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O chip imperfeito por trás do MacBook mais barato

Sucesso do laptop de entrada esgota estoque de chips reaproveitados e pode comprimir margens da companhia

MacBook Neo: computador fabricado com chips reciclados dão margem à Apple (Getty Images)

MacBook Neo: computador fabricado com chips reciclados dão margem à Apple (Getty Images)

Publicado em 19 de maio de 2026 às 05h40.

O MacBook Neo, o laptop mais barato que a Apple já vendeu (por R$ 7.299 no Brasil, US$ 599 nos Estados Unidos), foi construído em cima de uma lógica que a indústria de semicondutores pratica há décadas mas raramente discute em público: aproveitar os chips que não passaram no controle de qualidade.

O A18 Pro, o mesmo processador do iPhone 16 Pro, tem seis núcleos de GPU.

Durante a fabricação, alguns chips saem da linha com um núcleo com defeito.

Em vez de descartá-los, a Apple desligou o componente defeituoso e reaproveitou o chip no MacBook Neo, que, por isso, roda com cinco núcleos de GPU.

Esses chips "descartados", chamados pela indústria de downbinned, custam efetivamente zero para a Apple, já que a companhia já havia pago pela produção original para o iPhone, segundo o analista Ben Thompson, da Stratechery.

É por isso que o laptop consegue ser vendido por R$ 7.299 e ainda assim gerar margem.

O problema, relatado por Tim Culpan em sua newsletter Culpium, baseado em fontes na cadeia de suprimentos de Taiwan, é que o plano funcionou bem demais.

O dilema dos chips grátis

A Apple havia planejado produzir entre 5 e 6 milhões de unidades do MacBook Neo com os chips reaproveitados do iPhone 16 Pro e, depois, encerrar essa versão do produto.

O estoque de chips downbinned com cinco núcleos de GPU, porém, está se esgotando antes do previsto, porque o laptop está vendendo muito mais do que a companhia esperava, segundo o Culpium.

"Estamos com restrição de oferta no MacBook Neo", disse o CEO Tim Cook na conferência de resultados do segundo trimestre fiscal, em 30 de abril. "Éramos muito otimistas com o produto antes de anunciá-lo, mas subestimamos o nível de entusiasmo que ele geraria."

A Apple decidiu não deixar o produto acabar nas prateleiras.

Segundo o Culpium, a companhia dobrou a meta de produção — de 5 a 6 milhões para 10 milhões de unidades — e pediu à TSMC uma nova rodada de fabricação de chips A18 Pro em caráter de urgência, conhecida no setor como hot lot.

Quanta e Foxconn, montadoras do laptop em fábricas no Vietnã e na China, estão correndo para cumprir os pedidos. Os prazos de entrega chegaram a quatro semanas.

O novo lote, porém, muda a equação financeira. Os chips produzidos agora são top de linha e sem defeitos. Para mantê-los com cinco núcleos de GPU, como todos os MacBook Neo vendidos até hoje, a Apple precisará desligar um núcleo por software.

E o custo de fabricação desses chips, diferente dos chips reaproveitados, não é zero. Junto com o aumento nos preços de memória DRAM e alumínio, a segunda rodada de produção vai comprimir as margens do produto, segundo o Culpium.

Um mercado que a Apple nunca havia disputado

O MacBook Neo foi lançado em 11 de março de 2026 a R$ 7.299 no Brasil — R$ 6.199 com desconto educacional — e representa a entrada mais agressiva da Apple no segmento de laptops abaixo de R$ 8.000, historicamente dominado por Chromebooks e Windows de entrada.

Até então, o notebook mais barato da Apple no Brasil era o MacBook Air, a R$ 13.999.

O produto chega num momento favorável: segundo previsão da Omdia de fevereiro de 2026, fabricantes de Windows enfrentam aumento de US$ 90 a US$ 165 por unidade em custos de componentes, empurrando o preço médio de notebooks Windows de cerca de US$ 850 para US$ 915.

Para manter margens, muitos laptops Windows terão de ultrapassar US$ 1.000, o o equivalente a mais de R$ 5.000, na cotação atual.

A Counterpoint Research projeta que a Apple pode capturar 15% do mercado de laptops de entrada até o fim de 2026, impulsionada principalmente pelo MacBook Neo.

A TrendForce estima que os embarques de notebooks Apple crescerão 7,7% em 2026, elevando a participação do macOS no mercado global para 13,2%, em um cenário em que o mercado geral de notebooks deve cair 9,2%, segundo a mesma firma.

Cook confirmou na conferência de resultados que o Mac teve seu melhor lançamento da história em termos de compradores de primeira viagem — consumidores que nunca haviam possuído um Mac.

O que vem depois

A segunda geração do MacBook Neo, segundo o Culpium, está prevista para meados de 2027 e deverá usar chips A19 Pro, os reaproveitados do iPhone 17 Pro, com 12GB de memória unificada em vez dos 8GB atuais.

A lógica se repete: chips com um núcleo de  GPU desativado, custos menores, preço competitivo.

A estratégia de usar chips imperfeitos para expandir mercado não é nova. A AMD e a Intel fazem isso há décadas com processadores de desktop.

O que a Apple fez foi aplicar a mesma lógica a um produto de consumo de massa, num mercado que a companhia nunca havia disputado de frente, no momento em que seus concorrentes estão com os custos em alta e a capacidade de resposta reduzida.

Se funcionar da segunda vez, a Apple terá transformado o lixo da linha de produção num dos produtos mais estratégicos de sua história.

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