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Nvidia: lucro sobe, mas ações não (Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter
Publicado em 8 de julho de 2026 às 10h01.
A empresa mais valiosa do mundo é, também, um mistério para o mercado de inteligência artificial (IA). Neste ano, até agora, a Nvidia bateu recordes seguidos de receita e lucro — e, ainda assim, viu sua ação ficar praticamente parada, enquanto o restante do setor de chips disparava.
O descompasso levou a avaliação de mercado da fabricante, medida pela relação entre preço e lucro, de volta aos níveis anteriores à alta da IA.
Os números são difíceis de conciliar. No primeiro trimestre de seu ano fiscal de 2027, a Nvidia registrou receita recorde de US$ 81,6 bilhões, alta de 85% em relação ao ano anterior, segundo o balanço da empresa.
Mesmo assim, no acumulado de 2026, a ação subiu apenas cerca de 4%, abaixo dos ganhos do índice S&P 500 e muito atrás do índice de semicondutores, que mais que dobrou no período.
A desconexão entre o desempenho da empresa e o da ação é tão evidente que o próprio presidente-executivo da Nvidia, Jensen Huang, foi questionado sobre ela.
Em entrevista à emissora CNBC em 21 de maio, logo após a divulgação do balanço, ele minimizou a queda do papel e apostou que o mercado acabaria por reconhecer os resultados.
"Esse é um dos mistérios do universo, mas eu acho que tudo isso vai se resolver", afirmou Huang à emissora. "No fim, não dá para segurar o desempenho."
Sobre a concorrência, o executivo rebateu o ceticismo afirmando que muitos dos chips rivais anunciados foram, em suas palavras, cancelados, adiados ou "silenciosamente diminuídos".
De fato, a empresa não desacelerou. A Nvidia mais que dobrou o lucro líquido no último balanço, e a demanda por seus processadores de data center segue forte.
Mas, quando o fundador de uma companhia avaliada em quase US$ 5 trilhões precisa recorrer aos "mistérios do universo" para explicar o preço da própria ação, é sinal de que o mercado e o negócio pararam de concordar.
Analistas apontam uma combinação de fatores para o marasmo do papel.
O primeiro é a China. A receita da Nvidia com data centers no país caiu praticamente a zero, depois de contribuir com bilhões de dólares um ano antes, por causa do aperto nos controles de exportação dos Estados Unidos.
O segundo é a rotação de investidores.
Com a Nvidia estagnada, o "dinheiro quente" migrou para outros gargalos da cadeia de chips — as fabricantes de memória, como Micron e Sandisk, em meio a uma escassez, e as de processadores, como Intel, AMD e Arm, beneficiadas pela demanda de inferência de IA.
O terceiro é um sinal de demanda observado em tempo real. O preço de aluguel de uma GPU B200 nas nuvens caiu de US$ 6,11 por hora, no fim de maio, para US$ 4,22 em 21 de junho — uma queda de cerca de 31% em três semanas.
Para os investidores, isso sugere que a oferta de capacidade pode estar alcançando a demanda por treinamento de modelos, o que pressiona o poder de precificação da Nvidia.
Há ainda uma explicação ligada ao próprio tamanho da empresa.
Em nota, analistas da corretora TD Cowen argumentaram que a Nvidia ficou tão grande que deixou de negociar como as outras ações, sujeita a dinâmicas de fluxo de fundos incomuns para uma companhia de mais de US$ 4 trilhões.
O raciocínio é aritmético, já que é muito mais difícil adicionar os próximos US$ 2 trilhões de valor de mercado do que foram os últimos.
Para dobrar de tamanho a partir do patamar atual, a Nvidia precisaria se aproximar de US$ 9 trilhões — o equivalente, segundo a corretora, à soma da produção econômica da Alemanha e da Índia.
Para boa parte de Wall Street, o recuo criou uma distorção, e não um alerta.
A ação passou a ser negociada a cerca de 12 vezes os lucros projetados para o ano fiscal de 2029, múltiplo normalmente reservado a empresas de baixo crescimento, e não a uma companhia que cresce perto de 85% ao ano.
Entre os analistas que acompanham o papel, a ampla maioria mantém recomendação de compra, com preço-alvo médio bem acima da cotação atual.
A aposta desses investidores é que, se a nova geração de chips, a linha Vera Rubin, entrar em produção no ritmo previsto, o descompasso entre o desempenho da empresa e o de sua ação tende a se corrigir. Até lá, a Nvidia segue na posição incomum de lucrar como nunca e, mesmo assim, ver o mercado tratá-la como se o melhor já tivesse passado.