões entre a Casa Branca e o Fed (Drew Angerer/Getty Images)

O Departamento de Justiça abriu uma investigação criminal envolvendo a autoridade monetária, ampliando as tensões entre a Casa Branca e o Fed (Drew Angerer/Getty Images)

Da Redação
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 12 de janeiro de 2026 às 11h43.

Última atualização em 12 de janeiro de 2026 às 12h06.

A pressão do governo de Donald Trump sobre o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) ganhou um novo capítulo nesta segunda-feira, 12, e reacendeu o debate sobre a permanência de Jerome Powell na presidência da instituição.

O Departamento de Justiça abriu uma investigação criminal envolvendo a autoridade monetária, ampliando as tensões entre a Casa Branca e o Fed justamente no momento em que se aproxima o fim do mandato de Powell como chair da instituição.

A apuração, revelada inicialmente pelo Wall Street Journal, envolve intimações relacionadas ao depoimento prestado por Powell ao Comitê Bancário do Senado no ano passado, quando ele foi questionado sobre um projeto de reforma de prédios do Fed estimado em US$ 2,5 bilhões.

Segundo o jornal, a investigação começou em novembro e está sob responsabilidade do escritório da procuradora federal de Washington, Jeanine Pirro, aliada próxima de Trump. O foco inclui tanto o conteúdo do depoimento quanto registros de gastos da instituição.

Um porta-voz do Departamento de Justiça afirmou à Reuters apenas que a procuradoria-geral orientou promotores a priorizarem investigações sobre possíveis abusos de recursos públicos. Powell, no entanto, reagiu com dureza.

Em um pronunciamento em vídeo divulgado no domingo à noite, classificou a iniciativa como "sem precedentes" e afirmou que a investigação é um pretexto para pressionar o Fed a reduzir os juros e enfraquecer sua independência.

"Tenho profundo respeito pelo Estado de Direito e pela prestação de contas em nossa democracia. Ninguém — certamente nem o presidente do Federal Reserve — está acima da lei. Mas essa ação sem precedentes deve ser vista no contexto mais amplo das ameaças e da pressão contínua da administração", disse Powell.

Segundo ele, a ameaça de acusações criminais "não tem a ver" com o depoimento nem com a reforma dos prédios, mas sim com o fato de o Fed definir os juros com base em critérios técnicos, e não nas preferências do presidente.

Quando termina o mandato de Powell

Do ponto de vista formal, Jerome Powell segue com data marcada para deixar a presidência do Fed. Seu mandato como chair termina em maio de 2026, após oito anos no cargo.

Indicado originalmente por Trump em 2018 e reconduzido pelo ex-presidente Joe Biden em 2022, Powell teve apoio bipartidário nas duas votações de confirmação no Senado, com placares amplos — 84 a 13 na primeira indicação e 80 a 19 na recondução.

Além da presidência, Powell ocupa uma cadeira no Conselho de Diretores do Fed. Esse mandato como diretor vai até janeiro de 2028, mas ele ainda não deixou claro se pretende permanecer no colegiado após o fim de seu período como chair.

Apesar do calendário oficial, a escalada política levanta dúvidas sobre se Powell conseguirá cumprir integralmente seu mandato à frente da instituição e se a investigação do Departamento de Justiça pode prejudicar seu processo de substituição.

O senador Thom Tillis, da Carolina do Norte, republicano e membro da Comissão Bancária do Senado, afirmou que se oporia à nomeação do substituto de Powell por Trump, bem como à de qualquer outro indicado para o Conselho do Fed, "até que essa questão legal seja totalmente resolvida".

"Se ainda havia alguma dúvida de que assessores dentro do governo Trump estão ativamente pressionando para acabar com a independência do Federal Reserve, agora não deve haver nenhuma", disse Tillis em um comunicado, segundo informações da BBC News.

"Agora, a independência e a credibilidade do Departamento de Justiça estão em questão", disse o senador, que deve se aposentar este ano.

Juros, política e a disputa pela independência do Fed

Trump ameaçou repetidamente demitir o presidente do Fed ao longo de 2025, chamando-o de "idiota" e acusando-o de agir "atrasado" por não cortar os juros com mais rapidez, enquanto outros bancos centrais de economias desenvolvidas já avançavam no afrouxamento monetário.

O embate ocorre em um contexto de divergências internas no próprio Federal Reserve. O banco central iniciou o atual ciclo de cortes em setembro, com três reduções consecutivas, levando a taxa básica para a faixa de 3,50% a 3,75%. Ainda assim, a mediana das projeções dos dirigentes indica apenas mais um corte de 0,25 ponto percentual em 2026.

As decisões recentes já evidenciaram fissuras dentro do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc). No último corte, em dezembro, o diretor Stephen Miran votou por uma redução maior, de 0,5 ponto, enquanto Austan Goolsbee e Jeffrey Schmid defenderam a manutenção dos juros.

A ata da reunião mostra que os dirigentes tentam equilibrar dois riscos simultâneos: inflação ainda elevada e a possibilidade de piora no mercado de trabalho.

A paralisação parcial do governo federal no fim de 2025, que deixou o Fed sem dados oficiais por semanas, também contribuiu para uma postura mais cautelosa. A normalização das informações começa agora em janeiro, com a divulgação dos dados de emprego e inflação e a retomada do calendário regular de indicadores.

A próxima reunião do Fomc está marcada para os dias 27 e 28 de janeiro.

Sucessão sob risco

Trump deve anunciar ainda em janeiro o nome indicado para presidir o Fed a partir de maio. Entre os favoritos estão Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional, e Kevin Warsh, ex-diretor do Fed, ambos aparecem empatados com 41% no site de apostas Polymarket.

Do lado democrata, a senadora Elizabeth Warren afirmou acreditar que o objetivo do governo é afastar Powell definitivamente e "instalar outro fantoche" no comando do banco central. Para ela, o Senado não deveria avançar com nenhuma nomeação ao Fed enquanto durar o impasse.

O clima indica que o próximo presidente do Fed pode enfrentar uma votação muito mais apertada do que Powell enfrentou no passado. O exemplo mais recente é a confirmação de Stephen Miran para a diretoria do banco central, aprovada por margem mínima de 48 a 47, com quatro republicanos ausentes.

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