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Bolsa cai no Brasil e NY sobe: o dinheiro está voltando para os EUA?

Mesmo com fluxo estrangeiro positivo no ano, saídas recentes e alta da Nasdaq indicam mudança no curto prazo

Fluxo estrangeiro: abril já registra episódios pontuais de retirada de recursos, com seis sessões negativas que somam saídas de quase R$ 5,9 bilhões (Patricia Monteiro/Bloomberg/Bloomberg)

Fluxo estrangeiro: abril já registra episódios pontuais de retirada de recursos, com seis sessões negativas que somam saídas de quase R$ 5,9 bilhões (Patricia Monteiro/Bloomberg/Bloomberg)

Publicado em 27 de abril de 2026 às 05h00.

Após uma sequência de recordes que levou o Ibovespa a ficar a pouco mais de 1 mil dos 200 mil pontos pela primeira vez em sua história, o mercado acionário brasileiro entrou em um movimento de correção nas últimas sessões, ao mesmo em que os principais índices de Nova York voltaram a ganhar força e renovar máximas. A mudança de direção acontece em meio a sinais de que parte do capital estrangeito começa a "voltar para casa", no mercado dos Estados Unidos.

Entre o fim de março e o dia 14 de abril, o Ibovespa engatou uma forte trajetória de alta, acumulando ganhos expressivos e registrando seu 18º recorde nominal em menos de quatro meses, ao fechar aos 198.657,33 pontos, depois de tocar a máxima histórica intradiária de 199.354,81 pontos.

No período, o principal índice acionário da B3 chegou a superar inclusive o recorde ajustado pela inflação, que não era alcançado há 18 anos, impulsionado por um fluxo robusto de investidores estrangeiros. Mas, desde então, o cenário mudou.

Entre os dias 15 e 17 de abril, o índice registrou três quedas consecutivas, em paralelo a uma sequência de saídas de capital externo. O movimento de correção se intensificou nos dias seguintes. Após leve alta no dia 20, o Ibovespa voltou a cair com mais força, recuando 1,65% na última quarta, 22, e mais 0,78% no dia seguinte, aos 191.378,44 pontos. No acumulado, desde o pico do dia 14, a queda é de cerca de 3,66%.

Esse movimento acontece mesmo em um contexto de fluxo estrangeiro ainda positivo no ano. Dados da B3 mostram que, até 20 de abril, investidores internacionais aportaram R$ 65,3 bilhões na bolsa brasileira em 2026, mantendo participação dominante de 61,2% no volume negociado.

Ainda assim, abril já registra episódios pontuais de retirada de recursos, com seis sessões negativas que somam saídas de quase R$ 5,9 bilhões, indicando uma mudança de comportamento no curtíssimo prazo.

Dan Kawa, economista e gestor e sócio da We Capital, escreveu em sua conta na rede X, antigo Twitter, que esse ajuste não chega a surpreender.

"Aparentemente, estamos passando por alguma rotação nos mercados globais, com a bolsa dos EUA se destacando e, alguns queridinhos, como o Brasil, sofrendo alguma realização de lucros nos últimos dias. Dado a magnitude e velocidade da alta e dos fluxos recentes, uma acomodação é natural e, não necessariamente, significa qualquer mudança estrutural ou permanente de tendência", afirmou.

Enquanto Ibovespa recua, Nasdaq e S&P renovam recordes

Enquanto isso, em Nova York, o cenário foi oposto. Na quarta, quando o Ibovespa caiu 1,65%, os principais índices americanos voltaram a renovar recordes de fechamento. O Nasdaq avançou 1,64%, o S&P 500 subiu 1,05% e o Dow Jones ganhou 0,69%, em meio a um ambiente mais favorável ao risco após o alívio geopolítico com a extensão do cessar-fogo envolvendo os Estados Unidos.

O desempenho recente reforça uma leitura já destacada por relatórios de grandes bancos nacionais, de que há sinais de uma nova rotação global de capital, com investidores migrando de mercados de "valor", como o Brasil, para ativos de "growth", de crescimento, especialmente tecnologia nos Estados Unidos.

O Nasdaq, principal termômetro desse movimento por reunir as gigantes de tecnologia, acumula alta de 7,8% desde o início dos conflitos globais e de 13,2% apenas em abril, superando com folga o desempenho de veículos atrelados ao Brasil.

