Ciência

Por que os neandertais desapareceram e o Homo sapiens sobreviveu?

Estudos mostram que neandertais tinham capacidades sofisticadas semelhantes às nossas, mas clima, população, competição e até o acaso podem ter influenciado seu destino

Evolução humana: diferentes espécies de hominínios coexistiram durante parte da pré-história, mas apenas o Homo sapiens permanece atualmente (Freepik)

Evolução humana: diferentes espécies de hominínios coexistiram durante parte da pré-história, mas apenas o Homo sapiens permanece atualmente (Freepik)

Publicado em 26 de outubro de 2026 às 12h15.

Priorizar nos meus resultados Google
Tudo sobreTeoria da evolução
Saiba mais

Os neandertais dominaram regiões da Europa e da Ásia por centenas de milhares de anos, desenvolveram ferramentas, utilizaram o fogo e conviveram com os ancestrais dos humanos modernos. Apesar dessas capacidades, desapareceram como população distinta, enquanto o Homo sapiens se tornou a única espécie humana sobrevivente.

O motivo dessa diferença permanece sem uma resposta definitiva. Pesquisas arqueológicas e genéticas indicam que os neandertais possuíam habilidades mais complexas do que se imaginava e que parte de sua população se misturou aos humanos modernos.

De acordo com o jornal The New York Times, especialistas destacam que fatores como mudanças climáticas, tamanho das populações, competição por recursos e cruzamentos entre espécies podem ajudar a explicar o desaparecimento.

A discussão também questiona uma interpretação antiga da evolução humana: a de que o Homo sapiens teria sobrevivido simplesmente por ser mais inteligente ou desenvolvido.

Os neandertais eram tão inteligentes quanto os humanos?

Durante décadas, os neandertais foram retratados como seres primitivos, com capacidades inferiores às dos humanos modernos. Entretanto, descobertas arqueológicas revelaram comportamentos associados ao planejamento, à cooperação e ao uso de tecnologias.

Entre as evidências estão a produção de ferramentas, o domínio do fogo, possíveis manifestações artísticas e cuidados com integrantes do grupo que apresentavam doenças ou limitações físicas. Um exemplo está na caverna de Bruniquel, na França, onde pesquisadores encontraram estruturas circulares construídas com fragmentos de estalagmites há aproximadamente 176.500 anos.

As estruturas apresentam vestígios de fogo e foram produzidas em uma região profunda da caverna. Segundo Chris Stringer, paleoantropólogo do Museu de História Natural de Londres, a construção exigiu planejamento, comunicação e trabalho coletivo.

Para ele, essas descobertas não demonstram que neandertais e humanos modernos possuíam capacidades idênticas, mas enfraquecem a ideia de uma diferença intelectual absoluta entre as espécies.

A herança neandertal presente nos humanos modernos

Os neandertais desapareceram como uma população humana distinta, mas parte de seu material genético permanece presente em pessoas que vivem atualmente. O sequenciamento do genoma neandertal, divulgado em 2010, revelou que ocorreram cruzamentos entre neandertais e ancestrais dos humanos modernos.

Atualmente, pessoas com ancestralidade não africana possuem, em média, cerca de 2% de DNA neandertal. As análises genéticas indicam que esses cruzamentos ocorreram durante um período de aproximadamente 7 mil anos, iniciado há mais de 50 mil anos.

Pesquisas também identificaram cruzamentos entre humanos modernos e denisovanos, outro grupo humano que viveu na Ásia. Segundo o geneticista Joshua Akey, da Universidade Princeton, ainda não se sabe com precisão a frequência desses encontros nem a importância que tiveram para a evolução das populações humanas.

Estudos atuais investigam como genes herdados desses grupos influenciam características relacionadas ao sistema imunológico, aos ritmos biológicos e à anatomia.

Por que apenas o Homo sapiens sobreviveu?

Uma das hipóteses considera que o tamanho das populações tenha influenciado o destino das diferentes espécies humanas. Os neandertais viviam em grupos menores e mais isolados do que os humanos modernos, o que poderia aumentar a vulnerabilidade diante de mudanças ambientais.

Durante a Era do Gelo, oscilações climáticas e dificuldades para obter recursos também podem ter afetado a sobrevivência desses grupos. A arqueóloga Eleanor Scerri, do Instituto Max Planck de Geoantropologia, considera que fatores ligados ao acaso podem ter desempenhado um papel importante.

O Homo sapiens, originário da África e com uma população maior, pode ter apresentado vantagens demográficas em relação a grupos que enfrentavam condições climáticas mais severas.

Outras possibilidades investigadas incluem diferenças na resistência a doenças, na organização social, na transmissão de conhecimentos e na formação de alianças entre comunidades. Porém, os pesquisadores ainda não conseguiram determinar o peso de cada fator.

O que aconteceu com as outras espécies humanas?

Os neandertais não foram os únicos representantes da linhagem humana a desaparecer. Ao longo dos últimos 100 mil anos, diferentes grupos ocuparam regiões do planeta, tais como:

  • Neandertais: viveram na Europa e em partes da Ásia Ocidental.
  • Denisovanos: habitaram regiões da Ásia e deixaram vestígios genéticos em populações atuais.
  • Homo floresiensis: espécie de pequeno porte que viveu em uma ilha da Indonésia.
  • Homo erectus: espécie que existiu por mais de um milhão de anos e cujos últimos representantes conhecidos viveram em Java.

A coexistência desses grupos mostra que a presença de apenas uma espécie humana no planeta é uma condição relativamente recente.

Os pesquisadores também destacam que a evolução humana não ocorreu como uma sequência linear de espécies progressivamente superiores. Diferentes linhagens coexistiram, desenvolveram capacidades próprias e, em alguns casos, tiveram descendentes em comum.

O Homo sapiens também pode desaparecer?

A sobrevivência do Homo sapiens não significa que a espécie esteja protegida contra a extinção.

Os neandertais existiram por aproximadamente 400 mil anos, enquanto o Homo erectus permaneceu no planeta por mais de um milhão de anos. Já os humanos modernos surgiram há cerca de 300 mil anos, segundo estimativas mencionadas pelos pesquisadores.

Para Michael Petraglia, diretor de um centro australiano de pesquisas sobre as origens humanas, compreender a história evolutiva ajuda a entender a trajetória da espécie humana.

Acompanhe tudo sobre:Teoria da evoluçãoArqueologiaCuriosidades

Mais de Ciência

Vulcão no Japão que teve erupção gigante há 7.300 anos volta a acumular magma

Astrônomos descobrem novos segredos dos primeiros cinco minutos do Universo

Canetas emagrecedoras podem afetar a menstruação? Entenda os efeitos no ciclo

Mounjaro ou anorexia? Médicos alertam que canetas podem mascarar transtornos alimentares graves