Parceiro institucional:
Iniciativa responde por 15% da produção da empresa e inclui contratação de egressos e apoio à criação de pequenos negócios
Repórter de ESG
Publicado em 2 de agosto de 2026 às 08h00.
Conhecida pelas camisetas estampadas e pelo foco em consumo consciente, a marca mineira Chico Rei incorporou uma iniciativa de ressocialização à própria operação.
Desde 2020, a empresa mantém uma célula de produção na Penitenciária Professor Ariosvaldo Campos Pires, em Juiz de Fora (MG), onde pessoas privadas de liberdade são capacitadas para atuar na confecção de camisetas. Hoje, a unidade responde por cerca de 15% da produção da marca.
Ao longo dos últimos cinco anos, 76 detentos passaram pelo projeto. Além da qualificação profissional durante o cumprimento da pena, a empresa afirma que parte dos participantes foi contratada após conquistar a liberdade, enquanto outros seguem em processos de recolocação. Em um dos casos, a iniciativa deu origem a um novo fornecedor da própria Chico Rei.
Foi o que aconteceu com Rafael Inácio. Aos 20 anos, ele ingressou no sistema prisional e, durante quase quatro anos em regime fechado, passou a trabalhar na célula de produção da empresa. O que começou como uma oportunidade para remição de pena acabou se transformando em uma profissão.
"Quando comecei, meu foco era diminuir a pena. Com o tempo, percebi que precisava mudar de vida. Minha filha já tinha seis anos e eu nunca tinha convivido com ela. Foi quando decidi aproveitar aquela oportunidade de verdade e construir um caminho diferente", afirma.
Durante uma saída temporária, Rafael conseguiu autorização judicial para comprar as primeiras máquinas de costura e montou uma pequena oficina em um espaço cedido pela mãe. Hoje, em regime semiaberto, recebe da Chico Rei lotes de camisetas já cortadas, faz a montagem das peças e as devolve para as etapas de estamparia e comercialização.
Segundo a empresa, desde o início da iniciativa foram investidos mais de R$ 370 mil na estrutura da operação, na capacitação dos participantes e em melhorias dentro da unidade prisional.O projeto busca enfrentar um dos principais desafios para quem deixa o sistema prisional: a inserção no mercado de trabalho.
Dados de 2023 da Secretaria Nacional de Políticas Penais mostram que apenas 24% das pessoas privadas de liberdade trabalham no Brasil e somente metade delas recebe remuneração. Já um levantamento da organização Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas aponta que 45% dos egressos relataram dificuldades para conseguir emprego após deixarem a prisão.
"A gente sempre bateu muito na tecla da ressocialização. O que entendemos é que ela é uma via de mão dupla. A sociedade também precisa estar preparada para receber essa turma. Então a gente prepara essa saída e, ao mesmo tempo, prepara a chegada dentro da nossa fábrica aqui do lado de fora", afirma Bruno Imbrizi, CEO e fundador da Chico Rei.
Fundada em Juiz de Fora, a Chico Rei ficou conhecida pelas camisetas com estampas voltadas à cultura pop, música, cinema e humor. A empresa também reúne iniciativas ligadas à agenda ESG, como o uso de algodão certificado pela Better Cotton Initiative (BCI) e o selo PETA Approved Vegan para a matéria-prima das camisetas, além de eliminar plástico das embalagens e apoiar a reciclagem por meio de cooperativas.
No caso da fábrica instalada na penitenciária, a estratégia combina a operação produtiva com a qualificação profissional e a geração de oportunidades de trabalho para pessoas privadas de liberdade.