Segundo o Itaú BBA, em relatório nesta quinta, de um lado, os fundamentos que sustentaram o fluxo estrangeiro para o Brasil seguem presentes. O valuation permanece descontado, com P/L, o preço por lucro, abaixo de 10 vezes, ciclo de queda de juros, exposição a commodities e relativa distância dos conflitos globais.

"O lado positivo: o mercado brasileiro está acima dos níveis pré-conflito. Observamos que o setor financeiro foi o mais comprado por investidores estrangeiros em abril. Ao mesmo tempo, os investidores estrangeiros continuam adquirindo commodities, com os setores de energia e materiais se destacando neste ano", afirmou.

Por outro lado, o banco chama atenção para sinais de mudança no apetite global. "O lado negativo: dito isso, estamos observando que os investidores globais estão começando a voltar a apostar no crescimento, o Nasdaq/setor de tecnologia superou os mercados relacionados a valor", aponta a instituição, destacando o desempenho relativo superior dos ativos americanos.

Mudança de fluxo é estrutural ou tática? Gestores avaliam

Além do fluxo, outro ponto de atenção está na qualidade do crescimento das empresas brasileiras. Apesar de o consenso ainda indicar alta de 9,8% nos lucros do Ibovespa em 2026, os dados mostram uma dinâmica mais frágil. O Itaú BBA calcula que apenas 43% das companhias têm revisões positivas, e, ao excluir o setor de óleo e gás, as estimativas passam a ser negativas.

O ambiente de juros elevados, com a taxa básica de juros, a Selic, em 14,75% ao ano, também pressiona margens, especialmente em empresas voltadas ao mercado doméstico.

Filipe Villegas, estrategista de ações da Genial Investimentos, observa que a Nasdaq virou destino do capital, mas não é fator principal, já que motivo da saída é doméstico.

"O Brasil não perde capital para a Nasdaq por causa da Nasdaq em si; perde porque o pacote doméstico (fiscal frouxo em ano eleitoral, câmbio em deterioração, Copom encurralado entre inflação e crescimento) reduziu a assimetria que atraía o estrangeiro no primeiro trimestre. A Nasdaq é o destino; o motivo da saída está em casa", afirma Villegas.

Ainda assim, Lucas Pippa, sócio da Blue3 Investimentos, diz que o movimento recente parece mais tático do que estrutural.

"Se fosse estrutural, já teríamos visto isso ao longo dos últimos meses. E o que vimos foi um boom da bolsa brasileira mesmo com juros a 15% ao ano [até março]. Essas variáveis, juros altos e incerteza fiscal, não mudaram de forma relevante", afirma. Pippa ressalta, porém, que o nível elevado de juros impacta diretamente o lucro das empresas, o que acaba se refletindo nos múltiplos.

Já Luis Fonseca, sócio-fundador da Nest Asset Management, avalia que ainda é cedo para cravar uma mudança de ciclo.

"Acredito que sim, mas ainda é cedo para determinar que esse ciclo de migração para valor ou emergentes tenha terminado. Esses movimentos são estruturais e acontecem ao longo de vários meses", diz ao comentar a rotação recente para tecnologia. Segundo Fonseca, as saídas recentes tendem a refletir um ajuste de curto prazo, e não uma reversão definitiva.

O gestor também destaca que o crescimento dos lucros continua sendo o principal desafio estrutural do mercado brasileiro.

"O lucro das empresas brasileiras, quando medido em dólares, está no mesmo patamar há mais de 10 anos, e tem sido o calcanhar de aquiles do mercado local. Se os lucros não crescem no longo prazo, os movimentos de preço tendem a ser mudanças de valuation, e não altas sustentáveis", afirma.

Esse pano de fundo ajuda a explicar por que o desempenho recente do Ibovespa pode ser mais sensível a mudanças no fluxo externo. Com resgates acumulados de R$ 11,2 bilhões na indústria local de ações em 2026, o investidor brasileiro segue com baixa participação, o que reduz o "colchão" de liquidez para momentos de saída estrangeira.

Na avaliação dos gestores, uma mudança estrutural de tese exigiria deterioração dos fundamentos que justificaram a entrada. O que significa valuation esticado, deterioração fiscal confirmada ou reversão do ciclo de commodities. "Nada disso foi observado ainda", diz Villegas.

"O que se tem é um gatilho de curto prazo (sobrecompra + risco local concentrado em uma semana) combinado com um gatilho externo (prêmio geopolítico e rotação growth). O teste de estrutura virá depois do Copom e da próxima temporada de resultados domésticos: se os lucros brasileiros decepcionarem fora de óleo e gás, aí sim a tese se redesenha", conclui.

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