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Bolsinhas de nicotina: nova forma de 'fumar' tem salvado mercado do tabaco

Produtos livres de fumaça, como Zyn e Velo, movimentam bilhões e atraem grandes fabricantes, mas preocupam autoridades de saúde e podem criar dependência

Zyn: bolsinhas de nicotina lideram a nova fase da indústria do tabaco. (Getty Images)

Zyn: bolsinhas de nicotina lideram a nova fase da indústria do tabaco. (Getty Images)

Ana Luiza Serrão
Ana Luiza Serrão

Repórter de Invest

Publicado em 11 de julho de 2026 às 08h00.

A indústria do tabaco encontrou um novo motor de crescimento para compensar a queda dos cigarros tradicionais, e investidores já começaram a apostar nessa mudança.

As "bolsinhas" de nicotina, pequenos sachês colocados entre a gengiva e a bochecha, devem movimentar mais de US$ 40 bilhões no mundo até 2033.

Somente em 2025, cerca de US$ 6,9 bilhões foram movimentados, segundo projeção da consultoria Grand View Research e fontes consultadas pelo New York Times. Para acompanhar essa expansão, as principais fabricantes já anunciaram mais de US$ 1 bilhão em investimentos em novas fábricas nos Estados Unidos.

Quem lidera essa corrida é a Zyn, marca da Swedish Match, controlada pela Philip Morris International. De acordo com o analista sênior da CFRA, Garrett Nelson, a empresa concentrava 61% do mercado varejista americano de bolsinhas de nicotina em valor, e cerca de 56% em volume, no primeiro trimestre.

"Elas são agora vistas como empresas de crescimento, e há muito otimismo em torno de produtos como Zyn e IQOS, bem como de outros produtos livres de fumaça", afirmou Nelson. E a Philip Morris quase dobrou o valor de suas ações nos últimos dois anos com apoio da Zyn, mesmo com a maior parte da receita ainda vindo dos cigarros.

Somente em 2026, porém, os papéis da Philip Morris acumulam alta de 17,15%. Nos últimos 12 meses, o avanço fica em 5,67%.

Concorrentes aceleram investimentos

A corrida, porém, está longe de ficar restrita à Philip Morris. A Reynolds American, subsidiária da British American Tobacco e dona da marca Camel, ampliou a produção das bolsinhas Velo em fábricas na Carolina do Norte e no Tennessee.

O porta-voz Luis Pinto pontuou que a companhia criou cerca de mil empregos nos EUA nos últimos dois anos, a maior parte ligada à expansão desse segmento, e planeja investir US$ 3,2 bilhões até 2030 no desenvolvimento de novos produtos de nicotina, tendo as bolsinhas como principal aposta.

Já a Altria, fabricante do Marlboro, também entrou na disputa com as marcas on! e on! PLUS, produzidas em Richmond, na Virgínia, após receber autorização da agência reguladora americana para novos produtos em dezembro.

A Swisher, tradicionalmente conhecida pelos charutos, também anunciou uma expansão de US$ 135 milhões em sua fábrica na Flórida, com previsão de criar ao menos 240 empregos, enquanto a sueca WiJo investe US$ 13 milhões para instalar sua primeira fábrica na América do Norte.

A própria Altria comprou a Helix Sweden em 2019, enquanto a Philip Morris desembolsou US$ 16 bilhões pela Swedish Match em 2022.

Ambiente regulatório favorece expansão

Em maio, a agência americana de alimentos e medicamentos flexibilizou as regras para bolsinhas de nicotina e cigarros eletrônicos. No fim de junho, autorizou ainda que produtos da linha Zyn fossem comercializados com alegações de menor risco de câncer e outras doenças em comparação aos cigarros convencionais.

O secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., também passou a defender publicamente o produto, chegando a classificá-lo como uma das formas mais seguras de consumir nicotina.

Mas, apesar do entusiasmo da indústria e dos investidores, o avanço das bolsinhas de nicotina está longe de ser consenso. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a American Lung Association defendem regras mais rígidas para o segmento, citando o risco de dependência e o apelo entre consumidores mais jovens.

Em abril, a França proibiu a venda desses produtos, medida que provocou atritos comerciais com a Suécia.

Alta da concentração de nicotina preocupa

Para o professor da Duke University School of Medicine e integrante do comitê consultivo sobre produtos de tabaco da agência reguladora americana, Sven Jordt, outro ponto de preocupação é o aumento da concentração de nicotina nas versões mais potentes de marcas como Zyn Ultra, Grizzly e Velo Plus.

Do lado da indústria, a Philip Morris rejeita a avaliação de que seus produtos tenham como público-alvo adolescentes. O porta-voz Sam Dashiell destacou que a estratégia da empresa é atingir os cerca de 25 milhões de adultos americanos que ainda fumam cigarros.

"Produtos livres de fumaça são uma opção melhor para os atuais consumidores de nicotina em idade legal que, de outra forma, continuariam fumando ou utilizando outros produtos de tabaco tradicionais", detalhou.

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