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Payroll surpreende para baixo e muda apostas sobre os juros nos EUA

Relatório mostrou perda de 23 mil vagas em julho e revisões negativas de 103 mil empregos, reforçando a desaceleração do mercado de trabalho americano

Payroll fraco: a criação de empregos caiu de 129 mil para 63 mil vagas, enquanto junho foi revisto de 57 mil para apenas 20 mil (Samuel Corum/Bloomberg)

Payroll fraco: a criação de empregos caiu de 129 mil para 63 mil vagas, enquanto junho foi revisto de 57 mil para apenas 20 mil (Samuel Corum/Bloomberg)

Publicado em 7 de agosto de 2026 às 12h26.

O mercado de trabalho dos Estados Unidos deu um sinal mais forte de desaceleração em julho e reforçou entre especialistas a avaliação de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) terá ainda mais dificuldade para justificar uma nova alta de juros nos próximos meses. O relatório de emprego, o "payroll", divulgado nesta sexta-feira, 7, mostrou destruição de 23 mil postos de trabalho fora do setor agrícola, frustrando com folga as expectativas do mercado, que apontavam para a criação de cerca de 83 mil vagas.

Além do resultado negativo, o governo americano revisou para baixo os números dos dois meses anteriores. Em maio, a criação de empregos caiu de 129 mil para 63 mil vagas, enquanto junho foi revisto de 57 mil para apenas 20 mil. Somadas, as revisões retiraram 103 mil postos de trabalho das estatísticas, reforçando a percepção de perda de fôlego do mercado de trabalho.

Embora a taxa de desemprego tenha recuado de 4,2% para 4,1%, o movimento foi acompanhado por uma nova queda da taxa de participação da força de trabalho, de 61,5% para 61,4%, indicando que menos pessoas buscaram emprego.

Ao mesmo tempo, o salário médio por hora avançou apenas 0,05% na comparação mensal, bem abaixo da expectativa de alta de 0,3%, enquanto o crescimento anual desacelerou para 3,15%.

Payroll "fraco" reduz pressão de alta dos juros nos EUA

Para os analistas, o conjunto de dados reduz a pressão para que o Fed endureça ainda mais a política monetária, embora ainda não seja suficiente para mudar completamente a estratégia da autoridade monetária, que continua tendo a inflação como principal preocupação.

"O conjunto de dados aponta para uma perda de tração mais nítida do mercado de trabalho, com o payroll entrando em território negativo, somado às revisões consistentemente para baixo dos meses anteriores", afirma Vitor Kayo, economista sênior da Nomad.

Segundo o especialista, o enfraquecimento do emprego "é consistente com a precificação atual do mercado, que já não espera mais alta de juros em setembro, e sim manutenção, com um aumento de 0,25 ponto percentual em outubro, o único movimento esperado para o restante de 2026".

Ainda assim, ressalta que "com a inflação bem acima da meta, o lado inflacionário do mandato dual deve continuar prevalecendo na condução da política monetária".

Na avaliação de Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercado da StoneX, os indicadores mostram que o mercado de trabalho americano está "bem menos aquecido do que se imaginava". Para Mattos, esse cenário "diminui as apostas de que o Federal Reserve eleve os juros no curto prazo", uma vez que novas altas poderiam agravar o enfraquecimento da atividade econômica e do emprego.

A leitura também se refletiu imediatamente nos mercados financeiros. Com a perspectiva de juros menos restritivos, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano recuaram, reduzindo a atratividade dos ativos dos Estados Unidos. Como consequência, o índice do dólar (DXY) perdeu força, movimento que favoreceu moedas de países emergentes, como o real.

"O dado afasta, neste momento, cenários mais agressivos de alta de juros", afirma William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue. Segundo Alves, a economia americana continua saudável, mas "mostra sinais de desaceleração em um ritmo maior do que o esperado anteriormente", abrindo espaço para uma trajetória de juros menos pressionada.

Mas Fed não tem motivos suficientes para alterar estratégia

Apesar da forte surpresa negativa no payroll, parte dos economistas avalia que o Fed ainda não tem motivos suficientes para alterar sua estratégia imediatamente.

Para André Valério, economista sênior do Inter, a queda da taxa de desemprego não contradiz o resultado fraco do payroll porque houve redução da oferta de trabalhadores. Segundo o econonista, a taxa de participação caiu pelo segundo mês consecutivo, influenciada pela política migratória do governo Donald Trump, que reduziu a disponibilidade de mão de obra.

"Mesmo com uma aparente demanda por trabalho enfraquecida, não vemos um cenário de demissões em massa, mantendo o mercado de trabalho em um equilíbrio conveniente para o Fed", afirma.

Valério destaca ainda que os salários seguem perdendo força, sem representar uma ameaça relevante para a inflação. Ainda assim, avalia que a decisão sobre os juros dependerá principalmente do comportamento dos preços.

"Assim, o foco da política monetária americana se torna a inflação", diz. Segundo o economista do Inter, a divulgação do índice de preços ao consumidor (CPI), prevista para a próxima quarta-feira, será o principal evento para calibrar as expectativas sobre os próximos passos do Fed. Mesmo assim, ele mantém a expectativa de que o banco central americano preserve os juros no nível atual até o fim de 2026.

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