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(Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter
Publicado em 18 de junho de 2026 às 07h39.
Última atualização em 18 de junho de 2026 às 07h42.
O almoço de duas horas que reuniu os principais executivos de inteligência artificial do mundo com líderes do G7, na quarta-feira, 17, em Évian-les-Bains, não produziu nenhum anúncio regulatório, ou compromisso formal. Mas deixou claro algo que analistas já vinham apontando: o mapa de poder da IA de fronteira está, agora, visível — e ele passa direto pela mesa de chefes de Estado.
Segundo o Financial Times, Dario Amodei, da Anthropic, pediu aos líderes presentes que 'resistam à tentação de se fragmentar' nas abordagens regulatórias sobre IA, defendendo que países democráticos trabalhem juntos para impedir que atores mal-intencionados tenham acesso às ferramentas mais avançadas.
Sam Altman, da OpenAI — rival histórico de Amodei — apoiou o apelo à mesma mesa, dizendo que os países do G7 deveriam ter acesso a ferramentas de cibersegurança baseadas em IA.
Demis Hassabis, do Google DeepMind, também pediu colaboração. Segundo a CNBC, Amodei e Hassabis propuseram formalmente uma coalizão liderada pelos Estados Unidos para definir regras e padrões globais sobre inteligência artificial.
A leitura mais precisa do encontro, segundo a consultoria FourWeekMBA, é que se tratou de uma conversa, não uma negociação. Implantação segura, salvaguardas éticas e soberania tecnológica estiveram na mesa, e nada foi resolvido.
A ausência de qualquer comunicado conjunto ou compromisso vinculante é, em si, um dado relevante: a "cerca" geopolítica em torno da IA ainda está sendo desenhada, não fechada.
Jessica Brandt, do Council on Foreign Relations, resumiu à CNBC o que essa cena simboliza. Segundo ela, para fazer promessas críveis sobre IA, chefes de Estado agora precisam da cooperação — senão do aval — de um punhado de executivos do setor privado que efetivamente constroem a tecnologia.
É uma inversão de hierarquia que poucos setores conseguiram impor a uma cúpula do G7.
O pedido de coalizão liderada pelos EUA encontrou um continente europeu mais desconfiado do que receptivo.
Segundo a Associated Press, europeus buscam controles sobre o domínio americano da IA, e chegaram ao almoço com uma agenda concreta de soberania, não apenas queixas genéricas.
O recall do Fable 5, determinado pelo próprio governo americano por motivos de segurança nacional, a decisão da França de afastar a Palantir de contratos públicos e a adoção do Mistral por servidores públicos franceses formaram o pano de fundo dessa postura.
Emerson Brooking, do Atlantic Council, disse que os controles de exportação americanos sobre os modelos da Anthropic "mudaram tudo".
G7 e IA: Donald Trump, Sam Altman e Demis Hassabis durante almoço com líderes do G7 em Évian (Julia Demaree Nikhinson / POOL / AFP/AFP)
Vários países do G7 já vinham sinalizando a necessidade de investimento soberano em IA, mas sempre partindo do pressuposto de que isso conviveria com acesso à tecnologia americana. Essa suposição, segundo Brooking, não é mais garantida.
Emmanuel Macron, anfitrião do encontro, segundo o FT, disse que a ação do governo Trump contra a Anthropic "esclareceu o que está em jogo" e alertou que os principais desenvolvedores de IA poderiam sofrer se o governo "de um dia para o outro puder desligar a chave", em referência direta à suspensão do Fable 5 e do Mythos 5 dias antes do G7.
A administração Trump agiu depois de receber informações do CEO da Amazon, Andy Jassy, e de outras fontes, sugerindo que os modelos avançados da Anthropic tinham falhas que poderiam comprometer a segurança nacional, versão que a própria Anthropic considera exagerada, mas que motivou o desligamento total dos modelos para cumprir os controles de exportação.
Parte da urgência do encontro tem origem técnica.
Anúncios recentes de modelos de IA com capacidades cibernéticas avançadas — incluindo o próprio Mythos, da Anthropic, e o GPT-5.5 Cyber, da OpenAI — geraram uma onda de preocupação entre empresas e governos sobre vulnerabilidades digitais.
Cameron Kerry, da Brookings Institution, descreveu o lançamento do Mythos como um "ponto de inflexão" no desenvolvimento de IA, que levou o governo Trump a considerar regulação mais dura sobre a tecnologia, a mesma lógica que, dias antes do G7, resultou na suspensão do acesso de estrangeiros aos modelos mais avançados da Anthropic.
Nenhuma das partes saiu do almoço com vitória clara.
Os laboratórios de IA conseguiram, pela primeira vez, sentar formalmente à mesa de chefes de Estado numa cúpula do G7 — um ganho simbólico e de acesso político relevante.
Mas não conseguiram arrancar nem uma coalizão formal liderada pelos EUA, nem qualquer sinal de que a Europa vai abandonar sua busca por independência tecnológica.
O que existe, por ora, é um mapa de tensões mais nítido.
Estados Unidos tentando consolidar liderança e ao mesmo tempo restringindo o que suas próprias empresas podem exportar; Europa pressionando por soberania concreta, não apenas retórica; e os CEOs de IA, no meio disso tudo, defendendo cooperação internacional enquanto operam sob as mesmas restrições que motivam a desconfiança europeia.