Invest

Mercado Pago quer virar banco na Argentina e México. O Brasil pode esperar

Com foco em crescimento e segurança, fintech reforça investimentos no Brasil enquanto avalia custo-benefício da licença bancária

Mercado Livre: "É uma avaliação que fazemos constantemente. Nós, recentemente, aplicamos para a licença de banco do México e da Argentina. A ideia é primeiro terminar esse projeto e depois voltar a avaliar se no Brasil vai fazer sentido ou não. Não é o momento agora" (Divulgação)

Mercado Livre: "É uma avaliação que fazemos constantemente. Nós, recentemente, aplicamos para a licença de banco do México e da Argentina. A ideia é primeiro terminar esse projeto e depois voltar a avaliar se no Brasil vai fazer sentido ou não. Não é o momento agora" (Divulgação)

Publicado em 5 de fevereiro de 2026 às 14h05.

Mesmo diante do movimento de concorrentes e de mudanças recentes no marco regulatório, o Mercado Pago avalia que ainda não chegou a hora de buscar uma licença bancária no Brasil. A afirmação foi feita nesta quinta-feira, 5, por André Chaves, vice-presidente sênior do Mercado Pago no país, durante um encontro exclusivo com jornalistas, no qual o braço financeiro do Mercado Livre anunciou novos produtos voltados à segurança dos usuários.

Segundo o executivo, a decisão está ligada principalmente ao fato de a fintech já estar envolvida em processos semelhantes em outros mercados da América Latina.

"É uma avaliação que fazemos constantemente. Nós, recentemente, aplicamos para a licença de banco do México e da Argentina. A ideia é primeiro terminar esse projeto e depois voltar a avaliar se no Brasil vai fazer sentido ou não. Não é o momento agora", afirmou Chaves.

O tema ganhou relevância após o Banco Central publicar, em novembro, uma resolução que proíbe instituições reguladas de utilizarem termos que sugiram atividades para as quais não tenham autorização.

Pela nova regra, empresas sem licença bancária não podem usar "banco" ou "bank", em qualquer outro idioma, em nomes empresariais, marcas, domínios na internet ou outras formas de apresentação ao público. A medida atingiu especialmente fintechs e empresas de tecnologia que oferecem serviços financeiros, mas não operam como bancos.

Foi nesse contexto que o Nubank anunciou, no início de dezembro, a intenção de obter uma licença bancária no Brasil para manter o termo "bank" em sua marca. O Mercado Pago, por sua vez, opera no país desde 2020 com autorização do Banco Central como instituição financeira e de pagamento, sem licença bancária plena.

De acordo com Chaves, além da complexidade regulatória, o processo envolve desafios tecnológicos e estratégicos que exigem uma análise cuidadosa de custo-benefício.

"Esse não é um processo simples, tanto do lado regulatório quanto do lado tecnológico. A gente tem que sempre avaliar o custo-benefício desse tipo de ação, e isso compete com outras prioridades, como lançamento de produto e foco de gestão", disse o VP sênior do Mercado Pago.

À EXAME, ele reforçou que não há um horizonte definido para essa decisão no Brasil.

Na Argentina, o Mercado Livre anunciou em maio do ano passado o pedido de licença bancária ao Banco Central local, como parte de uma estratégia regional para ampliar a oferta de serviços financeiros digitais.

No México, o processo foi divulgado ainda em 2024, um ano após o Nubank informar que sua subsidiária mexicana também havia solicitado autorização para operar como banco.

Foco na experiência e no marketing

Enquanto mantém a cautela regulatória no Brasil, o Mercado Pago acelera sua estratégia de crescimento e de busca por "principalidade" junto aos clientes.

A longo prazo, o objetivo principal do serviço financeiro do Mercado Livre segue se tornar o banco número 1 da América Latina, com as operações no Brasil, México e Argentina – onde já lidera o avanço dos bancos digitais.

Segundo Chaves, a fintech já lidera o avanço no segmento de cartões. "Hoje a gente é o cartão que mais cresce no Brasil, em volume de gasto. Isso tem muito a ver com o investimento pesado em experiência do cliente", afirmou.

Dados do Bank of America mostram que, em frequência de uso, o Mercado Pago ainda fica atrás de Nubank, Banco Inter, Itaú e PicPay, nessa ordem, mas o BofA também aponta espaço relevante para crescimento à medida que os consumidores passam a compreender melhor a proposta de valor da plataforma.

O avanço também se reflete nos números financeiros. A carteira de crédito do Mercado Pago cresceu 83% em um ano, atingindo US$ 11 bilhões no terceiro trimestre de 2025. No mesmo período, o grupo Mercado Livre registrou receita líquida de US$ 7,4 bilhões, com 43,7% desse total vindo da fintech.

A base de usuários ativos chegou a 72 milhões na América Latina, alta de 29% em relação ao ano anterior, com o Brasil como principal mercado.

De olho nesse ritmo, a empresa intensificou os investimentos em marketing. Segundo Petra Ferraz, vice-presidente de marketing do Mercado Pago para a América Latina, o orçamento de patrocínios e marketing vai crescer 118%.

A empresa vem intensificando suas campanhas com nomes como Anitta e Marcos Mion e presença em programas como o Big Brother Brasil.

A estratégia, segundo a executiva, busca reforçar a mensagem de confiança e ampliar o relacionamento com os usuários — independentemente, por ora, da obtenção de uma licença bancária no país.

Novos produtos de segurança

O banco digital também anunciou um reforço em seus investimentos em segurança. Para embasar essa estratégia, a companhia realizou uma pesquisa entre os dias 20 e 23 de janeiro, com 12 mil respondentes, todos usuários do Mercado Pago em diferentes regiões do Brasil, com o objetivo de entender a percepção de segurança e os principais pontos de vulnerabilidade no uso do aplicativo.

A partir desses dados, a empresa ampliou o uso de modelos de inteligência artificial e machine learning para identificar comportamentos suspeitos, bloquear contas fraudulentas, emitir avisos preventivos de golpes e operar sistemas anti-deepfake, além de oferecer seguro de conta como proteção adicional contra fraudes.

Como desdobramento desse mapeamento, o Mercado Pago anunciou o lançamento do “modo blindado”, um novo produto que adiciona uma camada extra de controle e segurança para o usuário quando ele está fora de casa ou em locais considerados não seguros.

Com a funcionalidade ativada, saldos, valores mantidos no cofrinho e até contas conectadas via open finance ficam ocultos na tela do aplicativo, tornando essas informações invisíveis em situações de risco.

A empresa destaca que, diferentemente de soluções semelhantes no mercado, o recurso não pode ser desativado apenas com reconhecimento facial, reduzindo a chance de coação. "A ideia é dar mais controle aos usuários e mais segurança nas transações do dia a dia", afirmou Ignacio Estivariz, vice-presidente do Mercado Pago no Brasil.

"O modo blindado vai ajudar os usuários a irem para a rua nessa véspera de carnaval", acrescentou Ferraz.

Além disso, a fintech também lançou o seguro de despesas, cuja cobertura aumenta conforme o cliente concentra o pagamento de contas de consumo dentro do aplicativo.

Acompanhe tudo sobre:Mercado PagoMercado LivreBancosNubank

Mais de Invest

Além da Bolsa: B3 consolida negócios de dados em única marca para destravar valor

Vale cai 2% e limita alta do Ibovespa

CEO do Itaú vê chance de IPO este ano — mas vai depender da eleição

Investidor torce o nariz para aportes em IA e derruba ações das 'techs': Google não escapou