Ibovespa interrompe rali: principal índice da B3 fechou em queda de 0,84% nesta quinta-feira, 29, aos 183.133 pontos (Nilton Fukuda / Agência Basil/Agência Brasil)
Repórter
Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 18h36.
Última atualização em 29 de janeiro de 2026 às 19h01.
O Ibovespa interrompeu a sequência recente de recordes e fechou em queda de 0,84% nesta quinta-feira, 29, aos 183.133 pontos, após inverter o sinal ainda no meio do pregão. O movimento foi marcado por realização de lucros, pressão do exterior e ajuste nas ações do setor bancário, depois de um início de sessão eufórico que levou o índice a renovar máximas históricas logo na abertura.
A reversão ganhou força após o Ibovespa ter atingido 186.449,75 pontos na máxima intradiária, ainda na primeira hora de negociações.
Ao longo da manhã, o índice passou a se afastar gradualmente do pico e, por volta das 11h, ainda sustentava alta de 0,52%, antes de virar definitivamente para o campo negativo.
Segundo Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos, o movimento era esperado diante de um "mercado esticado" após dias consecutivos de forte alta. "Esse movimento de realização da bolsa era plenamente esperado. A velha máxima do mercado sempre aparece: sobe no boato e cai no fato. É um movimento bastante típico de um mercado esticado", afirma.
Para ele, a realização observada ao longo do dia foi saudável. "A bolsa abriu forte, testou a região dos 186 mil pontos e depois passou por um movimento de realização, o que é perfeitamente natural. Não houve um fato negativo específico, foi muito mais um ajuste técnico após uma sequência intensa de altas e recordes", diz.
O principal peso sobre o índice veio do setor bancário, que devolveu parte dos ganhos recentes. Com exceção do Banco do Brasil (BBAS3), que subiu 0,39%, as ações dos grandes bancos encerraram em queda.
As units do BTG Pactual (BPAC11) lideraram as perdas, com queda de 2,01%, enquanto Itaú (ITUB4), que tem quase 9% de participação no índice, também contribuiu para a pressão negativa com queda de 0,41%.
Boragini destaca que os bancos haviam subido de forma expressiva nos últimos pregões, antecipando um Copom mais dovish, ou seja, mais próximo de um afrouxamento monetário.
"Hoje o setor devolve parte desse movimento. O Banco do Brasil foge um pouco dessa dinâmica porque ainda negocia com desconto em relação aos pares e segue sendo visto como um papel de valor, mas o recuo do setor como um todo pesou no índice", disse Boragini.
Já Renato Reis, analista da Blue3 Investimentos, aponta que o desempenho relativamente melhor das ações do Banco do Brasil reflete menos uma leitura de fundamentos e mais um "trade eleitoral".
A avaliação é de que pesquisas divulgadas recentemente, como a da Paraná Pesquisas, indicam uma disputa presidencial mais equilibrada do que se imaginava anteriormente, reduzindo a percepção de vitória fácil seja do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ou de uma candidatura oposicionista.
"Nesse contexto, o investidor passa a se posicionar antecipando cenários eleitorais, e não apenas olhando para o desempenho do banco ou para o mercado como um todo", disse Reis.
O mercado doméstico também refletiu o mau humor vindo do exterior. Em Nova York, os principais índices fecharam com resultados mistos, pressionados pela reação negativa a balanços de grandes empresas de tecnologia.
O Nasdaq foi o mais afetado, com forte recuo puxado principalmente pelas ações da Microsoft, que despencaram após o mercado reagir ao aumento expressivo dos gastos com infraestrutura de inteligência artificial.
Enquanto isso, a Meta destoou positivamente, sustentada por resultados acima do esperado e um guidance considerado sólido, e a Tesla teve desempenho misto, com investidores ponderando números fracos no curto prazo diante de uma narrativa estratégica de longo prazo focada em IA, veículos autônomos e energia.
O índice Dow Jones encerrou em alta de 0,11%, enquanto o S&P 500 cedeu 0,13% e o Nasdaq caiu 0,72%.
A queda do Ibovespa ocorreu apesar de um pano de fundo doméstico mais favorável. O pregão começou embalado pela decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), que manteve a Selic em 15% ao ano, mas adotou um tom mais dovish no comunicado, reforçando apostas de que o ciclo de cortes de juros pode começar já na próxima reunião.
Além disso, ações de peso ajudaram a limitar perdas mais expressivas no índice. Petrobras e Vale encerraram o dia em alta, sustentadas pelo avanço das commodities e pelo fluxo estrangeiro concentrado em blue chips.
As ações da Petrobras acompanharam a alta do petróleo no mercado internacional, em meio a tensões geopolíticas envolvendo o Irã, enquanto a Vale se beneficiou da valorização do minério.
"O índice só não caiu mais porque Petrobras e Vale continuam segurando o mercado. Quando o estrangeiro entra, ele entra nas blue chips, e essas duas seguem como as preferidas", afirma Boragini.
No caso da estatal petrolífera, ele destaca ainda o reforço positivo vindo do mercado financeiro, após o JP Morgan reiterar recomendação de compra para o papel, com preço-alvo de R$ 44.
Apesar do suporte das commodities, o especialista ressalta que o cenário segue sujeito a volatilidade, especialmente por se tratar de um ano eleitoral. "Historicamente, Petrobras e Banco do Brasil são ativos que tendem a ter mais volatilidade em anos de eleição, o que exige cautela do investidor", conclui.